
Cada evento, cada marco histórico, da Rio 92 à Rio+20, da Laudato Si’ à COP 30 foi, na verdade, um chamado.
Por Luiz Fernando Schettino
Em 1992, o mundo se reunia no Rio de Janeiro para a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a célebre Rio 92. Foi um marco histórico: pela primeira vez, líderes globais, cientistas, organizações e povos tradicionais se encontraram para discutir de forma ampla os limites do crescimento e a necessidade de um novo pacto ambiental. A partir dali, surgiram documentos fundamentais como a Agenda 21, que orientaram políticas públicas e iniciativas sociais em diversos países.
Foi nesse espaço que me aproximei dos povos indígenas. Seus olhares, voltados para o céu e para o divino, me ensinaram que sustentabilidade não é apenas técnica ou política: é espiritualidade, é conexão. Eles são guardiões das florestas, dos rios e da biodiversidade, mas também guardiões de uma sabedoria ancestral que nos lembra que o futuro só existe se o presente for respeitado.
Desde então, abracei suas causas como parte da minha própria jornada. E com isso reforçou em mim minha determinação e responsabilidade em contribuir para a proteção ambiental, que se tornou uma missão em minha vida, sem ser de modo algum um fardo, mas uma alegria.
Esses ensinamentos dialogam com a mensagem de Jesus Cristo, que nos convidou a amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Seu exemplo de compaixão, justiça e defesa da vida nos mostra que cuidar da natureza é também cuidar da vida humana, pois ambas estão inseparavelmente ligadas. Jesus nos ensinou que cada gesto de amor e cuidado, seja com uma pessoa, seja com a criação é expressão do Reino de Deus.
Séculos depois, São Francisco de Assis reforçou essa visão ao chamar o sol de irmão e a lua de irmã, lembrando que toda a criação é parte de uma mesma família. Sua espiritualidade simples e profunda nos ensina que cuidar da natureza é também cuidar de nós mesmos.
Nos anos seguintes, o planeta viveu transformações profundas. A globalização acelerou fluxos econômicos e culturais, a internet conectou sociedades em tempo real, e a consciência ambiental começou a ganhar espaço nas agendas nacionais. Ao mesmo tempo, os desafios se tornaram mais evidentes: mudanças climáticas, perda de biodiversidade, crises energéticas e desigualdades sociais.
Vinte anos depois, em 2012, o mundo retornava ao Rio de Janeiro para a Rio+20. O cenário era outro: a sustentabilidade já não era apenas um ideal, mas uma necessidade urgente. A conferência buscou avaliar os avanços desde 1992 e propor novos caminhos, com foco em economia verde e governança internacional.
Na condição de representante do Estado do Espírito Santo, na posição de Diretor-Geral da Agência de Serviços Públicos de Energia (ASPE), participei da Rio+20 levando ao debate nacional projetos que demonstravam como inovação e eficiência energética podiam se tornar instrumentos de cidadania e sustentabilidade.
No dia 17 de junho de 2012, no Parque dos Atletas, apresentei a palestra “Energia como indutor da sustentabilidade e inovação”. Mostrei que inovação e eficiência energética são ferramentas para o sucesso e para a sustentabilidade. Para ilustrar, utilizei o exemplo de Serra Dourada, na Serra, onde cerca de quatro mil residências populares estavam recebendo painéis solares para aquecimento de água. Era uma iniciativa concreta que mostrava como políticas públicas podiam transformar realidades, levando dignidade e economia às famílias.
Essas experiências foram também destacadas nos debates realizados na TV Câmara dos Deputados em 2012, reforçando o papel da energia e buscando a ter cada vez mais renovável, como vetor de transformação social e desenvolvimento sustentável.
O Parque dos Atletas, espaço de encontro e troca de experiências, tornava-se palco de novas ideias e compromissos. Era uma tarde abafada de junho, dessas eml que o sol parecia querer provar que ainda manda no mundo, e ali o tema da energia surgia como eixo central. Não se tratava apenas da energia que move turbinas ou aquece chuveiros, mas da energia que move consciências, capaz de transformar políticas públicas em cidadania e inovação em esperança.
Em 2015, o mundo recebeu outro chamado espiritual e ético: a Encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco. Nela, o pontífice nos lembra que a Terra é a nossa “casa comum” e que a crise ambiental é inseparável da crise social. Sua mensagem reforçou que não basta pensar em tecnologia ou economia: é preciso cultivar solidariedade, justiça e cuidado com os mais vulneráveis. Essa Encíclica tornou-se um marco, dialogando com os ensinamentos de Jesus, de São Francisco e com as vozes indígenas que há séculos clamam por respeito à natureza.
Uma década depois, em 2025, o Brasil voltou a ser protagonista ao sediar a COP 30 em Belém do Pará. Estar ali foi uma experiência inigualável. Vi o mundo inteiro se reunir para discutir soluções concretas diante da urgência climática. Participei de debates sobre federalismo ambiental, inovação tecnológica e protagonismo dos estados na agenda climática. Mais uma vez, a energia genuína que havial sentido na juventude se manifestava: o encontro de diferentes vozes, culturas e saberes em torno de um propósito comum.
Cada evento, cada marco histórico, da Rio 92 à Rio+20, da Laudato Si’ à COP 30 foi, na verdade, um chamado. Um chamado à consciência, à responsabilidade, à ação. Um convite para que deixemos de ser espectadores da crise ambiental e nos tornemos protagonistas da transformação. Há um fio invisível que costura esses momentos: a certeza de que sustentabilidade não é apenas reduzir emissões ou trocar lâmpadas por LEDs. É sobre dignidade, respeito e empatia.
É sobre reconhecer que os povos indígenas, com sua força espiritual e sua ligação com a terra, são aliados indispensáveis na luta contra a crise climática. É sobre entender que cada escolha cotidiana — como apagar uma luz, economizar água, plantar uma árvore é um gesto político e espiritual ao mesmo tempo.
Hoje, ao olhar para trás, vejo que minha juventude foi marcada por encontros que moldaram meu olhar para o mundo. E ao olhar para frente, compreendo que a COP 30 não foi apenas um evento: foi mais um chamado. Um chamado para que todos nós sejamos guardiões, não apenas da natureza, mas também da esperança.
Luiz Fernando Schettino é Engenheiro Florestal, Mestre e Doutor em Ciência Florestal, Advogado, Escritor e ex-Secretário Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos

