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Tributar investimentos isentos pode prejudicar setor produtivo, avaliam entidades

Setores da agricultura e indústria se manifestam contrários a plano de tributar aplicações financeiras e economista diz que é preciso ampla discussão

Por Kikina Sessa

A proposta do governo federal de apresentar medidas alternativas ao aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), que deve ser anunciada ainda nesta semana, está recebendo críticas dos setores produtivos. Indústria e agricultura já se manifestaram. 

Entre as medidas está previsto o aumento para 18% na taxação das apostas esportivas e os títulos isentos de Imposto de Renda, como o LCI, que é a Letra de Crédito Imobiliário, vão passar a ter alíquota de 5% do Imposto de Renda. Será um ajuste ao decreto que aumentou o IOF e que não foi bem recebido no Congresso no final de maio. Essas novas medidas devem substituir o decreto original.

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De acordo com o ministro, o pacote de medidas alternativas será capaz de assegurar o cumprimento da meta fiscal de 2025 e de 2026. Para este ano, a meta é de déficit primário zero, ou seja, de equilíbrio entre receitas e despesas primárias. Já em 2026, a meta é de um superávit fiscal de 0,25% do Produto Interno Bruto (PIB).

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A Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) manifestou preocupação com a proposta de fim da isenção de IR para investidores de Letras de Crédito do Agronegócio (LCA), demais títulos privados e do Fiagro.

“As LCAs têm sido fundamentais para direcionar recursos de mercado ao agronegócio, com baixo risco e estímulo ao investimento de longo prazo. A possível tributação pode desestimular as aplicações, encarecer o crédito para o campo e impactar os custos de produção, com reflexos negativos para toda a sociedade, pressionando a inflação e aumentando o preço dos alimentos”, diz nota da Abag.

Já a Confederação Nacional da Indústria (CNI) afirma que o setor produtivo brasileiro não pode ser prejudicado com novos aumentos de tributação para compensar os problemas de caixa do Estado. O presidente da CNI, Ricardo Alban, apresenta como alternativas o aumento da tributação sobre apostas online (bets), avançar na reforma administrativa, gerenciar com mais racionalidade os gastos públicos, além de implementar modernização das leis trabalhistas.

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“O setor produtivo já está sufocado por juros abusivos e spreads bancários distorcidos. Agora, o crédito vai ficar ainda mais caro. No fim das contas, quem vai arcar com isso é o consumidor. É inadmissível continuar prorrogando essa situação. O Brasil precisa, com urgência, de uma reforma que traga justiça tributária de verdade”, ressalta Alban.

Ampla discussão

Na opinião do economista Eduardo Araújo, a nova tributação sobre investimentos antes isentos reduz a rentabilidade líquida dos investidores e pressiona a margem das instituições financeiras. Produtos como LCIs e debêntures incentivadas costumavam oferecer taxas brutas mais baixas do que outros investimentos tributados, já que a isenção de imposto compensava essa diferença.

“O investidor aceitava um retorno nominal menor porque a rentabilidade líquida final ainda era competitiva. Com o fim da isenção, esses papéis precisarão pagar mais para manter atratividade — ou perderão espaço no portfólio dos investidores. O impacto pode ser mais forte nos bancos médios e nas empresas que dependem da emissão desses títulos. A mudança é fiscalmente relevante, mas também altera incentivos no sistema financeiro”, avalia.

O economista ressalta que o modo como a medida foi anunciada revela um padrão recorrente da política econômica brasileira: mudanças pontuais, com foco no caixa, sem articulação com um plano de longo prazo.

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“Falta um debate sério sobre a progressividade do sistema tributário e sobre como melhorar a qualidade do gasto público. Tributar investimentos financeiros pode ser necessário, mas deveria vir acompanhado de uma discussão mais ampla sobre a estrutura do Estado. Do contrário, seguiremos com reformas incompletas, arrecadações emergenciais e um sistema que preserva privilégios enquanto posterga soluções estruturais”, complementa.

Custo do crédito

O custo do crédito em todo o sistema pode aumentar, especialmente em segmentos que dependem fortemente de financiamento com incentivos fiscais, diz relatório da XP Investimentos. “Esperamos alguma pressão adicional sobre o financiamento do agronegócio, que já está sob pressão devido ao aumento das taxas de inadimplência, uma vez que a remoção dos benefícios fiscais sobre esses instrumentos pode restringir ainda mais o acesso ao capital. As empresas do mercado de capitais podem se beneficiar, pois é provável que as empresas se apressem em emitir dívida antes que a mudança entre em vigor”.

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