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Empresas de bem com a vida

Os modelos de negócios vêm adotando práticas de sustentabilidade empresarial; E colhem resultados que vão muito além do lucro financeiro

Por Weber Caldas

A cada semana, os funcionários da Kebis têm direito de levar para casa um pacote de biscoitos caseiros que ajudam a produzir na fábrica de Domingos Martins, na região serrana do Espírito Santo. Depois de degustarem o delicioso produto em família, eles têm um compromisso: trazer de volta para a empresa os pacotes vazios. Isso porque aquelas sacolas plásticas serão usadas para o plantio de mudas de árvores nativas, como o ipê-amarelo, que servirão para recuperar a Mata Atlântica no Estado.

Ações como essa são exemplo do que ficou conhecido como “sustentabilidade empresarial”. Esse termo se refere a um conjunto de medidas adotadas pelas empresas voltado ao respeito a fatores ambientais, sociais e econômicos, de forma que as necessidades das atividades humanas possam ser supridas sem comprometer o futuro das próximas gerações. A preocupação com a natureza e a humanidade passa a ser mais relevante do que a busca pelo lucro a qualquer custo.

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Do ponto de vista social, a empresa deve proporcionar um ambiente que estimule a criação de relações de trabalho legítimas e saudáveis, além de favorecer o desenvolvimento pessoal e coletivo dos direta ou indiretamente envolvidos, desde funcionários e fornecedores até a comunidade vizinha ao negócio e a sociedade em geral.

Em termos econômicos, é preciso zelar para que seu crescimento não ocorra à custa de um desequilíbrio nos ecossistemas ao redor. Se uma empresa lucra explorando as más condições de trabalho dos funcionários ou a degradação do meio ambiente, por exemplo, não está tendo um desenvolvimento econômico sustentável.

Por fim, o desenvolvimento ambientalmente sustentável se refere às condutas que possuam, direta ou indiretamente, algum impacto no meio ambiente, seja em curto, médio ou longo prazos, como o reaproveitamento de água ou a redução da emissão de poluentes.

Para entender

O que é sustentabilidade empresarial?

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É um conjunto de medidas tomadas pelas empresas em busca do lucro sem prejudicar o planeta. Assim, as empresas passam a se preocupar não apenas com os ganhos, mas também com o respeito aos fatores ambientais e sociais envolvidos em todo o processo em que está inserida.

 Como pode ser aplicada?

De diversas formas: por meio do melhor uso de recursos naturais, como a água; do desenvolvimento de programas para a diminuição de impactos ambientais, como consumo de papel e emissão de poluentes; a criação de programas de inclusão social; da promoção e adoção de programas e práticas de reciclagem; da compreensão e do respeito às diversidades culturais; etc.

 Que vantagens são garantidas?

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Do ponto de vista econômico, há possibilidade de redução de despesas com água e energia elétrica, por exemplo, e até materiais de dia a dia, como papel e plástico. No lado social, verifica-se melhoria do ambiente interno entre os funcionários, com maior interação e colaboração. A adoção dessas práticas também agrega valor à marca da empresa, que passa a ser vista de forma positiva por fornecedores e clientes, cientes de que estão consumindo produtos de procedência garantida, social e ecologicamente corretos.

Essas estratégias passaram a ser tão importantes que a BM&F Bovespa (associação entre Bolsa de Mercadorias & Futuros e a Bolsa de Valores do Estado de São Paulo) criou o Índice de Sustentabilidade Empresarial, que envolve a análise comparativa do comprometimento das empresas em questões de sustentabilidade socioambiental. Além de incentivar que as empresas adotem ações sustentáveis, esse índice aparece como uma forma de despertar o interesse de novos investidores.

“Adotar cultura de sustentabilidade é uma questão de sobrevivência do negócio”, alerta Jefferson Cabral, presidente do Conselho de Responsabilidade Social (Cores) da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes). “Tanto os novos como os velhos modelos de negócio devem conter na sua estrutura e no seu DNA a pegada da sustentabilidade. Ou seja, adotar boas práticas não só na dimensão econômica, ambiental e social, mas também na política, cultural e até espiritual.”

Todas essas vertentes são abrangidas pelos projetos sustentáveis da Kebis, que seguem os quatro pilares de sustentabilidade estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU): ser economicamente viável, culturalmente diverso, ecologicamente correto e socialmente justo.

“Não podemos ignorar a importância de adotar atitudes sustentáveis na empresa. Precisamos fazer a nossa parte” – Humberto Ferreira, diretor de Administração e Finanças da Viação Águia Branca

Para ser economicamente viável, a empresa de Domingos Martins aposta no Projeto Economize. Por meio dessa iniciativa, cada funcionário possui um copo de vidro, com o seu nome, para usar no dia a dia, evitando a utilização da versão descartável. Além disso, quando é preciso imprimir um documento, usa-se sempre a frente e o verso da folha de papel A4. Há ainda a aplicação de práticas de logística reversa, ou seja, caixas de papelão para o transporte de produtos são trazidas de volta para a empresa para serem reutilizadas. Isso quando a distribuição não é feita por meio de caixas plásticas, cuja durabilidade é bem maior.

