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quinta-feira, 28 maio, 2020

O sadomasoquismo está na cabeça da senhora Al Gore

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“O sadomasoquismo está na cabeça da senhora Al Gore”. Com esta frase, o vocalista da banda norte americana Twisted Sister, Dee Snider, alterou a história do Rock and Roll em uma grande batalha num tribunal dos Estados Unidos, no ano de 1985.

Naquele ano, um grupo de esposas de senadores formou uma comissão para combater várias músicas e bandas de rock, porque entendiam que havia ali conteúdo impróprio, pornografia, incitação à violência, ocultismo, dentre várias outras acusações.

No tribunal, estavam presentes as esposas dos senadores e os músicos John Denver, Frank
Zappa e Dee Snider. Após muita discussão, a esposa do então senador Al Gore, Tipper
Aitcheson, acusou a música “Under to blade” (Sob a lâmina) de fazer apologia ao
sadomasoquismo.

Estrutura de Consciência

Em resposta, Dee Snider disse: “A música mexe com a imaginação das pessoas e as faz pensar o que quiserem. Essa música fala sobre uma cirurgia na garganta de um integrante da banda, o meu guitarrista Eddie Ojeta, e o medo que ele tinha dela. A Sra. Gore procurou sadomasoquismo na música e o encontrou. Quem procurar referências cirúrgicas também irá encontrá-las.” E o rock and roll venceu a batalha no tribunal.

“Uma mesma ideia pode parecer razoável para uma pessoa e pode não parecer razoável para outra pessoa. Isso depende de como a ideia se ajusta na estrutura de consciência de quem a está observando. Poderia-se chamar esta estrutura de suposições, crenças e decisões de uma mente.” (Harry Palmer, 1997).

Coletivamente, um sistema de crenças pode levar as sociedades ao sucesso ou ao fracasso. Se indivíduos sonhadores e visionários se dispõem a apresentar suas ideias para a sociedade, normalmente conseguem criar um pensamento médio sobre algumas delas e, de maneira coletiva, as pessoas passam a acreditar naquilo como verdade absoluta, sem maiores reflexões na possibilidade de alternativas.

O problema está na narrativa

Veja-se o que acontece quando uma narrativa é exposta à sociedade, diariamente, como no exemplo da ampliação e facilitação na posse de armas. Obviamente, uma falácia, um raciocínio errado com aparência de verdadeiro, que de um lado esconde que para a grande maioria daqueles que se tornaram bandidos, a causa foi não terem tido acesso a uma boa educação e nem a condições adequadas de existência. De outro lado, esconde os interesses do maior e mais poderoso mercado mundial, o das armas.

É mais fácil para aqueles que assumem a liderança na política ceder aos “lobbies” do mercado e criar a narrativa que lhes convém, do que atacar o problema na raiz. Precisamos melhorar muito nosso modelo educacional e o foco onde aplicamos nossos recursos, permitindo que se transforme uma geração. Isso se faz no longo prazo. Isso é desafiador, e extremamente necessário.

Cuidar da segurança pública se tornou prioridade. Obrigatoriamente, temos que fazer. Mas a narrativa precisa ser alterada. Não é com o estímulo à violência – e ninguém me convence que armar o cidadão não o seja – que resolveremos o problema. É falando a verdade para a população, assumindo nossa incompetência histórica, e mostrando que o caminho está na paz e no amor incondicional. É fazendo a coisa certa, do jeito que tem que ser feita. Nossa sociedade comprou a falsa narrativa da posse de arma, da mesma forma compraria a narrativa correta.

O desafio do longo prazo

A questão é que o longo prazo não dá votos. O longo prazo normalmente é tratado por
organizações não governamentais sérias, dirigidas por pessoas que têm um nível de consciência elevado, e que não vivem de votos. Estranhamente, as organizações não governamentais agora também são alvos de outra narrativa falaciosa.

Na Itália, algumas catedrais levaram mais de oito séculos para serem construídas. Oitocentos anos! Isso só foi possível porque a narrativa era de que cada tijolo colocado contribuía para algo muito maior, ainda que não fosse possível àquele que colocasse o tijolo enxergar a catedral. Quantas catedrais tão bonitas teríamos, se a narrativa fosse a de que era melhor rezar ao relento do que colocar um tijolo para que um dia, oitocentos anos depois, se pudesse rezar abrigado?

Passamos recentemente por um processo de muitas falácias, de narrativas equivocadas, que levaram nossa sociedade a tomar o rumo errado. Nossos governantes estão reféns do que venderam e sem coragem de dar um cavalo de pau na história.

Somente com um realinhamento de narrativas, corajosamente, conseguiremos retomar o avanço da sociedade. Não será discutindo se menina veste rosa e menino veste azul que conseguiremos.

Menino veste azul e menina veste rosa apenas na cabeça de quem quer ver assim. Da mesma forma que o sadomasoquismo somente estava na cabeça da Madame Al Gore.


André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Inteligentes, Humanas e
Sustentáveis, mestre em administração pela Florida Christian University, colunista das revistas eletrônicas ES Brasil e Blog da Ema, de Brasília, e autor de livros.

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