Agricultor do Espírito Santo relata que apoio de programas impulsionaram a retomada econômica das propriedades da região
Por Erik Oakes
A recuperação socioeconômica dos produtores rurais atingidos pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, ao longo da bacia do Rio Doce ganha força por meio de programas de retomada agropecuária sustentável, como o que vem sendo implementado na Fazenda Tupã, em Linhares, no Espírito Santo. O trabalho envolve suporte técnico e assistência para que as atividades agrícolas e pecuárias sejam retomadas de forma equilibrada, respeitando o meio ambiente.
“Na Fazenda Tupã, por exemplo, o foco é na produção sustentável de cacau cabruca, que alia a recuperação ambiental ao desenvolvimento econômico local,” explica Rogério Fonseca, especialista em Meio Ambiente da Samarco. O programa oferece orientações técnicas para os produtores, estimulando práticas que conservam o solo e a água, essenciais para a viabilidade da produção.
Dono da propriedade, Adão Cellia conta que cerca de 20% a 30% da parte mais baixa da plantação foi atingida diretamente pela lama em 2015. “A lama passou só na parte mais baixa do cacau, foi rápido. Mas o maior impacto para mim foi na cana, porque as represas que abastecem o canavial ficaram comprometidas. Passei três, quatro anos sem irrigar, o que afetou muito a produção”, relata.
Apesar disso, ele diz que a recuperação foi completa. “Hoje minha propriedade está totalmente recuperada. 100%. Mais ainda”. Vale destacar que a Fazenda Tupã já era referência na produção de cana-de-açúcar, com o Alambique Princesa Isabel, e na pecuária. Agora, Adão intensifica o cultivo de cacau cabruca.
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“Hoje, a gente vive uma constante política de melhoramento. Só neste ano, investi mais de R$ 400 mil em um novo engenho para aumentar a extração de garapa da cana, que passou de 60% para 85%”, relata seu Adão. O equipamento permite ainda o aproveitamento total do bagaço, que deixa de ser descartado ou apenas usado em compostagem para virar farelo enriquecido na alimentação do gado em sistema de semiconfinamento.
A revitalização da fazenda também passa pelo cacau, cultivo antes deixado de lado e que agora ganha força com a assistência técnica e a doação de mudas. “Plantamos 8.500 mudas com apoio da Renova, e agora estamos com cerca de 70% da área de cacau renovada, com irrigação e adubação como nunca antes”, explica o produtor.

Além disso, a fazenda conta com uma barcaça modelo de secagem solar, o que garante mais qualidade ao amendoim de cacau, essencial para a produção de chocolate premium.
Com a produção renovada e maior valor agregado, o cenário mudou. “Já fomos procurados por indústrias de São Paulo interessadas em comprar direto o nosso cacau. Ainda não temos estrutura para isso, mas é o nosso objetivo. Em três anos, queremos chegar a 600 sacas por ano”, afirma o agricultor, entusiasmado com o futuro.
Resultados
Os números mostram avanços importantes no processo de recuperação da bacia do Rio Doce: até abril de 2025, foram recuperados 655 hectares de solo no Espírito Santo, com sistemas de irrigação implantados em 156 hectares, garantindo o uso eficiente da água. Em Minas Gerais, a reparação de solos alcançou 858 hectares. Essas ações colaboram para melhorar a produtividade rural, além de promover o equilíbrio ambiental necessário para a sustentabilidade a longo prazo.
Essa retomada agrícola faz parte do compromisso da Samarco no Acordo de Reparação da Bacia do Rio Doce, que visa mitigar os impactos socioeconômicos do rompimento da barragem de Fundão. “Além da reparação ambiental, é fundamental apoiar a recuperação das comunidades rurais, que dependem diretamente da terra para seu sustento,” ressalta Rosane Santos, diretora de sustentabilidade da Samarco.
O programa ainda prevê acompanhamento contínuo das propriedades e reforço na capacitação dos produtores, garantindo que as práticas sustentáveis se consolidem como parte da rotina agrícola na região.
Segundo seu Adão, os próprios funcionários da fazenda também percebem a melhora na qualidade da água do Rio Doce. “Eles usam muito o rio: pescam, fazem praia na areia. E sempre me falam que hoje a água está muito mais limpa do que antes. A pesca da manjubinha, por exemplo, que tinha parado, voltou com força no ano passado e neste ano”, conta.