Como resultado dessas ações, em 2016, a Kebis evitou o uso de 21.120 copos descartáveis, 10.500 folhas de papel A4 e 13.875 caixas de papelão. “Temos sempre a preocupação de causar o menor impacto ambiental possível”, afirma Valter Braun, um dos sócios da empresa.

Além de reduzir o impacto, a fábrica também ajuda a recuperar o meio ambiente, sendo ecologicamente correta. Isso graças ao projeto Natureza é Vida, em que os funcionários colaboram com o plantio de ipês-amarelos e outras plantas, utilizando sacolas de biscoito da própria Kebis. Cerca de duas mil mudas de árvores foram distribuídas no ano passado, número que a indústria quer aumentar para 6 mil em 2017.

Outra iniciativa sustentável da empresa é a utilização da água de chuva em algumas garagens, para a lavagem dos veículos e vestiários.

Já a diversidade cultural, estabelecida pela ONU, faz parte dos princípios e valores da Kebis, formada pela sociedade de uma família de pomeranos e outras duas de italianos. Além disso, a equipe de funcionários contempla diferentes origens, raças e religiões. “E até torcedores de oito times de futebol diferentes”, brinca Valter Braun. “A diversidade faz parte do ar que respiramos.”

Por fim, para agir de forma socialmente justa, a Kebis aplica o Projeto SER (Sonhos, Estratégias e Resultados), que motiva tanto seus funcionários como parceiros, clientes e visitantes da fábrica a transformar seus sonhos em estratégias que deem resultado. “Mostramos que é possível transformar sonhos em realidade”, explica o empresário.

Como destaca Valter Braun, o Projeto SER está na essência e na filosofia da Kebis e de seus sócios. “Sustentabilidade é, também, incentivar as pessoas a pensar diferente, a crer que o dinheiro não é tudo. Se precisasse pisar na cabeça de uma pessoa para ganhar dinheiro, eu preferiria nem ter uma empresa”, garante o empresário. “A Kebis é uma empresa que gera emprego, renda e justiça social e faz seus sócios felizes, pagando todos os impostos, não negando direitos aos seus colaboradores e ainda ajudando entidades. Nosso modelo de gestão faz as pessoas pensarem o seguinte: se a Kebis, que é pequenininha e tem um faturamento anual de R$ 3,6 milhões, faz isso, por que a minha empresa, que tem um faturamento de R$ 20 milhões, não produz nenhuma árvore?”

O modelo de sustentabilidade da Kebis enquadra-se dentro do padrão destacado por Jefferson Cabral, da Findes, por contemplar todos os seus stakeholders, ou seja, o público estratégico. “Funcionários, fornecedores, clientes e parceiros devem ser pensados de forma holística para serem alcançados pelos princípios e valores sustentáveis que a empresa tem de buscar”, aponta o presidente do Cores.

Jefferson Cabral também destaca a necessidade de se pensar num modelo de capitalismo sustentável: “Como lidar com um negócio que depende de recursos naturais que são finitos se não pensar em práticas sustentáveis?”

Essa preocupação levou a Ciclo Companhia de Reciclagem, empresa situada na Serra, a tornar-se sustentável do ponto de vista ambiental ao investir R$ 150 mil num sistema que garante o reaproveitamento de água da chuva.

“Construímos uma cisterna com a capacidade de coletar 630 mil litros de água da chuva. Assim, cinco dias de chuva seguidos enchem por completo o reservatório. Em seguida, vimos a necessidade de criarmos um sistema de tratamento dessa água para uso em nossa empresa, com a capacidade de processar cerca de 25 mil litros/hora. O retorno desse investimento veio em apenas um ano”, detalha Romário de Araújo, um dos sócios da empresa e presidente do Sindicato das Empresas de Reciclagem do Espírito Santo (Sinrecicle-ES).

“Nós adotamos a sustentabilidade também para garantir a sobrevida de nosso negócio, pois o processo de reciclagem envolve grande quantidade de água” – Jefferson Cabral, empresário

De fato, graças ao investimento em coleta, tratamento e reúso de água, a empresa reduziu de R$ 176 mil para cerca de R$ 9 mil o custo anual com o consumo de água, uma queda de 95% no gasto. Diante desses resultados, o empresário já pensa na adoção de novas ações sustentáveis, como o tratamento e o reúso de água do banheiro. Iniciativas que estão inspirando outros associados do Sinrecicle.

“Essa cultura acabou se espalhando por outras empresas do setor de reciclagem, que também decidiram investir em estações de tratamento nas suas fábricas. Assim, estamos irradiando boas práticas”, comenta Romário, lembrando a importância dessa iniciativa em meio à escassez de água enfrentada pelo Estado recentemente. “Não dá mais para ficar jogando água fora. É preciso tratá-la e trazê-la de volta para o processo de produção.”

