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Heranças intelectuais que ainda governam o mundo

Heranças intelectuais que ainda governam o mundo

Comemora-se 250 anos de Adam Smith e 90 de Keynes, cujas obras continuam influenciando a economia e políticas públicas atuais

Por Érika de Andrade Silva Leal

O economista Sávio Caçador lembrou, com acerto, em um de seus artigos, os 250 anos de A Riqueza das Nações, de Adam Smith. A celebração é ainda mais significativa quando associada aos 90 anos da Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, de Keynes.

Publicadas em contextos históricos profundamente distintos, a primeira em 1776, em meio à ascensão do capitalismo comercial e industrial, e a segunda em 1936, sob o impacto devastador da Grande Depressão, as duas obras redefiniram a compreensão sobre o funcionamento das economias modernas.

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Separadas por um século e meio, permanecem como pilares da ciência econômica e seguem influenciando a formulação de políticas públicas, a atuação dos governos, a formação dos economistas e os grandes debates contemporâneos sobre mercado, Estado, crescimento e estabilidade econômica. Os aniversários de 250 anos da obra de Adam Smith e de 90 anos da obra de John Maynard Keynes oferecem uma oportunidade singular para revisitar não apenas seus livros mais célebres, mas também as trajetórias intelectuais que antecederam esses marcos e os contextos históricos que lhes deram origem.

Smith escreveu em pleno Iluminismo escocês, em uma Europa marcada pela expansão comercial, pelo fortalecimento da burguesia mercantil e pelas transformações iniciais da Revolução Industrial. Professor de filosofia moral, jamais concebeu a economia como um campo isolado da ética, da política ou da sociabilidade humana. Antes de publicar A Riqueza das Nações, lançou, em 1759, Teoria dos Sentimentos Morais, obra fundamental para compreender sua visão sobre comportamento humano, empatia e ordem social.

Ao contrário das leituras simplificadas que o reduzem a um apologista do individualismo irrestrito, Smith entendia que a vida econômica estava inserida em um sistema moral. A famosa expressão “mão invisível” não significava ausência de instituições ou de justiça, mas a percepção de que, sob determinadas condições, ações individuais motivadas por interesses próprios poderiam produzir benefícios coletivos. O funcionamento dos mercados dependia, para ele, de confiança, segurança jurídica, concorrência e estabilidade institucional.

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Sua crítica dirigia-se sobretudo ao mercantilismo e aos privilégios concedidos pelo Estado às corporações monopolistas. Em um mundo ainda profundamente aristocrático, Smith defendia a ampliação das trocas e a divisão do trabalho como instrumentos de aumento da produtividade e da riqueza das nações. Sua contribuição ajudou a consolidar os fundamentos da economia política clássica e inaugurou conceitos que permanecem centrais até hoje, como especialização produtiva, produtividade e comércio internacional.

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Keynes, por sua vez, escreveu em um cenário radicalmente distinto. O século XX testemunhara a Primeira Guerra Mundial, a instabilidade financeira do entre-guerras e, sobretudo, o colapso econômico desencadeado pela Grande Depressão de 1929. O desemprego em massa e a prolongada estagnação colocaram em xeque a crença liberal de que os mercados tenderiam automaticamente ao equilíbrio e ao pleno emprego, considerada a ortodoxia de sua época.

Mas a Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda também não surgiu de forma abrupta. Keynes já havia produzido reflexões decisivas em obras anteriores, como Tratado sobre Probabilidade, de 1921, em que discutia a natureza da incerteza e os limites do conhecimento racional. Mais tarde, em Tratado sobre a Moeda, publicado em 1930, aprofundou suas análises sobre crédito, sistema financeiro e instabilidade monetária.

Esses trabalhos prepararam o terreno para sua ruptura teórica de 1936. Keynes demonstrou que economias capitalistas poderiam permanecer longos períodos com desemprego elevado e baixa atividade econômica, mesmo sem rigidezes salariais significativas. A insuficiência da demanda agregada tornava-se, assim, um problema central da dinâmica capitalista.

Sua conclusão tinha profundas implicações de política pública. Em vez da simples espera pela autocorreção dos mercados, o Estado deveria atuar de maneira ativa por meio da política fiscal, do investimento público e da política monetária para estabilizar o ciclo econômico e sustentar o emprego. Nascia a macroeconomia moderna.

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A influência de Keynes foi decisiva na construção do Estado de bem-estar social do pós-guerra, na institucionalização das políticas anticíclicas e na própria arquitetura econômica internacional estabelecida após a Segunda Guerra Mundial. Instituições multilaterais, bancos centrais e ministérios da Fazenda passaram a incorporar instrumentos inspirados em sua teoria.

Se Smith ofereceu as bases analíticas para compreender a expansão do capitalismo comercial e industrial, Keynes forneceu instrumentos para enfrentar suas crises e instabilidades. Um enfatizou os ganhos da divisão do trabalho e da coordenação descentralizada dos mercados; o outro revelou os limites dessa coordenação em contextos de incerteza e colapso da demanda.

As tensões entre essas duas tradições continuam presentes nos debates contemporâneos. Discussões sobre austeridade fiscal, papel do Estado, desigualdade, políticas industriais, inflação e estabilidade financeira frequentemente retomam, direta ou indiretamente, dilemas formulados por Smith e Keynes.

Os impactos dessas obras ultrapassaram a formulação de políticas públicas. Elas também moldaram profundamente a formação dos economistas. A economia moderna nasceu da tradição inaugurada por Smith e foi reorganizada pela revolução keynesiana do século XX. Os currículos universitários, os modelos macroeconômicos e as disputas entre escolas de pensamento foram construídos, em grande medida, a partir do diálogo, e muitas vezes do conflito, entre essas heranças intelectuais.

Entretanto, talvez a principal contribuição de ambos resida na compreensão de que a economia jamais pode ser dissociada de seu tempo histórico. Smith observava as transformações do capitalismo nascente. Keynes enfrentava a instabilidade do capitalismo industrial de massas. Ambos buscaram responder aos grandes problemas de suas épocas sem separar teoria econômica, instituições políticas e realidade social.

Em um contexto contemporâneo marcado por crises climáticas, transformações tecnológicas, desigualdades persistentes e instabilidades geopolíticas, revisitar Smith e Keynes não significa apenas celebrar clássicos. Significa recuperar a capacidade de pensar a economia como ciência histórica, moral e política, uma ciência voltada não apenas para os mercados, mas para os destinos das sociedades.
 
Érika de Andrade Silva Leal é professora de Economia do Ifes Campus Cariacica e conselheira do Corecon-ES

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