Entre recordes, ciclos do café e avanço tecnológico, a agropecuária do ES se consolida como motor das exportações e pilar da renda no interior, mesmo sem liderar o PIB
Por Geilson Ferreira
A agropecuária do Espírito Santo mantém um papel estratégico na economia, mesmo sem ser o setor dominante. Entre 2020 e 2025, o campo capixaba combinou estabilidade estrutural com forte sensibilidade a ciclos produtivos e de mercado, consolidando-se como gerador de renda no interior, motor das exportações e elemento de equilíbrio em momentos de oscilação econômica.
Do ponto de vista macroeconômico, a participação do agro no PIB estadual, variando entre cerca de 4% e 7%, revela mais um indicador de ciclo do que de tamanho. O setor é relativamente pequeno frente ao peso dos serviços, mas altamente volátil. Em 2022, por exemplo, a participação atinge 5,9%, impulsionada pelo bom desempenho do café, recua em 2023 (5,4%), se estabiliza em 2024 (5,6%) e volta a subir em 2025 (cerca de 7%), refletindo uma safra mais forte.

Esse avanço não representa apenas crescimento do setor, mas um choque positivo impulsionado principalmente pela produção de café, aliado a preços mais elevados no mercado internacional.
Nesse contexto, a agropecuária ganha peso relativo na economia estadual, evidenciando sua forte sensibilidade a fatores climáticos e de mercado. Em outras palavras, a participação no PIB passa a refletir diretamente o ciclo do café, principal produto da pauta agrícola capixaba.
Nos anos seguintes, observa-se um movimento de ajuste. Em 2023, a participação recua para aproximadamente 5,4%, indicando normalização após o pico anterior. Em 2024, há leve recuperação para cerca de 5,6%, sugerindo estabilização em um novo patamar.
Esse comportamento reforça a ideia de que o agro no Espírito Santo opera em ciclos curtos, alternando momentos de expansão e acomodação, sem alterar de forma estrutural seu peso na economia.
A projeção para 2025 aponta um novo avanço, com a participação podendo ultrapassar 7%. Esse movimento sugere outro momento de alta do ciclo agrícola, novamente associado a condições favoráveis de produção e mercado. No entanto, é importante destacar que esse tipo de crescimento tende a ser pontual e não necessariamente indica uma mudança estrutural duradoura na composição do PIB estadual.
Esse comportamento evidencia que o agro não dita o ritmo da economia capixaba, mas amplifica movimentos, especialmente por sua dependência de commodities, com destaque absoluto para o café. Assim, sua participação no PIB funciona, na prática, como uma leitura indireta do ciclo cafeeiro, influenciado por clima, bienalidade e preços internacionais.
Essa dependência se confirma no desempenho externo. As exportações do agronegócio cresceram de cerca de US$ 2,1 bilhões em 2020 para um pico de US$ 3,6 bilhões em 2024, antes de um ajuste para US$ 3,2 bilhões em 2025, ainda em patamar elevado. O agro responde por cerca de 30% das exportações totais do estado, consolidando-se como principal “motor externo” da economia.
No entanto, a pauta é altamente concentrada: café (mais de 50%), celulose e pimenta-do-reino somam quase 90% das vendas externas. Esse perfil combina alta competitividade com elevada exposição à volatilidade global, já que boa parte do crescimento recente está ligado à valorização internacional das commodities, e não apenas a ganhos de volume.
Produção de Café no ES
Impulsionado pelo conilon e pelo avanço tecnológico, o Espírito Santo rompe o teto histórico de produção em 2025 e consolida uma cafeicultura mais eficiente e menos dependente dos ciclos tradicionais.

No campo produtivo, o café reafirma sua centralidade. O Espírito Santo é líder nacional em conilon e segundo maior produtor total do país. Entre 2020 e 2024, a produção se manteve relativamente estável, entre 12 e 14 milhões de sacas, até saltar para cerca de 17 milhões em 2025, um recorde recente.
Esse avanço é puxado quase integralmente pelo conilon, que representa até 85% da produção estadual e vem apresentando ganhos consistentes de produtividade, associados ao uso intensivo de irrigação, melhoramento genético e tecnologia. Já o arábica, concentrado nas regiões de serra, mantém menor peso e maior volatilidade. O resultado é uma cafeicultura que começa a reduzir a dependência dos ciclos tradicionais, tornando-se mais eficiente e previsível.
Entre a tradição e a diversificação
Com base nos dados oficiais da Produção Agrícola Municipal (PAM) do IBGE, a evolução da área plantada por cultura no Espírito Santo entre 2020 e 2025 revela uma estrutura produtiva altamente concentrada, pouco volátil e fortemente especializada — com sinais graduais de diversificação.
Café domina a terra, enquanto novas culturas ganham espaço. Observa-se um processo gradual de diversificação dentro das culturas permanentes, com destaque para pimenta-do-reino, cacau, banana e coco. Essas culturas apresentam expansão consistente ao longo dos anos, ainda que em escala muito inferior ao café.


