Luciano Raizer explica avanços, desafios e mecanismos que impulsionam tecnologia, pesquisa aplicada e a integração com o setor produtivo no Espírito Santo
Por Thamiris Guidoni
O Espírito Santo vive um momento de consolidação do ecossistema de inovação, fortalecendo a conexão entre universidade, setor produtivo e novas empresas de base tecnológica.
Um dos protagonistas dessa engrenagem é Luciano Raizer, presidente da Fundação Espírito-santense de Tecnologia (FEST), professor do Departamento de Engenharia de Produção da UFES e diretor da ACT!ON – Associação Capixaba de Tecnologia. Ele também coordena o ConneCT UFES, programa que aproxima desafios reais da indústria de equipes multidisciplinares formadas por estudantes e professores.
Para Raizer, o avanço da inovação depende diretamente da existência de instituições capazes de articular interesses e organizar processos.
“Inovação não acontece de forma isolada. É preciso ter estruturas que conectem as partes e deem fluidez às iniciativas”, afirma. Segundo ele, a indústria precisa compreender que integra um ecossistema maior e que entidades estruturantes são fundamentais para que esse ambiente funcione. “O setor produtivo precisa entender que faz parte desse ecossistema. Quando existe uma entidade estruturante, todos ganham”, destaca.
É justamente nesse ponto que ele reforça o papel da FEST: “A fundação permite que as empresas contratem projetos diretamente com a universidade, usando laboratórios, pesquisadores e estudantes com muito mais agilidade. Isso dá velocidade, reduz custos e tira a dependência exclusiva do orçamento público.”
Do ConneCT Ufes ao FindesLab
O ConneCT UFES se tornou um símbolo dessa articulação. No programa, empresas apresentam desafios específicos; estudantes propõem soluções; e, após seleção, os projetos são desenvolvidos ao longo de quatro meses, com orientação docente e entregas definidas. Para Raizer, o modelo tem ajudado a reduzir a distância histórica entre academia e mercado.
“Quando o estudante trabalha com um problema real da indústria, ele entende a aplicação do conhecimento e desenvolve competências que a sala de aula não entrega sozinha.”
Outro pilar desse ecossistema é o hub de inovação da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes). Raizer reforça que hubs cumprem uma função estratégica. “Um hub não é só um espaço bonito. É um ponto de encontro entre quem domina tecnologia e quem tem uma demanda concreta. Inovação é método, é investimento, é resultado, e não discurso.”
A própria trajetória de Raizer ajuda a entender essa construção. Engenheiro, com experiência executiva e empreendedora no setor de tecnologia, ele ingressou na UFES como professor aos 24 anos. Ele lembra que, por muitos anos, o Espírito Santo apresentou baixa maturidade em inovação.
“A demanda era pequena. Poucos projetos chegavam a editais públicos. Hoje o cenário é outro, muito mais dinâmico. Isso é resultado da aproximação entre UFES, Findes e sindicatos”, analisa.
Entre os projetos realizados pelo ConneCT, destacam-se um sistema de detecção de fagulhas para a indústria de café, criado a partir de uma câmera simples; um simulador para otimizar a eficiência de trackers solares; e uma inteligência artificial capaz de organizar informações e identificar padrões para apoiar a elaboração de propostas comerciais complexas.
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Raizer explica o desempenho desses modelos: “A IA trabalha com inferência estatística. Ela aprende padrões com alto grau de precisão e replica isso em novas análises.”
No campo institucional, a FEST se diferencia pela capacidade de gerir projetos e facilitar a interface entre empresa e universidade. “Por ser fundação, conseguimos operar com agilidade administrativa e sem encargos trabalhistas nas bolsas. Isso torna o investimento mais acessível e estimula a indústria a buscar soluções locais”, afirma.
A fundação também atua orientando projetos conforme seu grau de maturidade. “Não adianta pegar uma ideia ainda verde e empurrar para um edital grande. Cada projeto tem seu tempo.”
Apesar dos avanços, Raizer lembra que há desafios importantes para o futuro. “As empresas precisam investir mais em desenvolvimento tecnológico local. E a universidade e o setor produtivo ainda precisam se aproximar mais”, avalia.

Ele também destaca a necessidade de integrar melhor o mapeamento dos ambientes e atores do ecossistema. Mesmo assim, Raizer acredita que o Espírito Santo está no caminho certo. “Temos competências, profissionais e instituições capazes de sustentar esse avanço. Se houver coordenação entre os agentes, o estado pode dar saltos ainda maiores.”
A convergência entre UFES, FEST, Findes e programas como o ConneCT tem colocado o Espírito Santo em uma trajetória consistente de amadurecimento tecnológico. A combinação entre pesquisa aplicada, formação de talentos e articulação institucional reforça o papel do estado como produtor de soluções inovadoras, e não apenas consumidor de tecnologias externas.

