Com mais visitantes, maior permanência e aumento do gasto por viagem, setor amplia impacto no PIB, mas ainda enfrenta desafios estruturais para crescer de forma sustentada
Por Geilson Ferreira
O turismo vem ganhando espaço como uma das atividades mais dinâmicas da economia capixaba. Dados da Secretaria de Estado do Turismo do Espírito Santo, combinados com análises do Instituto Jones dos Santos Neves e da plataforma Conecta Turismo, mostram que o setor não cresce só em número de visitantes, mas, principalmente, em valor.
O fluxo turístico vem aumentando de forma consistente no pós-pandemia, com predominância de visitantes do próprio Brasil, especialmente da região Sudeste.
Informações do Conecta Turismo mostram que o Espírito Santo se apoia fortemente nesse turismo de proximidade. Isso limita a presença internacional, mas, por outro lado, dá mais estabilidade ao setor e reduz a dependência de fatores externos.
Com forte presença de visitantes locais e mineiros, Espírito Santo consolida modelo regionalizado de turismo, enquanto participação estrangeira permanece residual e concentrada em poucos países.
A série histórica entre 2020 e 2025 revela uma mudança gradual, mas significativa. Durante a pandemia, o turismo foi majoritariamente interno, com mais da metade dos visitantes sendo capixabas. A partir de 2022, com a normalização da mobilidade, o fluxo interestadual voltou a crescer, reduzindo a participação local para cerca de 43% em 2025.
A presença de visitantes mineiros subiu de 25% para 32% no período. A proximidade geográfica, a cultura de viagens rodoviárias e a forte ligação histórica com o litoral capixaba explicam esse protagonismo.
Rio de Janeiro e São Paulo aparecem como mercados secundários, com comportamento mais estável. Os fluminenses mantêm participação próxima de 10% ao longo da série, enquanto São Paulo apresenta crescimento moderado, saindo de cerca de 5% para 8%.
No cenário internacional, a participação permanece limitada e sem mudanças estruturais relevantes. Os visitantes estrangeiros representam cerca de 3% do total, com leve recuperação após a pandemia, mas ainda sem escala significativa.
Diferentemente de destinos como Bahia, Rio de Janeiro ou Santa Catarina, o estado não possui rotas internacionais relevantes nem forte posicionamento global, o que limita sua competitividade fora do Brasil.
A origem desses turistas é pulverizada, com destaque para três países: Portugal, Estados Unidos e Chile, que juntos concentram pouco mais da metade do fluxo internacional.
Na Europa, embora haja presença recorrente de países como Itália, França, Reino Unido e Alemanha, nenhum mercado individual ultrapassa 0,5% do total de visitantes.
O principal desafio do turismo capixaba é ampliar sua base de visitantes. Isso passa por estratégias de promoção nacional fora do eixo sudeste, maior integração com o mercado paulista e, sobretudo, pela estruturação de uma política consistente de internacionalização. Sem isso, o estado tende a permanecer como um destino regional consolidado, mas com limitações claras de escala e crescimento no longo prazo.
Mais importante do que o volume de turistas é a mudança no comportamento de quem visita o estado. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), organizados pela Secretaria de Estado de Turismo (Setur-ES), indicam que a permanência média aumentou de pouco mais de cinco dias no auge da pandemia para cerca de sete dias recentemente.
Na prática, isso significa que o Espírito Santo está deixando de ser apenas um destino de passagem e se consolidando como um lugar onde o turista fica mais tempo.
O aumento consistente do tempo de estadia reforça o potencial do estado como destino mais completo e competitivo, capaz de reter o turista por mais tempo e ampliar o retorno econômico da atividade.

Esse movimento está associado à diversificação da oferta turística, que inclui não apenas o litoral, mas também regiões de montanha, gastronomia e turismo de experiência.
Esse movimento impacta diretamente o bolso e a economia. Com base em dados do IBGE e estimativas construídas a partir do Conecta Turismo e da SETUR-ES, o gasto médio por viagem mais que dobrou entre 2020 e 2025.
Segmentos como turismo de negócios e hospedagem em hotéis puxam esse crescimento, enquanto quem fica em casa de parentes gasta menos, mas costuma permanecer mais tempo.
O turismo de negócios e eventos apresenta os maiores níveis de gasto diário, superando R$ 500 em 2025, impulsionado por despesas com hospedagem, alimentação e transporte. Já o turista de lazer hospedado em hotéis também mostra crescimento expressivo, acompanhando a valorização das diárias e a qualificação da oferta.
Hotelaria capixaba recupera ocupação
A hotelaria acompanha esse movimento. Dados de mercado da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Espírito Santo e do Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB) mostram aumento consistente na diária média (ADR) e na receita por quarto disponível (RevPAR).
A taxa de ocupação hoteleira no Espírito Santo mostra que o setor conseguiu não apenas se recuperar da crise, mas avançar para um novo patamar de utilização. O desafio daqui em diante será reduzir a sazonalidade, aumentar a atratividade fora da alta temporada e fortalecer a competitividade do destino, criando condições para um crescimento mais equilibrado e sustentável ao longo do ano.
A ocupação média anual evoluiu de cerca de 38% em 2020 para aproximadamente 66% em 2025. Esse avanço reflete tanto a retomada da demanda quanto o fortalecimento gradual do turismo no estado.

