Com apoio técnico e políticas públicas, a produção capixaba de cacau especial fortalece o campo e revela o talento de mulheres empreendedoras
Por Maxieni Muniz
O Espírito Santo tem se firmado como um polo emergente de produção de cacau especial, com foco em qualidade, sustentabilidade e agregação de valor por meio do chocolate fino.
Esse avanço é resultado da articulação entre produtores familiares, assistência técnica do governo e iniciativas de protagonismo feminino, que vêm transformando o cenário rural capixaba.
Segundo o secretário de Estado da Agricultura, Enio Bergoli, “o governo estadual apoia os pequenos produtores com assistência técnica e incentivos para fortalecer toda a cadeia produtiva, do cultivo à comercialização”. A estratégia tem refletido no aumento da produtividade e na consolidação de uma economia mais diversificada e sustentável.
Essa aposta no cacau especial envolve principalmente mulheres produtoras, reunidas em projetos que integram desde o manejo até a produção artesanal de chocolates finos.

Exemplo disso é a trajetória de Fabiane Reinholz, engenheira civil que trocou os cálculos pela terra. Com a Reinholz Chocolate, em Colatina, ela deu novos rumos à propriedade da família, investindo em cacau de qualidade, manejo sustentável e processamento artesanal.
“A produção do cacau especial permite ao mesmo tempo diversificar a economia local, criar empregos e fortalecer o agronegócio sustentável”, afirma.
Outra frente importante é o projeto Mulheres do Cacau, que promove o empoderamento feminino na cadeia produtiva. “Temos mulheres que acompanham todo o processo: fermentação, secagem e transformação do cacau em chocolate, com unidades industriais em Rio Canal, Santa Teresa e São Gabriel”, explica Jozyellen Nunes da Costa, agente de desenvolvimento rural do Incaper.
As ações incluem desde análise de solo e orientações sobre manejo, até a legalização da produção e capacitação técnica. O cuidado com etapas como a fermentação e a secagem, por exemplo, é fundamental para garantir a qualidade sensorial do chocolate. Utilizam-se cochos de madeira apropriada para evitar contaminação do sabor, e a fermentação dura entre 4 e 7 dias com manuseio cuidadoso.
A legislação brasileira exige no mínimo 25% de derivados de cacau no chocolate; no caso dos chocolates especiais capixabas, esse índice costuma ultrapassar os 30%. O Espírito Santo já conta com mais de 45 pequenas agroindústrias de chocolate e vem ganhando espaço no mercado nacional e internacional. Algumas produtoras, como Fabiane, também se destacam em prêmios e feiras, consolidando a imagem de um chocolate capixaba premium.
Essa transformação também movimenta o turismo rural, com rotas que valorizam fazendas históricas, agroflorestas e vivências no processo do chocolate. “O turismo aliado à agroindústria cria uma economia circular, beneficiando produtores e comunidades”, observa Bergoli.
A qualidade do chocolate depende de cada etapa da cadeia, do manejo até a formulação final. Além da técnica, há espaço para inovação. Muitas empreendedoras estão apostando em ingredientes regionais e formulações diferenciadas, como pimenta-rosa, açúcar mascavo e leite de coco, agregando ainda mais valor à sua produção artesanal. “Elas utilizam ingredientes diferenciados para criar produtos exclusivos, atendendo a nichos de mercado sofisticados”, esclarece Jozyellen.
“O investimento em cacau especial é também um compromisso com o meio ambiente. Trabalhar com agrofloresta, respeitando o tempo da natureza, resulta em produtos mais puros, com identidade e história”, resume Fabiane. O Espírito Santo mostra, assim, que é possível transformar o campo com inclusão, sustentabilidade e inovação — da amêndoa ao chocolate.
*Matéria publicada originalmente na revista ES Brasil nº 228, de agosto de 2025. Leia a edição completa do Agro aqui.

