Quando falamos do cuidado com a saúde do homem, precisamos ir além das preocupações com o câncer prostático e incluir na conversa um olhar global
Por Juliana Alvarenga
Os laços azuis que caracterizam a campanha Novembro Azul são símbolos de uma causa que exige total atenção: a saúde da população masculina brasileira e, mais especificamente, a prevenção e o combate ao câncer de próstata. Durante o Novembro Azul, reforça-se o apelo para que homens superem preconceitos, priorizem sua saúde e ajudem a reduzir um dos maiores desafios da oncologia no Brasil.
O câncer de próstata é o segundo mais frequente entre os homens, atrás apenas do câncer de pele não-melanoma. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), estima-se que cerca de 72 mil novos casos sejam diagnosticados anualmente no país. Apesar desses números alarmantes, o diagnóstico precoce ainda é um desafio. Muitos homens só buscam ajuda médica quando os sintomas já estão avançados, o que reduz significativamente as chances de cura.
Esse cenário é agravado por barreiras culturais, como o medo e o estigma em torno do exame de toque retal, um procedimento simples, rápido e essencial para o diagnóstico precoce.
Além disso, o exame de toque retal, essencial para o rastreamento, enfrenta preconceito. Apesar de ser rápido e indolor, muitos homens evitam realizá-lo por constrangimento, o que reduz significativamente a adesão aos programas de prevenção. É importante lembrar que o toque retal, associado à dosagem do PSA (antígeno prostático específico), é o método mais eficaz para identificar alterações suspeitas ainda na fase inicial da doença.
Outro ponto que agrava o cenário é a desigualdade de acesso aos serviços de saúde. Em muitas regiões do país, especialmente nas periferias urbanas e em áreas rurais, há dificuldade em realizar consultas urológicas e exames complementares. A carência de campanhas contínuas e de programas de rastreamento estruturados também contribui para que o diagnóstico precoce seja uma realidade restrita a uma parcela da população.
Ainda no aspecto cultural, muitos homens se veem como figuras responsáveis por manter suas famílias em nível material, dentro de uma lógica em que não podem demonstrar fraquezas ou fragilidades. Nesse tipo de raciocínio, muitos homens se aprisionam em um castelo que eles mesmos constroem, em que não buscam ajuda e não compartilham suas dores – nem físicas, nem emocionais.
No entanto, precisamos falar abertamente sobre a condição humana e as fragilidades enfrentadas por todos, independente do gênero. As famílias têm um papel importante dentro dessa dinâmica, onde esposas, filhos e filhas podem ajudar propondo conversas francas sobre a importância do cuidado para que os pais possam fortalecer a saúde para passar mais tempo com seus entes queridos.
Segundo dados do Instituto Lado a Lado Pela Vida, 62% dos homens brasileiros só procuram ajuda médica quando estão lidando com um sintoma insuportável. Esse é o tamanho do desafio cultural ao qual a saúde pública brasileira precisa responder.
É fundamental que homens acima dos 50 anos realizem os exames necessários para a detecção precoce do câncer de próstata, pois, quando detectado em estágios iniciais, a doença tem maior probabilidade de cura. Aqueles que têm fatores de risco, como histórico familiar, devem iniciar essa rotina mais cedo.
Porém, quando falamos do cuidado com a saúde do homem, precisamos ir além das preocupações com o câncer prostático e incluir na conversa um olhar global.
Sabe-se que o acúmulo de gordura corporal é um fator de risco para o desenvolvimento do câncer de próstata e de outros problemas de saúde, portanto, a alimentação balanceada e a prática regular de atividades físicas também se incluem numa rotina de autocuidado para a saúde dos homens brasileiros.
Somente quando o cuidado for visto como parte da masculinidade, e não como uma ameaça a ela, o Brasil conseguirá vencer o desafio de fazer com que seus homens se cuidem melhor.
Juliana Alvarenga é oncologista clínica.


