O comunicador Eustáquio Palhares afirma que a IA já impacta decisões e expõe limites entre razão e emoção
Por Thamiris Guidoni
A inteligência artificial, a aceleração informacional e as mudanças profundas na forma de produzir e consumir comunicação foram temas centrais da entrevista com o comunicador Eustáquio Palhares. Em uma conversa que atravessa tecnologia, sociedade e futuro, ele analisou como a IA já está reconfigurando decisões, relações e o próprio entendimento de conhecimento.
Para Eustáquio, a transformação em curso não tem paralelo recente e já reorganiza o cotidiano das pessoas a partir de dispositivos cada vez mais centrais na vida digital.
“Você tem tudo acessado aqui nessa caixinha preta de 10 cm por 5 cm, tudo o conhecimento humano. Então tudo processos. De repente você está solitário, traga uma ideia com a IA que ela vai te dar um desconforto.”
A fala resume a percepção de que a inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio e passou a atuar como extensão direta da cognição humana, alterando a forma como ideias são formuladas e processadas.
Ao refletir sobre o impacto mais amplo dessa mudança, ele destaca o caráter ambíguo da revolução tecnológica, marcada por avanços e incertezas simultâneas.
“Nós temos aí exatamente duas palavras que eu mencionei antes. Nós temos aí utopia e distopia. Nós temos um processo de otimização não tem precedente, meu irmão. Eu acho que nem a internet, que dispensou o fato de você buscar a biblioteca, a enciclopédia na biblioteca, a IA é uma das maiores revoluções que a gente já viu.”
Segundo ele, a velocidade da transformação tecnológica cria um ambiente em que a sociedade ainda não conseguiu estabelecer plenamente seus novos referenciais de convivência e validação da informação.
Esse deslocamento também atinge diretamente a comunicação e o papel dos mediadores tradicionais de conteúdo. Na visão do comunicador, o conhecimento deixou de ser monopólio de poucos e passou a circular de forma descentralizada, mediada por sistemas inteligentes.
“Você já chega conversar já com a ferramenta poderosa à mão. Já se quebrou aquele monopólio da cognição. Ele já vem conversar sabendo exatamente como é que é, e você vira um balizador do que ele já trouxe.”
Mesmo diante desse cenário de transformação acelerada, Palhares reforça que há limites claros para a substituição da dimensão humana pela tecnologia, especialmente quando se trata de percepção, emoção e julgamento social.
“O sentimento não pode ser substituído. O ser humano não tem como ser substituído, porque a IA sempre vai trabalhar em termos de raciocínio, de inferências, de relações.”
Para ele, o desafio central não está apenas na evolução das ferramentas, mas na capacidade da sociedade de criar novos protocolos de convivência, adaptação e responsabilidade informacional em um ambiente cada vez mais mediado por inteligência artificial.
“Nós estamos no curso de uma transformação tão profunda que, se não houver consciência, a tecnologia avança, mas a sociedade não acompanha.”
A entrevista sintetiza um momento de transição em que inovação e instabilidade caminham juntas, exigindo novas formas de pensar o papel da comunicação, da tecnologia e do próprio ser humano dentro desse ecossistema em constante mutação.

