Em um cenário de policrises, a Agenda ESG exige reposicionamento, diálogo e transição para um novo paradigma econômico
Por Daniel Hirschmann
Depois de um período de forte expansão, impulsionado pela pandemia e pela mobilização inédita de capital, a Agenda ESG entrou em uma fase de maior escrutínio global. Avanços regulatórios, maior padronização de métricas e o amadurecimento dos mercados passaram a conviver com críticas ao greenwashing, movimentos antirregulatórios e um ambiente geopolítico cada vez mais instável.
Longe de representar um retrocesso estrutural, esse cenário indica um momento de ajuste, no qual a coerência entre discurso, prática e impacto real se tornou central para a credibilidade da agenda.
É nesse contexto de crises simultâneas — a chamada policrise, marcada pela emergência climática, tensões geopolíticas, instabilidade econômica e desigualdades persistentes — que o debate sobre o futuro da Agenda ESG ganha contornos mais estratégicos.
Nesse cenário, Marcel Fukayama, diretor de Global Policy do B Lab e cofundador do Sistema B no Brasil, avalia que o momento exige uma mudança tanto de linguagem quanto de posicionamento. Para ele, é fundamental construir pontes que incentivem o novo paradigma econômico e, ao mesmo tempo, desestimulem a lógica da velha economia.
“Não adianta a gente falar de US$ 1,3 trilhão para finanças climáticas por ano, que é algo que vai ser estabelecido na COP 30, se, ao mesmo tempo, a gente ainda estiver falando de um subsídio de US$ 7 trilhões por ano em combustível fóssil”, questiona.
Com essa premissa, Fukayama afirma que tornar obsoleta a velha economia e incentivar a nova economia é essencial, mas sempre com diálogo e criação de condições para que essa transição ocorra de forma estruturada.
“É isso que nós precisamos, nesse cenário de policrises, para poder seguir construindo, promovendo a gestão de risco, gerando os avanços e o progresso na fronteira da inovação e, ao mesmo tempo, acelerando a transição”, defende.
Nesse sentido, ele aponta que um dos principais entraves para que a Agenda ESG avance com consistência está na necessidade de evoluções normativas capazes de promover transformações estruturais e escalar uma mudança de cultura. Para Fukayama, o Brasil tem uma janela estratégica com a realização da COP 30, em Belém (PA), em novembro, que pode servir como plataforma de incidência global.
“O Brasil, por conta da sua sociobiodiversidade e da sua capacidade dialógica, principalmente na direção da paz, consegue, sem dúvida alguma, construir consenso para que se consiga avançar concretamente nessas questões”, conclui.
*Matéria publicada originalmente na revista ES Brasil 227, de junho de 2025. Leia a edição completa aqui.

