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O dia em que o cometa 3I/ATLAS voltou

O dia em que o cometa 3I/ATLAS voltou

Se um cometa consegue dar voltas pelo espaço e voltar para nos lembrar que tudo retorna… Talvez seja hora de a gente também fazer o nosso retorno

Por André Gomyde

Pelo menos até a elaboração deste artigo, o 3I/ATLAS era apenas um cometa. Diferentão, é bem verdade. Mas apenas um cometa. Não sei se, agora que este texto está sendo publicado, alguma nave extraterrestre resolveu estacionar por aqui – talvez atraída por nossos reality shows ou pelos juros da poupança. Mas fico imaginando o que seres de outra galáxia diriam ao chegar à Terra, neste final de primeiro quarto do século XXI.

Provavelmente fariam silêncio. Não por timidez interplanetária, mas por puro espanto. Afinal, de onde eles vêm, provavelmente não há gente brigando por causa de política num grupo de WhatsApp da família. Pois é, caro leitor, chegamos ao fim do primeiro quarto do século XXI, e é impossível não olhar para trás e tentar entender o que aprendemos nesse tempo. Uma tarefa ingrata, porque a primeira constatação é dura: nós seguimos exatamente iguais, só que com mais senhas para decorar.

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Nos anos 2000, sonhávamos com carros voadores. Em 2025, temos patinetes elétricos que vivem descarregados. E ainda achamos que é progresso. Socialmente, melhoramos em algumas coisas. As pessoas falam mais sobre empatia, diversidade, inclusão… E brigam por tudo isso na internet, claro. O discurso do amor ao próximo cresceu, principalmente desde que o próximo esteja a, no mínimo, dois quilômetros de distância. O contato humano ficou tão raro que, em breve, “olhar nos olhos” será matéria optativa na escola.

Politicamente, seguimos com aquela paixão tropical pelo caos. Cada lado acusa o outro de destruir o país, enquanto o país continua ali, meio cansado, tentando achar um lado bom. Aprendemos a viver em bolhas, cada uma com seu próprio vocabulário, hino e emoji oficial. Se Aristóteles vivesse hoje, abandonaria a lógica.

Economicamente fazemos malabarismos que fariam inveja ao Cirque du Soleil. Trabalhamos mais, ganhamos menos e chamamos isso de “resiliência”. O mundo financeiro virou um videogame em que o “modo difícil” vem ativado de fábrica.

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Mas nem tudo é tragédia. Aprendemos que tecnologia pode aproximar – e também afastar. Descobrimos que é possível trabalhar, estudar, amar e terminar relacionamentos inteiros sem sair da frente de uma tela. A humanidade agora cabe num aplicativo. O problema é que ele vive travando.

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E o futuro? Ah, o futuro. O que devemos fazer nos próximos anos?

Talvez, antes de qualquer grande plano, devêssemos reaprender a conversar – não em threads ou stories, mas cara a cara. Talvez devêssemos ensinar nossos filhos a desconfiar dos extremismos e dos planos econômicos que prometem “crescimento sustentável” sem explicar para quem. Talvez devêssemos olhar para o planeta como olhamos para a geladeira em dia de calor: com cuidado, antes que acabe o gelo.

Se os extraterrestres realmente chegarem, é provável que fiquem confusos com nossa mania de complicar o simples. Vão ver que inventamos inteligência artificial, mas não conseguimos marcar um jantar sem criar um grupo no WhatsApp chamado
“Jantar definitivo – agora vai!”.

O que eles diriam? Talvez algo como: “Vocês têm um planeta lindo, uma cultura incrível e um talento raro para a autossabotagem. Mas ainda dá tempo”. E é verdade. Ainda dá tempo. De olhar para o próximo com um pouco mais de paciência, de cobrar dos líderes mais coerência do que carisma, e de entender que progresso não é apenas tecnológico – é humano.

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Porque, convenhamos: se um cometa chamado 3I/ATLAS, vindo lá do fim do universo, consegue dar voltas pelo espaço e voltar para nos lembrar que tudo gira, tudo retorna… Talvez seja hora de a gente também fazer o nosso retorno. Mas sem megafone, sem confusão, e com um pouco mais de consciência do que realmente vale a pena manter em órbita.

André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela Florida Christian University

Esse artigo é uma republicação da Edição 231 da Revista ES Brasil – Retrospectiva 2025 – Leia aqui

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