As cidades brasileiras precisam oferecer conectividade, mobilidade e um ambiente humano favorável à atração e permanência de talentos e à geração de oportunidades

Por André Gomyde
O momento atual exige de todos nós cidadãos, líderes políticos e representantes da sociedade brasileira, uma postura firme, responsável e comprometida com os interesses estratégicos da nação. A recente ameaça de taxação de até 50% sobre os produtos brasileiros por parte do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acende um alerta não apenas econômico, mas também político, institucional e de soberania.
Trata-se de uma provocação que ultrapassa a retórica eleitoral americana e que exige de nós brasileiros um olhar pragmático e de longo alcance sobre a qualidade e a diversidade de nossa estrutura produtiva, tendo como referência a produtividade e a competitividade internacional dos nossos produtos e serviços. O Brasil não pode se intimidar, nem tampouco se acomodar diante de um cenário geopolítico e econômico mundial cada vez mais instável e tecnologicamente complexo. É preciso agir com inteligência, união e visão de futuro para construir uma nação bem sucedida.
Mais do que responder com palavras, o Brasil precisa responder com ações. E essas ações passam, obrigatoriamente, por uma aliança estratégica entre o Estado Brasileiro, a indústria, os diversos setores produtivos e também os municípios, onde vivem os brasileiros. Uma união que seja sólida, integrada, criativa, empreendedora e focada no fortalecimento da nossa base produtiva e da nossa capacidade de inovação tecnológica e competitividade.
O que está por trás de todo esse movimento feito pelo presidente norteamericano vai muito além de querer salvar um político de seu mesmo campo ideológico. Na verdade, isso está sendo claramente utilizado pelo presidente norteamericano como “boi de piranha” para algo muito mais “interessante” para o megainvestidor que se tornou presidente dos Estados Unidos.
Como a gente já vem dizendo desde o ano de 2017, a lógica de poder mundial mudou. Dominar a infraestrutura tecnológica, ter acesso e bem utilizar os dados e as informações gerados pelas diversas tecnologias (câmeras de videomonitoramento, sensores, smartphones, redes sociais etc.), são neste século XXI a força que as nações e suas grandes empresas tem para impor suas vontades, seus desejos.
Donald Trump está de olho é no mercado de mais de 200 milhões de brasileiros, consumidores de tecnologias que ele julga serem obrigados a consumir apenas tecnologias de seus aliados norteamericanos e em dólar. Consumir tecnologias de outros países e em outras moedas, diminui o seu mercado e seus lucros.
Imagina se esse enorme mercado deixa de utilizar o PIX, gratuito, e passa a ser obrigado a utilizar o whatsapp como meio de pagamento, pagando, que seja, 0,1% de taxa nas transações?
Em 2024, o PIX teve 63,8 bilhões de transações, representando R$ 26,46 trilhões em recursos movimentados. Se acabarem com o PIX e a gente for obrigado a utilizar o meio de pagamento do Mark Zuckerberg (aliado e sócio de Trump), pagando 0,1% de taxa para cada real movimentado, estaremos falando de um ganho para esses dois norteamericanos da ordem de R$ 26,46 bilhões todos os anos. Se o Zuckerberg for generoso e somente cobrar 0,01%, ganharão por ano R$ 2,64 bilhões. Um negócio e tanto para justificar fazer o que estão fazendo contra o Brasil.
Atualmente, Zuckerberg cobra 3,99% de taxa por transações feitas pelo Whatsapp Business.
O Brasil e os brasileiros não podem se render a isso. Somos livres e soberanos para consumir de quem quisermos e para fazer negócios com quem quisermos. Somos livres e soberanos para desenvolver nossa própria infraestrutura tecnológica e para desenvolver nossas cidades, nosso povo e nossa indústria. E podemos fazer isso por nossa conta própria.
As cidades brasileiras precisam estar preparadas para o novo ciclo da economia global, que exige inteligência, eficiência e qualidade de vida. Cidades que ofereçam estrutura tecnológica de ponta, conectividade, mobilidade, bons serviços públicos, acesso à formação e, acima de tudo, um ambiente humano favorável à atração e permanência de talentos e à geração de oportunidades.
O caso de Maricá, no Estado do Rio de Janeiro, é um exemplo inspirador. Com recursos estratégicos e planejamento de longo prazo, o município criou um ecossistema de desenvolvimento local robusto, que articula políticas sociais com estímulos econômicos e tecnológicos. Maricá mostra que é possível alinhar justiça social com dinamismo produtivo, desde que haja compromisso com o território e visão inovadora de futuro.
Cidades como Maricá, e como tantas outras que vêm investindo em se tornar cidades humanas, inteligentes, criativas e sustentáveis, demonstram que o futuro do Brasil passa por um novo modelo de desenvolvimento. Um modelo que valoriza o cidadão, respeita o meio ambiente, impulsiona a inovação, investe em tecnologia e fortalece o tecido produtivo nacional.
Ao apoiar o fortalecimento das cidades humanas, inteligentes, criativas e sustentáveis, o Estado brasileiro está, na prática, investindo no aumento da produtividade com qualidade. Está ajudando a criar ambientes onde a indústria possa se instalar com confiança, onde a mão de obra qualificada deseje viver, e onde o desenvolvimento econômico caminhe lado a lado com o bem-estar da população.
Investir em tecnologia é essencial e é uma tarefa de médio prazo, com ações de curto prazo. No médio prazo, a participação do Estado é fundamental, pois o privado tem a lógica de retorno no mais curto prazo possível e uma aliança entre os dois setores é o que pode garantir sustentabilidade para o nosso desenvolvimento no século XXI.
Diante da ameaça de taxações injustas e unilaterais, não devemos apenas reagir: devemos reafirmar nosso compromisso com a soberania nacional, com o fortalecimento da nossa economia e com o protagonismo multilateral do Brasil no cenário internacional.
O Brasil precisa estimular a inovação, apoiar nossos municípios, promover parcerias com o setor privado e fomentar um ambiente institucional sólido, sustentável e favorável à indústria e à geração de empregos.
É preciso conclamar todos os governadores, prefeitos, empresários e cidadãos a se unirem por um projeto de país que valorize o que é nosso, que fortaleça nossas cidades e desenvolva suas vocações, que proteja nossos produtos e serviços e que prepare o Brasil para os desafios e oportunidades do século XXI.
André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

