Queda do desemprego, alta da renda e menor desigualdade marcam a recuperação do mercado de trabalho, enquanto 2025 indica perda de ritmo e desafios estruturais persistentes
Por Geilson Ferreira
O período entre 2020 e 2025 marca uma das transformações mais relevantes do mercado de trabalho do Espírito Santo nas últimas décadas. Os indicadores de emprego, desemprego, informalidade, participação, renda e desigualdade revelam um ciclo completo, que começa com o choque da pandemia, passa por uma forte recuperação em 2021 e evolui para uma fase de crescimento mais moderado, porém estruturalmente mais sólido.
A leitura conjunta desses dados mostra que a economia capixaba não apenas recuperou as perdas da crise, mas entrou em um novo patamar de funcionamento, com maior formalização, renda mais elevada e redução da desigualdade, ainda que persistam desafios estruturais importantes.
O mercado de trabalho formal no Espírito Santo, medido pelo Novo CAGED, passou por três fases claras: em 2020, mesmo com os impactos da pandemia, o saldo ainda foi levemente positivo (+2,1 mil vagas), refletindo resiliência parcial do emprego formal. Em 2021, ocorre a maior expansão da série recente, com mais de 51 mil vagas, impulsionada pela reabertura da economia e pela demanda reprimida.
Entre 2022 e 2024, o estado entra em um ciclo de crescimento sustentado, porém menos acelerado, com geração anual na faixa de 30 a 35 mil vagas. Já em 2025, há nova desaceleração (+13,8 mil vagas), indicando normalização do ritmo de contratações.
O aumento consistente do estoque de empregos, mesmo diante da desaceleração do saldo, reforça a ideia de que o estado atravessa uma fase de maturação do mercado de trabalho, com bases mais sólidas e menos dependentes de fatores conjunturais.


Mesmo com essa moderação, o estoque de empregos cresce de forma consistente, saindo de aproximadamente 760 mil vínculos para mais de 923 mil em 2025, o maior nível da série. Basicamente, o mercado formal deixa de crescer por “rebote” e passa a crescer por fundamentos, consolidando uma base mais robusta e estável de emprego.
Desemprego: queda contínua e aproximação de níveis historicamente baixos
A taxa de desemprego, baseada na PNAD Contínua do IBGE, segue trajetória inversa ao ciclo de crise. Após os níveis elevados de 2020–2021, o indicador inicia forte queda a partir de 2022, acompanhando a retomada da atividade econômica e a expansão do emprego formal. Entre 2023 e 2025, a trajetória se estabiliza em níveis muito baixos, atingindo cerca de 3,3% em 2025, um dos menores valores da série histórica do estado.
O Espírito Santo saiu de um cenário de crise aguda para um ambiente de quase pleno emprego em termos estatísticos. A taxa de desemprego deixa de ser um problema estrutural e passa a operar em níveis historicamente reduzidos, compatíveis com uma economia em expansão moderada. O desafio, a partir desse novo patamar, deixa de ser apenas gerar vagas e passa a envolver ganhos de produtividade, qualidade do emprego e sustentação do crescimento no longo prazo.
Esse movimento indica não apenas recuperação, mas mudança de regime no mercado de trabalho: maior absorção de mão de obra e redução estrutural da ociosidade. O Espírito Santo sai de um cenário de desemprego elevado pós-pandemia para um ambiente próximo do pleno emprego estatístico.
Já em relação à informalidade, o indicador atingiu seu pico no pós-pandemia, ultrapassando 41% em 2021. A subocupação também se elevou nesse período, refletindo recuperação frágil e de baixa qualidade. A partir de 2022, ambos os indicadores iniciam trajetória consistente de queda. Em 2025, a informalidade recua para cerca de 32%–33%, enquanto a subocupação cai para aproximadamente 4%, um dos menores níveis da série.
Espírito Santo vira o jogo no mercado de trabalho e reduz informalidade ao menor nível da década
Queda acelerada da subocupação e recuo gradual da informalidade entre 2022 e 2025 indicam melhora na qualidade das ocupações e maior uso da força de trabalho, em um mercado que sai do ajuste pós-pandemia e entra em fase de crescimento mais estruturado.

A leitura conjunta revela um ponto central: a melhora não ocorreu apenas na quantidade de empregos, mas na qualidade da ocupação. O que reflete diretamente em mais formalização, menor subemprego e maior uso da força de trabalho.
Em relação à taxa de participação, em 2020, observa-se queda no período devido à saída de trabalhadores do mercado. Em 2021 e 2022, houve forte recuperação, com pico em torno de 65%. A partir de 2023, o indicador recua e se estabiliza em cerca de 62% até 2025. Esse movimento não indica deterioração, mas sim normalização após um pico atípico de reentrada no mercado de trabalho no pós-pandemia.
A queda contínua sugere não apenas geração líquida de empregos, mas também maior absorção da força de trabalho, redução da ociosidade e melhora nos indicadores de ocupação.

