Quanto vale a Vale?

Arilda Teixeira é Economista e professora da Fucape Business School

O episódio ocorrido em Minas Gerais levanta questionamentos sobre a doutrina liberal no Brasil

Brumadinho assustou. Pelas vidas perdidas. Pelas famílias destruídas. Pela natureza aviltada. Pela economia desperdiçada. Não foi fatalidade. Foi crime. Como Mariana. Ambos explicados por erros de regulação, fiscalização, e omissão. Um vexame institucional.
E, no âmbito da economia, sua atitude deixa todos atônitos diante tamanho desperdício de capital humano e recursos naturais. E no social, perplexos diante a audácia da reincidência de seu comportamento.

O Brasil é uma economia de mercado – a 9ª maior – e uma república democrática. Como é que suas instituições são tão omissas e negligentes? Ou seriam, coniventes? Estamos sob a égide da doutrina econômica liberal. Seus preceitos são a liberdade de escolha para indivíduos (agentes econômicos) para que seus interesses individuais os leve à eficiência alocativa, que trará bem-estar e prosperidade para a economia – têm tudo para dar certo.

O precursor dessa ideia – Adam Smith – em sua Teoria dos Sentimentos Morais, colocou que essa liberdade, é controlada pela consciência moral do indivíduo, que evita atitudes egoístas e/ou inescrupulosas. Para Smith, a moral impõe regras de conduta; essas regras propiciam a prosperidade econômica e o bem-estar para sociedade – a mão invisível. Os desdobramentos dessas ideias chegou aos dias atuais, por exemplo, na adoção do salário de eficiência – remunerar bem para reduzir falhas e aumentar eficiência. Um jogo em que todos ganharão – empregador e empregado. Mas para funcionar dentro da lógica do seu mentor, ambos precisam ser moralmente íntegros.

Parece que os brasileiros estão negligenciando as fronteiras da eficiência técnica e as da integridade moral. O episódio de Brumadinho confirma essa hipótese. Alguém acredita que os dirigentes da Vale, suspeitos de terem provocado esse crime, são mal remunerados? Que suas negligências, conveniências e omissões são devidas à insatisfação com seus salários? Que os engenheiros que assinaram os laudos atestando que a barragem estava segura, sem estar, o fizeram por protesto por serem mal remunerados? Que eles foram enganados pela Vale quanto aos riscos? E ainda, que os três poderes da República, desconheciam a ameaça?Não!

Parece que os brasileiros estão negligenciando as fronteiras da eficiência técnica e as da integridade moral. O episódio de Brumadinho confirma essa hipótese.

Smith estava errado! Também não.  Apenas não incluiu nepotismo e clientelismo em suas considerações sobre o Estado. Com isso, não pode dimensionar sua força para proliferar impunidade em um país.

A Vale é a evidência mais recente disso. E a lentidão da nossa economia, também. E agora, além de frear a economia, o comportamento imoral e impune mata, em massa, cidadãos trabalhadores, e no seu rastro, destrói o meio ambiente.

A Vale é uma das empresas habitué desse pacto corrupto instituído nas relações público-privadas. Recorrentemente, se vale (sem trocadilhos) desse laço de família para não pagar as multas que recebe pelos impactos ambientais que provoca.

Smith não entrou nesse mérito da questão. Mas não é porque não o fez que o problema está alastrado no Brasil. É porque os brasileiros o sancionam. Fazem muito barulho quando estoura um escândalo, mas não agem para eliminar suas causas. E agora, está diante um fato gravíssimo de ordem moral, envolvendo uma das maiores mineradoras do mundo.

Quanto vale a Vale, depois da reincidência de sua atitude imoral contra seres humanos,o meio ambiente, e economia? Onde está o seu triple botton: eficiência alocativa, justiça social e respeito ao meio ambiente?


Arilda Teixeira é Economista e professora da Fundação Instituto Capixaba de pesquisas em Contabilidade, Economia e Finanças (Fucape Business School)

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