Ao mesmo tempo, há sinais claros de diversificação produtiva. A pimenta-do-reino se consolida como a cultura mais dinâmica, com forte crescimento recente e liderança nacional. O mamão mantém posição estratégica, com produção elevada e estável, enquanto o cacau avança gradualmente como nova fronteira agrícola.
No agregado, a fruticultura permanece robusta, com produção próxima de 1 milhão de toneladas por ano. Esse conjunto revela um setor menos concentrado do que no passado, ainda que o café continue dominante. Essa dominância também se reflete na estrutura do uso da terra. Cerca de 70% da área plantada do estado é ocupada pelo café, o que evidencia um modelo altamente especializado e pouco volátil.

A expansão de outras culturas (como pimenta, cacau e mandioca) ocorre de forma gradual, indicando uma diversificação “na margem”, voltada mais à redução de risco do que à mudança estrutural. No geral, a área plantada cresce de forma moderada e contínua, com baixa sensibilidade a choques de curto prazo, reforçando o caráter de longo prazo da atividade agrícola.
Irrigação transforma o campo capixaba
O principal fator de transformação recente está na produtividade. O Espírito Santo possui um dos sistemas agrícolas mais tecnificados do Brasil, com destaque para o uso de irrigação. Cerca de 43% dos estabelecimentos rurais utilizam algum sistema irrigado, o que representa a maior proporção do país, com predominância de tecnologias eficientes como gotejamento e microaspersão.
O uso de irrigação e tecnologia agrícola no Espírito Santo revela um dos sistemas produtivos mais estruturados e eficientes do país, com base consolidada já no Censo Agropecuário do IBGE e evolução contínua ao longo de 2020 a 2025.

Ao longo de 2020 a 2025, o avanço tecnológico no campo capixaba está fortemente associado à adaptação às condições climáticas e à busca por estabilidade produtiva, sobretudo nas regiões Norte e Noroeste, mais suscetíveis à irregularidade hídrica.
A irrigação, nesse sentido, deixa de ser apenas um insumo complementar e passa a atuar como infraestrutura essencial da produção, reduzindo a volatilidade da safra e permitindo múltiplos ciclos produtivos ao longo do ano. Paralelamente, observa-se a difusão de tecnologias associadas, como fertirrigação, manejo automatizado e práticas de agricultura de precisão, ainda que em ritmo heterogêneo devido ao perfil predominantemente familiar das propriedades.
Conjunto tecnológico é reforçado por políticas públicas e assistência técnica, com destaque para iniciativas estaduais conduzidas pela Secretaria de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (SEAG) e alinhadas ao Plano ABC+, que incentiva o uso eficiente da água e práticas sustentáveis.

Essa base, já consolidada antes de 2020, evoluiu ao longo do período com foco em eficiência, sustentabilidade e agricultura de precisão. Na prática, a irrigação deixou de ser um diferencial e passou a ser infraestrutura essencial, especialmente no norte do estado, permitindo maior estabilidade produtiva e ganhos expressivos de rendimento.
A tecnificação permite ao Espírito Santo compensar limitações territoriais — como menor extensão de área agrícola em comparação a grandes estados produtores —, com maior intensidade produtiva por hectare. Além disso, a estabilidade proporcionada pela irrigação reduz riscos climáticos e amplia a previsibilidade da renda agrícola, elemento crucial para o acesso ao crédito e para a tomada de decisão dos produtores.
Avicultura dispara e redefine a pecuária capixaba
Na pecuária, o padrão é de estabilidade com crescimento seletivo. O rebanho bovino permanece praticamente estável, refletindo um setor maduro, enquanto a suinocultura oscila levemente.
O destaque é a avicultura, que cresce de forma consistente e se consolida como o segmento mais dinâmico, especialmente na produção de ovos. Esse movimento indica uma mudança qualitativa na pecuária capixaba, com maior peso de atividades intensivas e tecnificadas.
A pecuária capixaba evolui, entre 2020 e 2025, de forma consistente, porém heterogênea: enquanto bovinos e suínos refletem um modelo mais estável e próximo do equilíbrio, a avicultura se destaca como o principal motor de crescimento, consolidando uma mudança estrutural na composição do setor agropecuário do Espírito Santo.

No conjunto, a agropecuária capixaba entre 2020 e 2025 revela um setor que combina três características centrais: forte especialização no café, que ainda define seus ciclos; diversificação gradual, com novas culturas ganhando espaço; e avanço consistente da tecnologia, que sustenta ganhos de produtividade e reduz vulnerabilidades.
Embora não seja o principal motor do PIB, o agro desempenha funções essenciais: gera divisas, sustenta economias locais no interior e contribui para a estabilidade econômica do estado. Seu desempenho, no entanto, seguirá condicionado à capacidade de equilibrar competitividade externa com diversificação produtiva e adaptação a um ambiente global cada vez mais volátil.
Esse artigo é uma republicação da edição 233 da Revista ES Brasil – ES Em Números. Confira a edição digital completa aqui.

