O país dá um salto rumo à energia limpa: energia solar, veículos elétricos e novos investimentos já transformam a economia e mudam o cotidiano das cidades
Por Cristiano Stefenoni
Não precisa ir longe. Uma rápida olhada ao redor e é possível ver como a transformação energética tem impactado o cidadão, as empresas e o espaço urbano. Carros e ônibus elétricos circulam por vias cuja sinalização é alimentada por placas de energia solar, similares às que podem ser vistas nos telhados de muitas empresas e residências. O fato é que, desde a invenção da roda, nunca a tecnologia fez tanta diferença na vida das pessoas como agora.
A Inteligência Artificial, a biotecnologia, a nanotecnologia, as energias renováveis e as tecnologias digitais abrem espaço para uma nova era de possibilidades, que ainda é difícil mensurar aonde chegará. A projeção, por exemplo, é que apenas a I.A eleve a produtividade do Brasil em 17% até 2038, algo que poderá adicionar cerca de US$ 429 bilhões ao PIB nacional, segundo estudo da Accenture.
Em contrapartida, especialistas alertam que o avanço da IA também elevará significativamente a demanda por energia: estimativas da Deloitte apontam que o consumo elétrico de data centers pode dobrar até 2030, alcançando cerca de 1.065 TWh anuais, o equivalente a aproximadamente 4% do consumo energético global, o que pressiona a necessidade de ampliar a infraestrutura e acelerar a transição para fontes limpas.
Enquanto o futuro não chega, o cenário do presente é bem animador. Em 2025, por exemplo, o Brasil chegou à impressionante marca de 43 gigawatts (GW) de energia solar gerada em telhados, fachadas e pequenos terrenos, com investimentos na ordem de R$ 193,1 bilhões no país.
O segmento responde pela criação de mais de 1,2 milhão de empregos verdes acumulados desde 2012, segundo a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar).
São 6,8 milhões de unidades consumidoras atendidas atualmente pela tecnologia fotovoltaica, com mais de 3,8 milhões de sistemas instalados nas áreas citadas.
A diferença entre os números se explica pelo fato de que um único sistema pode atender múltiplas unidades, como ocorre em condomínios e empreendimentos coletivos.
Do total de conexões, as residências lideram com 3 milhões (79,8%), seguidas pelos estabelecimentos comerciais, com 379 mil (9,9%) e o setor rural, com 331 mil (8,6%).
De acordo com os dados da Absolar, já são 5.567 municípios brasileiros, em todos os estados, que contam com a tecnologia fotovoltaica, o que representa uma arrecadação de R$ 58 bilhões aos cofres públicos. As únicas exceções são Boa Esperança do Norte (MT), criado oficialmente em janeiro de 2025 e ainda sem conexões registradas com sistemas solares, e Guaraqueçaba (PR), onde tentativas anteriores de implantação foram prejudicadas pela baixa incidência solar em algumas vilas e por falhas técnicas que impediram o funcionamento adequado dos equipamentos. Em termos de potência instalada, São Paulo lidera o ranking, com 6 gigawatts (GW), seguido por Minas Gerais (5,4 GW), Paraná (3,8 GW) e Rio Grande do Sul (3,5 GW).
Arquitetura e engenharia também entram na transição
O CEO da Absolar, Rodrigo Sauaia destaca os impactos benéficos para sociedade, como o fortalecimento da sustentabilidade, alívio do orçamento das famílias e aumento da competitividade dos setores produtivos brasileiros. “No passado havia o dilema ‘limpa x barata’. Ele acabou. A evolução tecnológica derrubou custos e, em boa parte do mundo, solar e eólica já são mais baratas do que carvão, gás, óleo e até nuclear. Além disso, a solar cria cerca de 30 novos postos de trabalho por megawatt instalado.”, enfatiza.
A busca por uma energia limpa, barata e democrática também está influenciando projetos de arquitetura, engenharia e até urbanismo – neste último caso, com a criação de pontos de abastecimento que se integrem estratégica e harmoniosamente aos projetos urbanísticos existentes ou em axecução.
Como registra Alex Bullos, CEO da Solar Corp, que atua com soluções fotovoltaicas para condomínios residenciais e prédios comerciais, é crescente a adoção de sistemas solares em projetos imobiliários, supermercados e edifícios comerciais,. No Espírito Santo, um bom exemplo é a Galwan Construtora. “O uso de placas solares para abastecimento das áreas de uso comum é um destaque dos nossos empreendimentos. Eles promovem a geração de energia limpa e renovável e reduzem significativamente a dependência de fontes fósseis, colaborando para a diminuição das emissões de gases de efeito estufa”, explica a arquiteta Blenda Coutinho, gerente de projetos da empresa.
Eletromobilidade: setor fatura R$ 594,3 bilhões por ano
A mobilidade elétrica é outra área que tem trazido uma transformação sensível ao dia a dia da sociedade, seja no setor privado ou público. De acordo com o primeiro Anuário da Cadeia Produtiva da Eletromobilidade 2024, produzido pela Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), o setor de eletromobilidade brasileiro movimentou cerca de R$ 594,3 bilhões em faturamento anual, liderado por segmentos como infraestrutura, com R$ 445,9 bilhões, e componentes, com R$ 85,4 bilhões.
Em 2023, foram 177.358 veículos eletrificados leves emplacados, alta de 89% em relação ao ano anterior, conforme o Anuário da ABVE. Além disso, o setor gerou mais de 442 mil empregos diretos e indiretos, e 80% das empresas planejam ampliar suas equipes nos próximos três anos, com estimativas de investimentos na ordem de R$ 567,2 bilhões até 2027.
No Brasil, a projeção da Associação Brasileiras do Setor de Bicicletas (Aliança Bike) é de que haja 300 mil e-bikes em circulação no país em 2025 – estima-se que mais de nove mil em circulação somente no ES. Patinetes, triciclos e scooters também registram aumento significativo nas vendas, especialmente após a regulamentação do Contran em 2023. A facilidade de uso (sem necessidade de placa e com permissão para ciclovias) tem impulsionado a adoção.
*Matéria publicada originalmente na revista ES Brasil 229, de novembro de 2025. Leia a edição completa de Energia aqui.