Esse comportamento está diretamente conectado ao desempenho da atividade econômica. Como mostra a dinâmica recente do comércio e dos serviços no Espírito Santo.
Já o rendimento médio habitual apresenta recuperação contínua após 2020, com aceleração mais forte em 2022 e crescimento mais moderado entre 2023 e 2025. O resultado é um novo patamar de renda no estado, com pico da série em 2025. Ao mesmo tempo, parte desse crescimento inicial foi influenciada pela inflação, especialmente em 2021–2022, o que reduz parcialmente o ganho real em alguns momentos.
Em relação à massa de rendimento real, mostra avanço mais consistente, com crescimento acumulado em torno de 32% entre 2020 e 2025, reforçando a expansão do poder de compra agregado.
Esse avanço da renda tem impacto direto sobre o dinamismo da economia, especialmente nos setores de comércio e serviços. Como destacado nos dados do IBGE, esses setores funcionam como um termômetro do consumo e são altamente sensíveis à renda disponível das famílias.

O crescimento observado nessas atividades a partir de 2024 está diretamente associado à melhora do rendimento médio, reforçando a relação entre mercado de trabalho, renda e consumo.

Em termos estruturais, a evolução do rendimento médio habitual indica que o Espírito Santo entrou em um novo patamar de renda, superior ao observado na pré-pandemia. Esse movimento é sustentado principalmente pela melhora do mercado de trabalho e pela retomada dos setores mais intensivos em mão de obra, como serviços. Ao mesmo tempo, a desaceleração do crescimento nos anos mais recentes sugere um cenário de maior maturidade econômica, com menor volatilidade e maior aderência aos fundamentos.
Desigualdade: queda gradual após piora no choque inicial
A trajetória do Índice de Gini no Espírito Santo, entre 2020 e 2025, com base em estimativas e consolidações derivadas da PNAD Contínua do IBGE e análises do Instituto Jones dos Santos Neves, revela um ciclo completo de choque, recomposição e melhora estrutural na distribuição de renda.
Índice de Gini recua de forma contínua e atinge menor patamar da série recente, refletindo melhora do mercado de trabalho e expansão da renda, mas ainda sob nível elevado de concentração.

O Índice de Gini aumentou durante a pandemia (2020–2021), refletindo perda de renda entre os mais vulneráveis. A partir de 2022, inicia trajetória de queda contínua, atingindo cerca de 0,483 em 2024 — o menor nível em mais de uma década. A melhora está associada a três fatores principais: expansão do emprego formal; aumento da renda média; maior estabilidade do mercado de trabalho.
Assim, o Espírito Santo apresenta uma dinâmica clara: o choque da pandemia elevou temporariamente a desigualdade. Mas, a recomposição do mercado de trabalho a partir de 2022 reverteu essa tendência. O resultado é um cenário de melhora gradual na distribuição de renda, ainda que o estado permaneça com níveis de desigualdade estruturalmente elevados, como é característico da economia brasileira.
Serviços como eixo central do emprego
A composição setorial do emprego no Espírito Santo permanece praticamente estável entre 2020 e 2025.
Serviços dominam, a indústria sustenta e o agro mantém papel residual em um mercado de trabalho estruturalmente estável.

Entre a recuperação pós-pandemia e a normalização do ciclo econômico, o Espírito Santo consolida uma estrutura de emprego marcada pela forte predominância dos serviços, enquanto indústria e agropecuária mantêm participação relativamente estável, com mudanças mais conjunturais do que estruturais.
O principal destaque é a forte predominância dos serviços, que funcionam como núcleo estrutural do emprego, enquanto o comércio atua como setor mais cíclico. A indústria tem maior peso no PIB do que no emprego, devido à sua maior produtividade e intensidade de capital.
Recuperação da maturidade estrutural
O ciclo 2020–2025 do mercado de trabalho capixaba pode ser dividido em três fases: queda da atividade, perda de renda e aumento da informalidade (2020); forte criação de empregos e rebote econômico (2021–2022) e crescimento mais lento, porém estrutural (2023–2025). O resultado final é um mercado de trabalho mais formalizado, com menor desemprego, com renda mais elevada, desigualdade em queda e estrutura setorial estável.
O Espírito Santo entra em 2025 com um mercado de trabalho mais maduro, menos volátil e mais conectado a fundamentos econômicos reais — especialmente emprego formal, renda e consumo.
Esse artigo é uma republicação da edição 233 da Revista ES Brasil – ES Em Números. Confira a edição digital completa aqui.