Evitar o desperdício hídrico também faz parte da filosofia da Viação Águia Branca, que realiza o reaproveitamento da água utilizada na lavagem dos ônibus da empresa. O líquido é encaminhado para um sistema de triagem, no qual é realizada a separação de água e óleo, e, em seguida, segue para filtros para a retirada das impurezas e do odor, retornando para o uso em novas lavagens. Esse modelo sustentável gera uma economia de 23,4 milhões de litros de água por ano, o que daria para encher 10 piscinas olímpicas.

Outra iniciativa sustentável da empresa é a utilização da água de chuva em algumas garagens, para a lavagem dos veículos e vestiários.

“Não podemos ignorar a importância de adotar atitudes sustentáveis na empresa. Precisamos fazer a nossa parte, tanto no ambiente de trabalho quanto em casa. É um cuidado diário da empresa”, assegura Humberto Gomes Ferreira, diretor de Administração e Finanças da Viação Águia Branca.

Faz parte da rotina da Águia Branca avaliar e identificar os impactos ambientais de suas atividades, de forma a promover as adequações necessárias, de acordo com o risco oferecido ao meio ambiente. Tamanho zelo fez a viação vencer o Prêmio Boas Práticas do Transporte Terrestre de Passageiros (ANTP/ABRATI) na categoria Responsabilidade Socioambiental, destinado ao motorista que consegue maior economia de diesel no ano.

“Temos o compromisso de irradiar boas práticas, tanto por necessidade econômica como também ambiental” – Romário de Araújo, sócio da Ciclo Companhia de Reciclagem e presidente do Sinrecicle

O prêmio veio como resultado do Programa Condução Econômica, que consegue aliar economia de diesel, manutenção dos veículos, segurança e proteção ao meio ambiente. Em abril deste ano, a Viação Águia Branca premiou os 12 motoristas de suas três Superintendências – Espírito Santo, São Paulo e Bahia – com melhor desempenho no programa em 2016. Juntos, eles proporcionaram uma redução de consumo de 22.650 litros de óleo diesel. Com isso, 62 toneladas de gás carbônico deixaram de ser lançadas na atmosfera, o que equivale a 5.663 árvores plantadas.

“Do ponto de vista social, nos orgulhamos de fazer a nossa parte na preservação do meio ambiente, especialmente quando se trabalha com transporte, um setor tão importante, mas que gera muitos resíduos. Além disso, os valores que colocamos em prática aqui são transmitidos pelos nossos colaboradores a suas famílias e amigos”, afirma Humberto Ferreira.

Satisfeitas com os resultados alcançados, Kebis, Ciclo Reciclagem e Águia Branca já planejam a adoção de novas práticas sustentáveis, cientes de que esse é um caminho sem volta, desde o micro até o grande empreendedor.

Prova disso é que houve um aumento de 80% para 96% na preocupação dos brasileiros com a sustentabilidade entre 2010 e 2014, de acordo com pesquisa do Ibope e da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Além disso, cerca de 76% dos brasileiros afirmaram que preferem optar pelo consumo de produtos ligados a empresas que adotam atitudes sustentáveis, conforme levantamento do Ministério do Meio Ambiente.

“A tendência é que a adoção dessas práticas acabe se tornando relevante no momento da escolha de um produto pelo cliente. Busca-se cada vez mais as marcas que consigam comunicar o seu propósito. Não basta mais pensar no lucro pelo lucro. É preciso pensar no lucro sem deixar de lado aquilo que pode transformar a vida das pessoas e do mundo”, deixa claro Jefferson Cabral.

Dicas de ações sustentáveis

Quer aplicar noções de sustentabilidade em sua empresa? Veja algumas formas fáceis de começar a adotar essas ações no dia a dia:

  • Instale lixeiras para reciclagem e realize campanhas internas para o seu uso. Isso vai permitir uma melhor higienização do ambiente e o descarte correto do lixo;
  • Incentive a troca do uso de copos descartáveis por copos de vidro ou por canecas. Isso contribui para a limpeza do local, diminui a quantidade de resíduos sólidos e reduz custos para a empresa;
  • Troque o papel comum pelo reciclado e utilize lápis de madeira produzidos por companhias que realizam o replantio;
  • Evite imprimir documentos em papéis e opte pelo compartilhamento digital de informações;
  • Substitua as lâmpadas comuns pelas de LED. É melhor para o meio ambiente e também ajuda a reduzir a conta de energia da empresa;
  • Conscientize seus colaboradores quanto à carona solidária ou, caso morem perto do local de trabalho, a substituir o uso do carro ou transporte público pela bicicleta ou caminhada;
  • Promova o uso de menos papel ou crie blocos formados por papéis usados;
  • Caso a estrutura do prédio possua vários andares, permita a instalação de janelas que melhorem a circulação de ar no ambiente de trabalho, pois dá uma impressão maior de espaço e de liberdade;
  • Prefira tons claros nas paredes, pois refletem mais energia solar e impedem que o local fique quente ou abafado.

Esta matéria foi publicada originalmente na edição 142 da Revista ESBrasil, de abril de 2017. As pessoas ouvidas e/ou citadas podem não estar mais nas situações, cargos e instituições que ocupavam na época, assim como suas opiniões e os fatos narrados referem-se às circunstâncias e ao contexto de então.

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