Durante o Réveillon e o verão, a ocupação atinge níveis próximos do limite, superando 90% em alguns momentos. Em contrapartida, na baixa temporada, o indicador pode recuar para patamares entre 45% e 60%, evidenciando uma oscilação significativa ao longo do ano.
O setor ainda enfrenta um problema importante: a falta de dados estruturados. Indicadores-chave da hotelaria, como ocupação, ADR e RevPAR, não são divulgados de forma contínua por fontes oficiais e dependem de levantamentos de mercado. Isso dificulta análises mais precisas e limita o planejamento do setor.
No caso da diária média da hotelaria no Espírito Santo (ADR), mesmo na ausência de uma série oficial consolidada, a reconstrução com base em dados de mercado e entidades como a ABIH-ES e o FOHB indica que o indicador saiu de aproximadamente R$ 135 em 2020 para cerca de R$ 262 em 2025, praticamente dobrando no intervalo de cinco anos.
Durante o Réveillon e o verão, as diárias atingem seus níveis mais elevados, superando R$ 300 em alguns casos, impulsionadas pela alta ocupação. Em contraste, na baixa temporada, os preços recuam significativamente, evidenciando a dependência do calendário turístico. Essa oscilação indica que, embora o patamar médio tenha subido, o setor ainda enfrenta desafios para sustentar preços mais elevados de forma contínua.
Já a evolução da receita por quarto disponível (RevPAR) — principal indicador de desempenho da hotelaria — revela uma transformação significativa no turismo do Espírito Santo ao longo dos últimos anos.
Embora não exista uma série oficial consolidada, a reconstrução técnica com base em dados de mercado e entidades como a ABIH-ES e o FOHB mostra que praticamente triplicou entre 2020 e 2025, saltando de cerca de R$ 57 para R$ 162.
Durante o Réveillon, o RevPAR atinge seus níveis máximos, podendo ultrapassar R$ 300, resultado da combinação de ocupação próxima de 100% e tarifas elevadas. No verão, o indicador permanece em patamar alto, enquanto na baixa temporada sofre queda significativa, evidenciando a forte dependência do calendário turístico.
O comportamento do RevPAR indica que a hotelaria capixaba não apenas se recuperou da crise, mas avançou para um novo patamar de receita. O desafio agora é sustentar esse crescimento em um ambiente mais competitivo, reduzindo a dependência da alta temporada e ampliando a atratividade do destino ao longo de todo o ano.
Turismo amplia peso na economia capixaba
No cenário mais amplo, o turismo vem ganhando peso na economia capixaba. Com base nos indicadores do Instituto Jones dos Santos Neves, da Secretaria de Estado do Turismo do Espírito Santo e na metodologia do IBGE, o setor já responde por algo próximo de 8% do PIB estadual. É um avanço relevante, principalmente em um estado historicamente puxado por atividades industriais e extrativas.
A evolução da participação do turismo no Produto Interno Bruto do Espírito Santo evidencia um processo de fortalecimento gradual e consistente do setor na estrutura econômica estadual. A mensuração da participação do turismo no PIB depende de metodologias indiretas, baseadas em atividades características do turismo, o que pode subestimar ou superestimar o impacto real do setor.

A ausência de dados mais granulares — especialmente sobre a hotelaria e a economia informal — dificulta uma avaliação mais precisa da produtividade e da eficiência econômica da atividade.
O turismo no Espírito Santo deixou de ser um setor complementar para se consolidar como componente relevante da economia estadual. O avanço gradual de sua participação no PIB indica ganho estrutural, sustentado por fatores como aumento do gasto por visitante e fortalecimento da base de serviços.
O crescimento também aparece na base empresarial. Mesmo sem uma estatística única consolidada, dados do Ministério do Turismo (Cadastur), combinados com registros administrativos e estudos do Sebrae, mostram aumento no número de estabelecimentos turísticos. A maior parte é formada por micro e pequenas empresas, o que reforça a capilaridade do setor, mas também traz desafios de formalização e produtividade.
O número estimado de estabelecimentos turísticos passou de cerca de 8,2 mil para 10,5 mil, um avanço próximo de 28%. A expansão é fortemente puxada por micro e pequenas empresas, que dominam a estrutura do turismo capixaba. Restaurantes, bares, pousadas de pequeno porte e serviços associados ao turismo regional compõem a maior parte desse universo.

Esse crescimento também impõe desafios relacionados à competitividade, qualidade dos serviços e sustentabilidade dos negócios, especialmente em um ambiente com forte presença de pequenos empreendedores.
Do ponto de vista econômico, a expansão do número de estabelecimentos indica um aumento da capacidade instalada do turismo no estado, o que tende a ampliar o efeito multiplicador do setor sobre a economia.
A maior oferta de serviços contribui para a geração de emprego e renda, além de fortalecer cadeias produtivas associadas, como transporte, comércio e alimentação.
No fim das contas, o turismo no Espírito Santo vive um momento de virada. Depois de superar a pandemia e aproveitar o impulso da retomada, o setor entra agora em uma fase mais madura. O visitante fica mais tempo, gasta mais e gera mais impacto econômico.
O desafio daqui para frente é claro: manter esse crescimento com qualidade. Isso passa por investir em promoção, atrair novos mercados, inclusive internacionais, reduzir a sazonalidade e melhorar a infraestrutura. Mais do que trazer turistas, o Espírito Santo precisa continuar evoluindo na capacidade de transformar cada viagem em mais valor para a economia.
Essa matéria é uma republicação da edição 233 da Revista ES Brasil – ES Em Números. Confira a edição digital completa aqui.

