Cidades inteligentes. Cuidado!

Cidades Inteligentes. Com vontade de fazer, o poder público deixará de inventar uma novidade a cada dia e sairá do blá, blá, blá para a execução

Em 2019, a gente entra em uma nova fase do desenvolvimento das cidades inteligentes. O
assunto foi tratado em muitas campanhas eleitorais e está em alguns programas de governo em Estados do País.

Porém, é necessário que os governantes e gestores públicos tenham muito cuidado em dar o próximo passo. O perigo do desvirtuamento no tema é grande, frente à possibilidade de alguns que, com pouco conhecimento dos reais caminhos e condições necessárias para a implantação de uma cidade inteligente, apresentam “teorias” e soluções fáceis, trazendo muitas vezes ganhos políticos de curto prazo, mas muito pouco ou nada contribuindo para a sustentabilidade desse assunto que é muito sério para toda a sociedade.

Quando se pensou pela primeira vez em desenvolver uma cidade inteligente, o fator
desenvolvimento da tecnologia pesou bastante. Mas logo se observou que a tecnologia, com todas as benesses que traz para a sociedade, também vem carregada de problemas que lhe são bastante prejudiciais.

A tecnologia consegue invadir a privacidade de uma pessoa. Seus dados, seu modo de viver, sua maneira de pensar, seus gostos, são monitorados e cruzados, gerando informações valiosas.

Essas informações servem para o mercado ganhar muito dinheiro, mas servem também para indivíduos e ou organizações tentarem influenciar os destinos políticos e sociais de grupos, cidades, estados e nações.

A Cidade Inteligente, se não for o único, é um dos principais caminhos para que a sociedade seja blindada dessas más tentativas de influência.

Por quê?

Porque a cidade inteligente permite que os dados transitem em uma plataforma local, aberta, interoperável, acessível a todos e, dessa forma, permitindo que dados públicos sejam compartilhados com transparência para todos. De outra sorte, facilita para que se aplique bons sistemas de segurança para dados que são privados e exclusivos de cada indivíduo. A decisão em compartilhar minhas informações tem que ser minha e não de alguém que as “surrupia” para fins que me são desconhecidos.

Acontece que o “lobby” de grandes corporações de tecnologia da informação e de
comunicações é muito forte, levando “benesses” a alguns maus agentes públicos, em troca de uma malemolência em implantar as cidades inteligentes de forma correta e rápida.

O caminho que encontram para a malemolência é o de criar permanentemente grupos de
trabalho e estudos sobre as cidades inteligentes, dentro de equipes de governo, sempre com o discurso perverso de que o tema ainda é novo, que ninguém tem uma definição correta, que são muitos conceitos, e blá, blá, blá.

Não é verdade. A verdade é que é preciso vontade de fazer. Com vontade de fazer, o poder
público deixará de inventar uma novidade a cada dia e sairá do blá, blá, blá para a execução. E a execução começa em se livrar de modelos de negócios ultrapassados, atualmente existentes na operação da iluminação pública, para criar um novo modelo, que pode ser feito com recursos próprios ou por meio das parcerias público-privadas (PPPs). O modelo é excelente, mas precisa ser feito de forma correta e de forma honesta, como algumas cidades que estão adotando este caminho comprovam.

O modelo já se conhece e é trocar as luminárias da cidade por luminárias inteligentes, permitindo a conectividade e o trânsito de dados; colocar fibra ótica, permitindo a transmissão dos dados; ter uma central de gestão, permitindo o cruzamento de dados para tomadas de decisão inteligentes, eficientes, eficazes, e que economizem recursos públicos. Por fim, utilizar a internet das coisas e as aplicações para facilitar a vida das pessoas. Para tudo isso já existem tecnologias disponíveis, existem empresas que querem investir e que sabem operar, e existe legislação que permite que isso ocorra. Está faltando é decisão e ação.

Cidades inteligentes se aprende fazendo

Tenho rodado o País, conversando em prefeituras pequenas, médias, grandes e grandiosas. A cantilena muitas vezes é a mesma: “Estamos estudando. Estamos analisando. Estamos
aprendendo.” Se aprende fazendo. Em algumas delas, até, encontra-se visão distorcida. Em
nome de achar que se tem a melhor solução do mundo e os melhores pensadores do mundo, continuam em seus grupos de estudo, analisando, aprendendo. É preciso mão na massa!

Mais grave são as situações nas quais governos estão na direção de implantar aplicativos a torto e a direito, confundindo implantação de cidade digital com cidade inteligente, e talvez sem perceber que estão criando cada vez mais coletores de dados (que vão para as mãos de sabe se lá quem), assim como criando problema futuro. Ora, se cada aplicativo que se implanta e que a população vai utilizando tem um sistema próprio, na maioria das vezes de códigos fechados, como integrá-los quando se resolver fazer a cidade inteligente, cujo fundamento é justamente a integração desses dados e informações?

Por outro lado, uma cidade inteligente não é, definitivamente, somente tecnologia. Uma cidade inteligente olha, principalmente, para as pessoas, para os empreendedores e para o meio ambiente, garantindo sustentabilidade. O primeiro passo para inviabilizar uma cidade inteligente é acreditar que a implantação de aplicativos resolve os problemas da cidade e melhora a vida da população. Isto não é verdade.

O que fazer

Uma cidade inteligente tem quatro camadas: o subsolo inteligente (com plano diretor de subsolo e legislação adequada, galerias técnicas, sensorização de tubulações); solo inteligente (com reurbanização das cidades, novas maneiras de definir Planos Diretores Municipais, utilização de construções inteligentes, com reuso de água, aquecimento solar, geração de energia, etc.); infraestrutura tecnológica (Iluminação Pública Inteligente, Fibra Ótica e Centros de Operações e Decisões); e plataforma de IoT (Internet das Coisas), com aplicações diversas, inclusive como suporte para a economia 4.0 do Século XXI.

É preciso criar equipes multidisciplinares e multissetoriais, não para estudar, analisar, aprender, mas sim para pegar o conhecimento já existente, integrá-lo, e começar a executar. Temos no Brasil bons gestores públicos acostumados com projetos complexos e que podem liderar essas equipes. Mas é preciso vontade política de fazer. Fazer da forma correta.

Se de agora em diante tomarmos consciência dos cuidados necessários que temos que ter com os avanços tecnológicos e partirmos para a prática, então estaremos acertando em levar o Brasil para ser um país inserido e preparado nos desafios de século XXI. Ou vamos ficar presos na agenda do século XX?


André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Inteligentes, Humanas e Sustentáveis, mestre em administração pela Florida Christian University, colunista das revistas eletrônicas ES Brasil e Blog da Ema, de Brasília, e autor de livros.

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