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IA: O paradoxo da mudança

O futuro não pede licença. E a inteligência artificial, essa entidade que estamos aprendendo a conviver, não será diferente

Por André Gomyde

Outro dia, um amigo me perguntou se eu achava que a inteligência artificial ia acabar com os empregos. Ele estava angustiado porque tinha visto um robô escrevendo poesias melhores que as dele. Eu disse que a tecnologia nunca acaba com os empregos. Ela só acaba com os empregos dos outros.

O mundo está mudando tão rápido que é difícil acompanhar. Se uma pessoa tivesse dormido em 2005 e acordado hoje, não entenderia metade das conversas. “O que é um influenciador digital?” “Como assim um carro dirige sozinho?” “Por que todo mundo está discutindo o que um algoritmo pensa?” As gerações mais jovens já nasceram dentro desse turbilhão e nem percebem. Para elas, falar com uma máquina é tão natural quanto foi, um dia, atender um telefone de disco para os mais velhos.

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Mas há um problema: nem todo mundo gosta de mudança. E aí entram os conservadores e os progressistas na história. Os conservadores dizem que o mundo está indo rápido demais, que precisamos preservar valores e evitar a destruição daquilo que nos trouxe até aqui. Os progressistas dizem que, se tudo muda, os valores também devem mudar. Um lado puxa o freio de mão, o outro pisa no acelerador. O carro da história vai andando aos trancos e barrancos.

E no meio disso, temos um paradoxo fascinante: Donald Trump e Elon Musk. Trump é o ícone do conservadorismo. “Vamos fazer a América grande de novo”, ele diz, como se houvesse um tempo dourado a ser recuperado. Ele quer voltar ao passado, enquanto Musk está criando um futuro onde humanos e máquinas conversam como velhos amigos. O problema é que, de alguma forma, os dois caminham juntos. Musk, o visionário, e Trump, o retrógrado, andam de mãos dadas, como dois personagens de um conto absurdo.

Como isso é possível? Talvez porque, no fundo, conservadores e progressistas não sejam tão diferentes assim. Os dois querem mudar o mundo – só discordam sobre a direção. O conservadorismo não existe sem um progresso que ele possa tentar conter. E o progresso precisa da resistência conservadora para ter algo contra o que lutar. É um casamento conturbado, mas inevitável.

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O fato é que resistir à mudança nunca funcionou por muito tempo. A única constante na história é que nada permanece igual. O futuro não pede licença. E a inteligência artificial, essa entidade que estamos aprendendo a conviver, não será diferente. Ela não espera conservadores ou progressistas resolverem suas brigas. Ela apenas acontece.

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Então, meu conselho para o amigo preocupado com seu emprego é: aceite o novo. Afinal, nem a poesia resistiu ao avanço da tecnologia – mas talvez, com sorte, ele ainda consiga vender suas rimas para um chatbot desesperado por inspiração.

André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

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