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A dança das contradições

As pessoas querem paz e amor, mas estimulam a guerra e o ódio. Querem ser inteligentes e ter conteúdo, mas não conseguem sair das redes sociais

Por André Gomyde

A humanidade vive de contradições. O que, por si só, já é uma contradição, porque, se todo mundo sabe disso, por que insistimos nelas?

Veja o caso da política: os devotos da ideologia de esquerda simpatizam com a Rússia em oposição à Ucrânia, mas são oposição ao Trump, que também apoia a Rússia contra a Ucrânia. Os devotos da ideologia de direita simpatizam com a Ucrânia em oposição à Rússia “comunista”, mas apoiam o Trump, que se alia à Rússia contra a Ucrânia. É um jogo de tabuleiro em que ninguém entende muito bem as regras, mas todo mundo tem certeza de que está certo.

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E o mercado? Ah, o mercado! Os grandes bancos defendem o capitalismo selvagem e a livre concorrência, desde que a livre concorrência não concorra com eles. São contra a “mão invisível do Estado”, mas, quando estão para quebrar, socorrem-se no Estado, que, até ontem, juravam ser ineficiente. É bonito ver um liberal de ocasião, igualzinho a um socialista de boutique.

O Estado, por sua vez, quer cuidar de forma mais intensa da área social, mas é formado por uma burocracia inimaginável que não permite que bons projetos que melhoram a vida da população saiam do papel. Quando saem, já estão desatualizados. E, quando não estão desatualizados, são apenas mais uma pilha de papéis assinados que acabam engavetados porque alguém esqueceu de carimbar a terceira via do protocolo secundário.

Mas nada supera a vocação procrastinadora da política. Políticos lançam todos os dias pedras fundamentais, programas, projetos, ordens de serviço de obras, políticas públicas, mas não conseguem sair de intermináveis reuniões e planejamentos que só têm a serventia de procrastinar resultados. As fotos, no entanto, ficam ótimas.

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As pessoas querem paz e amor, mas estimulam a guerra e o ódio. Querem ser inteligentes e ter conteúdo, mas não conseguem sair das redes sociais. Buscam saber mais, mas leem menos. Reclamam da desinformação, mas compartilham qualquer coisa sem checar. O mundo está confuso. Ou talvez sempre tenha sido assim, só que, antes, não tínhamos internet para deixar isso tão óbvio.

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E agora vem o Carnaval. Um “excelente” motivo para que tudo pare e, depois dele, tudo se (re)comece. Enquanto isso, o tempo, que é implacável, se esvai.

André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

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