O amadorismo não cabe mais: construir um país exige profissionalismo, método e até esperança bem planejada.
Por André Gomyde
Último dia do ano. Aquele momento solene em que a gente promete coisas impossíveis, como acordar cedo, gostar de salada e não se estressar no trânsito. A esperança se renova – ela sempre se renova – mas a pergunta insiste, feito parente inconveniente na ceia: quando, afinal, veremos de fato um país novo?
Um país em que o médico olhe para você, analise seus exames e diga algo revolucionário como: “Caminhe vinte minutos por dia, beba água, pegue um pouco de sol e alongue esse corpo que você trata como se fosse aluguel vencido”. Em vez disso, geralmente saímos com três receitas, duas caixas de remédio e a sensação de que o problema é existir.
Um país em que os órgãos de controle cheguem dizendo: “Vamos ensinar como fazer certo”, e não “vamos esperar você errar para punir com gosto”. Um país onde o fiscal seja mais professor do que carrasco, e onde errar não seja crime, mas etapa do aprendizado. Utopia? Talvez. Mas não deveria ser.
Um país onde a escola do filho da patroa seja igual à escola do filho da empregada. Igual de verdade. Não esse “igual” retórico que aparece em discursos cheios de palavras bonitas e salas vazias. Porque falar em meritocracia quando a largada é desigual é como organizar corrida e dar bicicleta para uns e chinelo para outros.
Um país em que político apresente menos maquete e entregue mais obra. Menos PowerPoint com renderização em 3D e mais realidade em 4K. Um país onde planejamento seja coisa séria, e não promessa de réveillon que some em fevereiro.
Um país com mais academias e menos farmácias. Não porque farmácia seja ruim, mas porque movimento evita mais doenças do que bula. Um país em que a pessoa use o corpo antes de usar o remédio.
Um país em que você dá seta no carro – veja bem, dá seta – e o outro motorista entende aquilo não como um desafio pessoal, mas como um pedido educado. E deixa você entrar. Sem buzina. Sem xingamento. Sem processo emocional.
Nada disso é mirabolante. Nada disso exige tecnologia de ponta, foguete ou inteligência artificial. Exige apenas profissionalismo. Em tudo. No serviço público, no privado, na escola, no trânsito, na política e, principalmente, na vida cotidiana.
O tempo do amadorismo acabou. Não dá mais para improvisar país como quem monta móvel sem manual. Precisamos ser profissionais em absolutamente tudo. Até em ter esperança.
Que o próximo ano nos encontre menos tolerantes com o improviso malfeito e mais exigentes com qualidade, respeito e entrega.
Ao leitor, desejo um excelente 2026. Com saúde, lucidez, bom humor – e, se possível, com gente dando seta e também deixando entrar.
André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. @andre.gomyde


