Novembro, mês da consciência negra? E como em todos os anos, neste país atravessado pela colonialidade e alicerçado no racismo estrutural
Por Manoel Goes Neto
A atual “polarização” política que vivemos é exacerbada pelos chamados “engenheiros do caos”, que encarnam também o “malismo” (termo do escritor basco-espanhol Mauro Entrialgo), ou “a ostentação do mal como propaganda”, quando políticos, autoridades, bilionários e até “cidadãos comuns”, especialmente nas redes sociais, perdem o pudor de expor publicamente ações ou desejos tradicionalmente reprováveis – frequentemente com o objetivo de obter vantagem comercial, social ou eleitoral.
Esse cenário se reflete também em iniciativas recentes de gestores públicos que, amparados por discursos de ordem e segurança, adotam estratégias de enfrentamento que combinam operações de força seguidas da promessa de estabilização — um modelo já observado em diferentes regiões do mundo. Coincidentemente, tais debates voltam à tona em novembro, mês que marca, no dia 29, o Dia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestino.
A brutalidade e o terror estatal assolam comunidades pobres, que vivem, assim, uma perversa aula prática de “necropolítica”. O termo, formulado pelo filósofo africano Achille Mbembe, descreve quando o Estado exerce o poder de determinar quem pode viver e quem deve morrer – geralmente recaindo sobre pobres, miseráveis, excluídos, negros, povos originários, imigrantes e outros corpos historicamente vulnerabilizados.
Podemos afirmar que o racismo ambiental também é uma forma de necropolítica, atuando em conjunto com políticas públicas que resultam em violência direta ou indireta, tanto em operações policiais no Brasil quanto em conflitos internacionais. Trata-se de um processo lento de desgaste das populações periféricas, submetidas a ambientes que reduzem suas expectativas de vida, como apontam os mapas das desigualdades em São Paulo e outras cidades.
A isso somam-se doenças crônicas – hipertensão, obesidade, diabetes, depressão – como analisado por Letícia Barbosa em A geografia da hipertensão – O que o corpo negro ainda carrega da travessia forçada, além do esgotamento por longas jornadas de trabalho e transporte coletivo precário. Há ainda a mortalidade precoce decorrente da violência, seja a do crime organizado, seja de ações policiais desordenadas, muito mais letais nas periferias.
Novembro, mês da consciência negra? E como em todos os anos, neste país atravessado pela colonialidade e alicerçado no racismo estrutural, faço questão de registrar nos meus textos, ainda sem resposta, infelizmente, as mesmas reflexões: por que um “Novembro Negro”? Por que um “Dia Nacional da Consciência Negra”, num país com maioria da população preta, parda e negra, com tanta violência e racismo? Importante lembrar que os Estados Unidos têm um feriado nacional no aniversário de Martin Luther King – MLK Day. Neste caso, “o que é bom para os Estados Unidos [não] é bom para o Brasil”? Fica a questão.
Manoel Goes Neto é escritor, produtor cultural e diretor no IHGES


