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Rosane Santos: ESG ajuda as organizações a terem mais forma

Diretora de Sustentabilidade da Samarco destaca a complexidade de ações sustentáveis na mineração e a necessidade de um olhar estratégico para o tema

Por Kikina Sessa

Nascida no Rio de Janeiro, contadora formada pela Universidade Estadual (UERJ) e especialista em Finanças pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Rosane Santos assumiu a Diretoria de Sustentabilidade criada recentemente pela empresa. Com MBA executivo na Universidade de Oxford, na Inglaterra, ela trabalhou por 15 anos com governança corporativa antes de migrar para a área de sustentabilidade e do ESG.

Nesta entrevista exclusiva ao Anuário Verde, Rosane aborda os vários desafios que a Samarco ainda terá para voltar a operar de forma sustentável e fala ainda da repactuação para reparação do rio Doce, após a tragédia ambiental de 2015, quando houve o rompimento da barragem de Fundão, em Minas Gerais. Confira a seguir.

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A Samarco criou a Diretoria de Sustentabilidade, em 2024, que tem você como diretora. Como está sendo o trabalho dessa nova diretoria?

A Diretoria de Sustentabilidade surge no momento em que a Samarco entende que precisa dar mais um passo para endereçar todos os temas que estão relacionados a essa agenda na mineração. É importante entender que, na mineração, a sustentabilidade é tão complexa quanto o próprio setor minerário.

A ideia é conseguir endereçar as temáticas sociais, de licenciamento, de relações institucionais e governamentais, as de comunicação, como estamos fazendo aqui, e compartilhar cada vez mais informações acerca do nosso negócio, acerca da companhia, e isso precisava estar dentro de uma lógica mais estratégica.

Como fica a reparação da bacia do rio Doce?

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O programa de recuperação ambiental é bem extenso, bem detalhado, mas gostaria de destacar alguns pontos. O primeiro é a recuperação de 50 mil hectares da vegetação da bacia. O segundo é a recuperação de 20 mil nascentes da bacia hidrográfica do rio. E o terceiro fala sobre a necessidade de fazermos estudos para avaliar a viabilidade de um licenciamento para a remoção dos rejeitos que estão depositados na bacia – um tema sensível e crítico, mas que precisa ser avaliado sob o ponto de vista técnico, para que suas consequências não sejam tão ou mais danosas que o rompimento em si. Temos estudos com o Ibama e órgãos técnicos que vão nos ajudar a determinar qual será o volume a ser retirado para que o impacto subsequente não seja maior.

É importante falar também que o programa ambiental que já havia sido desenvolvido pela Fundação Renova teve muito êxito, e estamos comprometidos a dar continuidade a ele.

Por outro lado, o que está sendo feito para que a tragédia não se repita?

O primeiro compromisso foi o de fazer uma retomada gradual, dividida em três momentos. O primeiro momento retomou as operações de 0 a 30%, o que foi alcançado por volta de 2023.

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O segundo momento é o atual, quando nós reativamos a pelotizadora em Ubu (ES) e uma concentradora na mina em Germano (MG) para que conseguíssemos alcançar o volume de produção que está posto para 2025, que é de 15 milhões de toneladas de pelotas de minério de ferro por ano – o equivalente a 60% da capacidade instalada.

E o terceiro momento depende de uma série de estudos que estão em andamento, de licenças e outras etapas, para sair dos 60% e alcançar a capacidade total. Obviamente, é um passo mais qualificado, mais robusto, mais demorado, mais analítico.

A retomada para um parque industrial que ficou tanto tempo parado, com inovações tecnológicas que surgem praticamente todos os dias, precisa ser endereçada com muita cautela e com muito compromisso. Então, a Samarco retoma as suas operações sem barragem, endereçando uma preocupação da sociedade, principalmente das comunidades vizinhas à mina.

O risco de rompimento da barragem não existe mais, porque agora nós fazemos o empilhamento dos nossos rejeitos a seco. Em resumo: você extrai a água do rejeito e o empilha em cavas naturais ou artificiais. Além de ser uma tecnologia nova, isso permite aumentar a circulação de água. Não precisamos captar tanta água na bacia hidrográfica da região. É uma decisão muito estudada, qualificada e que reverbera em vários aspectos do nosso negócio e, sobretudo, com a sociedade.

