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Transição energética: um caminho sem volta para a sustentabilidade

Novos investimentos mostram como o Brasil e o Espírito Santo aceleram a transição energética em uma corrida que não é apenas ambiental, mas também econômica e estratégica

Por Cristiano Stefenoni

Da biomassa de cana na indústria à energia fotovoltaica na igreja, a transição energética está cada vez mais presente no dia a dia do capixaba. O estado e o Brasil, na verdade, têm trabalhado em várias frentes para se adequar a uma tendência global: abrir mão do combustível fóssil e investir em alternativas renováveis e de baixo carbono, como a solar, eólica, hidrelétrica, biomassa e o hidrogênio verde, entre outras.

Não se trata apenas de uma preocupação com o meio ambiente, mas também com o bolso.

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Uma residência com placas solares pode ter uma redução na conta de luz entre 50% e 95%, segundo a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar). Já um carro elétrico, por sua vez, pode render uma economia de 79% no gasto com abastecimento, comparado a um veículo à gasolina, que faz 10 km/l, de acordo com levantamento da NeoCharge.

A indústria foi a primeira a entender isso e corre contra o tempo para fazer essa transição.

Relatório do Ministério de Minas e Energia (MME) divulgado em 2025 mostra que 64,4% de energia consumida pela indústria brasileira já provêm de fontes renováveis, sendo 22% da eletricidade (88,2% de fontes limpas), bagaço da cana (21,3%), licor preto (9%), lenha (8,8%), carvão vegetal (4%) e outras fontes (12,3%), além de carvão mineral (11,9%), gás natural (9,4%) e óleo combustível (1,3%), que não são renováveis.

Mas a adesão à transição energética não se limita ao setor industrial e se expande pela sociedade. Embora tenha a fé no centro de sua atuação, em algumas igrejas a gestão eficiente e o uso de tecnologias sustentáveis têm ganhado espaço como aliados importantes. A Igreja Cristã Maranata (ICM), por exemplo, já possui um mega sistema de painéis solares para dar suporte aos seus templos. Em todo o país, hoje são 60 usinas fotovoltaicas instaladas e operantes, totalizando 4,8 MWp e uma capacidade de geração anual de cerca de 6,3 MWh, atendendo atualmente cerca de 2.500 unidades consumidoras.

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Na ponta do lápis, do ano de 2020 para cá, todo esse investimento já gerou uma economia para a ICM superior a R$ 6 milhões em custos operacionais, enquanto a redução de CO2 é de mais de mil toneladas por mês. “Nossa igreja tem uma visão prospectiva de sustentabilidade, e todos são beneficiados com esse projeto”, ressalta o pastor Daniel Moreira, diretor-administrativo e coordenador do projeto.

Espírito Santo busca ser referência em energia renovável

O Espírito Santo tem acelerado sua caminhada nesse processo de transformação energética. “Embora a matriz energética estadual ainda seja dominada por fontes não renováveis, há avanços na incorporação de fontes renováveis. A expansão delas mostra que o Espírito Santo caminha em direção a um modelo energético mais sustentável”, afirma Nathan Diirr, gerente de Ambiente de Negócios do Observatório da Indústria da Federação das Indústrias do ES (Findes).

Transição energética: um caminho sem volta para a sustentabilidade
“O hidrogênio verde é promissor, pois além de não gerar gases de efeito estufa durante sua produção, também não gera esses gases quando utilizado nos processos produtivos”. – Nathan Diirr, gerente de Ambiente de Negócios do Observatório da Findes – Foto: Divulgação

Ele explica que o estado capixaba estabeleceu a meta de neutralizar suas emissões líquidas de gases de efeito estufa (GEE) até 2050 e aderiu oficialmente às campanhas globais Race to Zero e Race to Resilience. “Essas são premissas básicas do Plano de Descarbonização do estado. Com essa meta, o Espírito Santo se depara com um processo intenso e desafiador por si só, porém, muito estratégico e necessário diante das mudanças climáticas observadas em todo o mundo”, afirma.

Mas chegar lá não é uma tarefa simples. Segundo Diir, para que esse plano seja bem-sucedido, alguns desafios precisam ser superados, tais como o aumento da disponibilidade de matérias-primas a preços competitivos (como gás natural, biomassa e hidrogênio), infraestrutura de transmissão e geração de energia adequada e investimentos em pesquisa, desenvolvimento e qualificação profissional.

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“Nesse sentido, o financiamento das atividades de descarbonização é um grande desafio, pois exige mobilizar um elevado montante de recursos públicos e privados. Um ponto positivo para o estado é poder contar com os recursos do Fundo Soberano, por meio do qual projetos voltados à transição energética e à descarbonização podem ser financiados a partir de parte das receitas excedentes dos royalties de petróleo e gás natural”, esclarece Diirr.

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O papel do hidrogênio verde no futuro capixaba

O hidrogênio verde é outra opção que vem despertando o interesse do mercado, pois é um combustível sustentável, obtido pela separação dos elementos da água usando eletricidade vinda de fontes limpas. “O hidrogênio verde é promissor, pois além de não gerar gases de efeito estufa durante sua produção, também não gera esses gases quando utilizado nos processos produtivos. É um aliado em potencial para reduzir a pegada de carbono de vários setores da economia. Mas ainda são muitos os desafios relacionados a ele e a outros combustíveis de baixo carbono”, comenta o especialista do Observatório da Findes.

No Espírito Santo, esse movimento também começa a ganhar corpo. Em 2023, a CEI Energética e o Porto Central, em Presidente Kennedy, firmaram um memorando de entendimentos para desenvolver uma planta de produção de hidrogênio verde, com investimento inicial de R$ 100 milhões e previsão de operação da primeira fase até 2026. O projeto, porém, ainda não avançou. Desde então, o governo capixaba vem incluindo o hidrogênio verde entre as prioridades de sua agenda de descarbonização: criou o programa Gera Hidrogênio, o Fundo de Descarbonização, que poderá apoiar projetos nessa área e, em abril deste ano, firmou — por meio do Bandes — um protocolo de intenções com a Vale para fomentar a cadeia de valor da economia verde, incluindo o hidrogênio.

De acordo com um estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), um dos principais entraves para o avanço do hidrogênio verde no Brasil é a falta de um ecossistema consolidado — com fornecedores de equipamentos, parceiros tecnológicos, investidores e profissionais qualificados — capaz de sustentar e acelerar os investimentos no setor. “Outro desafio consiste na falta de normalização técnica e padrões de certificação amplamente reconhecidos relacionados ao hidrogênio sustentável, o que pode dificultar o andamento da atividade em todo o país”, acrescenta o gerente.

*Matéria publicada originalmente na revista ES Brasil 229, de novembro de 2025. Leia a edição completa de Energia aqui.

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