- Continua após a publicidade -
- Continua após a publicidade -

Herança e justiça fiscal: por que o ITCMD falha como tributo redistributivo

A justiça fiscal exige instrumentos de progressividade, já a tributação sobre heranças recai sobre estoques de capital acumulados

Herança e justiça fiscal: por que o ITCMD falha como tributo redistributivo

Por Lucas Judice

O Imposto de Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD), embora tenha um papel marginal na arrecadação dos estados, representa um peso significativo para milhares de famílias brasileiras. Neste texto, quero refletir sobre como esse imposto, pensado para promover justiça fiscal e redistribuição de riqueza, tem se mostrado ineficaz e até perverso na prática. Ao incidir sobre patrimônios formados ao longo de uma vida — muitas vezes com sacrifício — sem considerar a realidade econômica dos herdeiros, o ITCMD não respeita a lógica da capacidade contributiva e, pior, ameaça a preservação do patrimônio familiar e a mobilidade social entre gerações.

A justiça fiscal exige instrumentos de progressividade — e, nesse ponto, sou favorável à aplicação dessa lógica sobre a renda e o consumo, que revelam a real capacidade econômica do indivíduo em vida. Já a tributação sobre heranças recai sobre estoques de capital acumulados, e não sobre fluxos, como ocorre no dia a dia com salários ou compras. Assim, penaliza quem escolheu não consumir, mas sim guardar, investir e planejar a sucessão da própria família.

- Continua após a publicidade -

Essa distorção se agrava quando analisamos o uso da alíquota máxima de 8%, que tem sido aplicada indistintamente a heranças de R$ 2 milhões ou de R$ 200 milhões. A progressividade, nesse caso, perde o sentido. Basta um único imóvel em centro urbano para atingir esse valor — o que comprova a defasagem dos critérios adotados, já que muitos desses bens não representam grandes fortunas, mas sim o patrimônio de uma vida inteira.

Outro problema grave é a falta de sensibilidade na hora de considerar a situação econômica dos herdeiros. A alíquota incide sobre a herança global, não sobre o que cada beneficiário realmente pode pagar. E esse patrimônio familiar é justamente o que movimenta a economia local — são imóveis alugados, pequenos negócios, ativos que geram emprego e consumo. Ao tributar com rigor esses bens, o estado compromete a circulação de capital onde ele é mais necessário: no dia a dia das famílias e das pequenas empresas.

A meu ver, o ITCMD hoje é um tributo que atua mais como instrumento de poder do que de justiça. Cobrar um imposto elevado sobre esse mesmo processo se aproxima de um bis in idem. Mesmo com as mudanças propostas pela EC 132/2023, que tenta aplicar progressividade com base no quinhão de cada herdeiro, a lógica estrutural do ITCMD continua a mesma. O que muda é apenas o ponto de corte das alíquotas. Isso impede qualquer aplicação real do princípio da capacidade contributiva.

Conteúdo em Alta

Saúde mental deixou de ser problema terceirizado
Tributar investimentos isentos pode prejudicar setor produtivo, avaliam...
Direitos do paciente: o que muda com a...
BNDES aumenta crédito à agropecuária
Crescimento, estrutura e desafios do PIB capixaba
Endividamento das famílias sobe a 78,5%, diz CNC
Reforma tributária sobre holdings e patrimônio familiar
Especialistas do ES avaliam impacto da isenção do...
Espírito Santo pode ter aumento de imposto em...
Brasil pode voltar a ser a 10ª economia...

Por fim, reafirmo: se queremos justiça fiscal, precisamos que o sistema tributário considere de fato quais tributos têm a capacidade de redistribuição de riqueza — e devolva à sociedade essa contribuição em forma de serviços públicos. O ITCMD, da forma como é hoje, não cumpre esse papel. Ele arrecada pouco, gera muito impacto e entrega quase nada em retorno. É hora de repensar sua estrutura, finalidade e aplicação. Caso contrário, continuará sendo apenas um obstáculo ao desenvolvimento intergeracional e à estabilidade econômica das famílias brasileiras.

- Continua após a publicidade -

Lucas Judice é advogado, mestre em Direito Empresarial

Leia Mais

Licença-paternidade ampliada sob a ótica do Direito Familiar
Confira os procedimentos de segurança do Concurso Unificado
Justiça do RJ pede 60 salários para liberar...
Consórcio imobiliário é opção de investimento empresarial
Como resolver dívidas da empresa com menos custo...
78,5% das famílias brasileiras estão endividadas em 2023
Imposto sobre herança sobe 46% e atinge R$...
Lei que atualiza valor dos imóveis esconde armadilha...
Exportações recuam 1,7% no PIB; entenda
O profissional de Administração no mundo contemporâneo
- Continua após a publicidade -

Mais Artigos

Continua após publicidade

RÁDIO ES BRASIL

Continua após publicidade
- Publicidade -

Vida Capixaba