Você falou de inovação e de tecnologias; e o ESG?

Olhando numa perspectiva mais ampla, o que eu consigo perceber é que o ESG ajuda as organizações a terem um pouco mais de forma e até mesmo de método para endereçar suas temáticas de sustentabilidade. Uma que tem sido muito discutida recentemente, é a agenda da descarbonização.

Imagina que existem várias formas de as organizações emitirem gases na camada atmosférica. A descarbonização se propõe a reduzir esse volume. Quando você traz isso para a mineração, e para a Samarco, em particular, temos números muito bons. Hoje nós usamos, por exemplo, 100% de energia renovável.

Toda a nossa operação é feita com energia renovável, o que diminui as emissões de CO₂. No processo produtivo, estamos introduzindo tecnologias como bio-óleo e outras iniciativas que têm por objetivo diminuir cada vez mais a emissão desses gases de efeito estufa na atmosfera.

Como a empresa tem adaptado processos para atender exigências ambientais internacionais?

Esse é um dos papéis da sustentabilidade que faz parceria profícua e muito viva com os times de inovação, operação e engenharia. Com os rompimentos que aconteceram nos últimos anos, houve uma demanda óbvia para que as empresas de mineração tivessem atividades mais sustentáveis. E conseguimos demonstrar e comprovar que a nossa atividade é mais sustentável quando conseguimos adotar padrões e métricas similares ao de outras empresas que já são benchmark e referências nessas aplicações.

O setor minerário no Brasil vem trabalhando com alguns padrões. Temos o Ibram, que é o Instituto Brasileiro de Mineração, que é a organização que nos abastece com essas informações e com esses padrões para que a gente vá, enquanto setor, pouco a pouco, porém sistematicamente, introduzindo essas inovações e esses padrões que vão estabelecer métricas e notas. Isso está muito acelerado no setor, tamanha a urgência que ele tem hoje de ser cada vez mais inovador.

Como você avalia a adequação à preservação ambiental dos métodos de produção mineral no Brasil frente aos de outros produtores globais?

Sua pergunta é muito interessante, porque mostra que o Brasil é comparável com organizações internacionais de mineração, não apenas porque temos subsidiárias internacionais aqui no Brasil, mas porque a nossa atividade minerária é relevante quando você coloca numa perspectiva internacional e global.

Existe um órgão chamado ICMM, que traduzindo significa Conselho Internacional de Mineração e Metais. Seu papel é olhar para todas as empresas do setor de mineração e metais e dar notas com critérios técnicos, qualificados, a maioria calcados na operação, porque é onde está o cerne da questão e tem um transbordo para as comunidades. Você não olha a operação sem olhar a comunidade e você não esgota o seu olhar de comunidade sem olhar para a operação. Pela avaliação, as empresas no Brasil, independentemente da sua origem, estão conseguindo, na sua maioria, endereçar de uma forma muito sistemática e qualificada os padrões internacionais de avaliação das suas operações minerárias.

O que você cita como desafios e oportunidades para o Espírito Santo e o Brasil na agenda climática global e o papel do ESG nesse contexto?

Quando pensamos no Brasil e no Espírito Santo como um todo, eu acho que as oportunidades são inúmeras. Há que se fazer uma avaliação um pouco mais detalhada sobre a configuração do setor produtivo no Estado. Sabemos que a atividade portuária é relevante.

O Espírito Santo tem essa vantagem e oportunidade de conectar o Brasil com o mundo através do mar e de várias atividades, não apenas industriais, mas de turismo, de preservação ambiental, porque está tudo muito relacionado. Então, as oportunidades são diversas. Há que se aprofundar na agenda que está posta para a COP e pensar em como o estado consegue se beneficiar a partir desse evento. São janelas de desenvolvimento que poderão se estender por décadas.

*Entrevista publicada originalmente na revista ES Brasil 227, de junho de 2025. Leia a edição completa aqui.

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