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O minuto seguinte

Até quando vamos achar normal o hábito de nos chocar por um minuto — e no minuto seguinte procurar uma receita de pão de queijo com três ingredientes?

Por André Gomyde

Até quando, meu Deus, fingiremos que a vida apenas segue? Que o trânsito parado, a série nova, o boleto vencido, o almoço requentado e o vídeo engraçado no Instagram são suficientes para justificar o esquecimento? Até quando vamos achar normal esse hábito moderno de nos chocar por um minuto — e no minuto seguinte procurar uma receita de pão de queijo com três ingredientes?

Enquanto isso, do outro lado do mundo (que, convenhamos, já não é tão longe assim com um toque de tela), seres humanos estão morrendo da pior maneira possível: não por acidente, nem por doença, mas por fome. Fome, essa palavra que a gente repete quando atrasa o almoço, mas que lá, em Gaza, não é figura de linguagem. É sentença. É desespero. É a recusa sistemática de comida para crianças, mães, velhos, gente que só queria sobreviver à próxima manhã.

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A presidente do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, Mirjana Spoljaric, não encontrou eufemismo:

“Não podemos continuar a observar o que está acontecendo: Um povo ser completamente despido de sua dignidade humana; isso está ultrapassando qualquer padrão aceitável legal, moral ou humano.”

E ela está certa. Mas sabe o que estamos fazendo, mesmo depois de ouvir isso? Observando. E seguindo. Porque temos um compromisso às 14h, uma call, uma entrega, uma louça na pia. A indignação tem hora marcada: das 8h30 às 8h35, com uma pausa rápida para o café.

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O que se passa em Gaza não é uma tragédia isolada. É um espelho. Um reflexo do que nos tornamos quando deixamos que a normalidade do absurdo se instale em nossas rotinas. Um povo inteiro cercado, bombardeado, esfomeado. E nós aqui, aflitos por causa do frete do e-commerce.

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Não se trata de escolher um lado no conflito — trata-se de escolher um lado na humanidade. Impedir que comida chegue a crianças não é estratégia militar. É crueldade deliberada. E ao aceitar isso, mesmo em silêncio, nos tornamos cúmplices elegantes, bem alimentados e ocupadíssimos.

A pergunta não é “o que podemos fazer?”, como se a resposta estivesse em um aplicativo. A pergunta é: “o que nos restará como civilização se acharmos normal assistir a esse horror e continuar jantando em paz?”

Até quando, meu Deus? Até quando vamos tratar a dignidade humana como notificação descartável? Porque enquanto fingimos que a vida segue, ela está sendo arrancada, cruelmente, do prato de quem já não tem mais nem chão.

André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

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