
Uma comunicação mais segura amplia a presença nas discussões relevantes e fortalece a credibilidade ao longo do tempo
Por Kamilla Matos
“Não sei se faz sentido.” “Deixa eu dizer só uma coisinha.” “Desculpa se não for o momento.” Você costuma abrir suas frases com alguma dessas expressões?
Elas aparecem com frequência em reuniões, apresentações e interações profissionais, especialmente entre mulheres. Muitas vezes, surgem de forma automática, quase como um reflexo.
Em geral, a intenção é positiva. Demonstrar cuidado, evitar parecer invasiva ou sinalizar abertura ao diálogo. No entanto, no ambiente profissional, esse tipo de construção verbal pode produzir um efeito diferente do esperado.
Ao suavizar excessivamente a própria fala, a mensagem transmitida não é de colaboração, mas de hesitação. No livro “Como mulheres chegam ao topo”, dos autores Sally Helgesen e Marshal Goldsmith, esse comportamento é definido como minimização.
Os autores apontam como ele se manifesta principalmente na linguagem. Pedidos de desculpa desnecessários, diminutivos e expressões que antecipam críticas funcionam como uma espécie de alerta prévio de que a própria fala talvez não seja tão relevante.
Ainda que o conteúdo seja consistente, a forma como é apresentada reduz seu impacto. No cotidiano de trabalho, a minimização interfere diretamente na credibilidade.
Frases como “talvez eu esteja errada” ou “isso pode não ser importante” diminuem a força de uma ideia, antes mesmo que ela seja avaliada. Com o tempo, esse padrão influencia a forma como a profissional é percebida, não apenas em reuniões pontuais, mas ao longo de sua trajetória.
Esse comportamento não surge por acaso. Muitas mulheres foram socializadas a se comunicar com cautela, evitando parecer assertivas demais ou ocupar espaço em excesso.
Falar de maneira direta, em diversos contextos, foi associado a traços negativos. Como resultado, ajustar a linguagem passou a ser uma estratégia de proteção. O problema aparece quando essa proteção começa a limitar a clareza.
Profissionais competentes deixam de ser plenamente ouvidas, não por falta de preparo, mas pela forma como apresentam suas contribuições. A comunicação passa a funcionar mais como defesa do que como ferramenta de participação.
Desenvolver uma comunicação mais segura não significa ser agressiva, falar mais alto ou eliminar a empatia. Significa alinhar forma e conteúdo.
Pequenos ajustes fazem diferença. Substituir “não sei se faz sentido” por “quero trazer um ponto para a discussão” ou trocar “desculpa, posso falar?” por “gostaria de acrescentar algo” são exemplos simples de como sustentar a própria fala de maneira eficiente.
Quando a comunicação deixa de ser guiada pelo receio de incomodar, ela recupera sua função essencial no trabalho: participar da construção das decisões. Para a carreira feminina, isso é decisivo porque influência, reconhecimento e crescimento passam pela forma como ideias são sustentadas.
Uma comunicação mais segura amplia a presença nas discussões relevantes e fortalece a credibilidade ao longo do tempo. Não se trata de falar mais, mas de falar com clareza e intenção.
Kamilla Matos é facilitadora de aprendizagem e diretora da ABRH-ES

