
O empoderamento real começa quando uma mulher para de se comparar e passa a se perguntar: “O que eu realmente quero? E como posso construir isso sem destruir ninguém no processo?”
Por Valeria Effgen
Bom dia, mulher.
Hoje quero começar com uma provocação simples: quando você ouve a expressão “empoderamento feminino”, o que vem à sua cabeça? Você se considera uma mulher empoderada?
Talvez, ao pensar nisso, você imagine uma mulher no comando de uma empresa, uma executiva bem-sucedida, uma influenciadora com milhares de seguidores falando sobre autoconfiança. Se foi isso, talvez essa ideia não tenha vindo de dentro de você, mas da transformação que o mercado deu à palavra ao longo do tempo.
A maioria de nós herdou uma definição pronta, embalada e entregue por quem tinha interesse em nos convencer de que crescer é isso: cargo, visibilidade, produtividade, competição. Mas a palavra, de verdade, diz outra coisa.
O que a palavra sempre quis dizer
“Empoderar” vem do latim potere, que significa poder, mas o detalhe importante é que o prefixo em- indica que esse poder vem de dentro para fora. Não é um poder que alguém te dá, nem um cargo que te concede valor. É um poder que você já tem e que pode aprender a reconhecer e usar.
Isso parece simples, mas também é difícil, porque reconhecer o próprio poder não é algo que o mundo ensina às mulheres. Na verdade, é o contrário.
O erro que cometemos sem perceber
Durante décadas, as mulheres lutaram (e com toda razão) para ocupar os mesmos espaços que os homens, e isso se refletiu no trabalho, na política e na economia. No entanto, nessa luta, algo escorregou pelas mãos.
Muitas de nós desistimos de questionar o modelo para apenas tentar entrar nele. Adotamos a lógica da competição, da produtividade acima de tudo, do sucesso medido em resultados visíveis — inclusive disputando com outras mulheres. Em outras palavras: aprendemos a jogar um jogo que foi criado por e para uma lógica masculina, e chamamos isso de empoderamento.
Não estou dizendo que estar em posições de poder é errado. Longe disso. Estou dizendo que chegar lá pela lógica errada nos custa algo muito caro: a conexão com as outras mulheres.
Por que competimos entre nós
Você já percebeu como é comum mulheres bem-sucedidas não abrirem espaço para outras mulheres? Já notou como, algumas vezes, é justamente uma mulher que barra outra mulher?
Isso tem nome: chama-se síndrome da abelha-rainha. A mulher que chega ao topo dentro de um sistema competitivo e fecha a porta para as que vêm atrás. Isso é feito, muitas vezes, de forma inconsciente.
Calma… não pense que isso é um problema de caráter. É o resultado previsível — e até, de certa forma, esperado — de quem passou a vida inteira dentro de um sistema que diz que há poucos lugares “para mulheres”. Se há poucos lugares, o sistema inconsciente codifica que é melhor competir do que colaborar. A competição entre nós não é uma falha nossa. É a herança de um mundo que nos colocou em escassez sem que percebêssemos.
E, enquanto estivermos presas nessa lógica, não importa o quanto subamos: continuaremos operando dentro de uma estrutura que não foi feita para nos libertar.
O que é, então, o verdadeiro empoderamento?
Empoderar-se é conhecer a própria voz e usá-la sem precisar calar a voz da outra. É saber que você tem valor sem precisar provar isso pisando em alguém. É entender que o sucesso de uma mulher não tira nada de você; ao contrário, abre caminho. Mas, principalmente, é reconhecer que, independentemente do que você decida ser ou fazer na vida, você faz isso por escolha sua — e não porque “o mundo” valoriza mais determinado caminho.
Empoderamento real não é um slogan e não cabe em campanha de marketing. Ele é silencioso, individual e, ao mesmo tempo, profundamente coletivo. Começa quando uma mulher para de se comparar e passa a se perguntar: “O que eu realmente quero? E como posso construir isso sem destruir ninguém no processo?”.
A palavra empoderamento pode até ter se perdido, mas pode ser ressignificada e reencontrada dentro do nosso mundo moderno e cheio de acesso à informação. Nosso principal trabalho é fazer com que ela volte para dentro, que é de onde nunca deveria ter saído.
Talvez o passo mais corajoso que qualquer mulher pode dar seja parar de correr atrás de um modelo externo — que nunca foi seu — para começar a construir um que seja.
Vamos começar juntas agora?
Valéria Effgen é executiva, fundadora do Voa Mulher e advisor da plataforma de planos de negócios Vibz. Atua com estratégia e desenvolvimento de negócios há mais de 20 anos

