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quinta-feira, 13 agosto, 2020

Avós: uma contribuição valiosa para o desenvolvimento infantil

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Eles têm o papel de transmitir a história e os valores da família e sua participação pode reforçar os laços de amor entre todos

Por Taís Hirschmann e Marcia Rodrigues

“Ela gosta de mim, brinca comigo e me ajuda a estudar. Gosto muito de ela sempre estar por perto e querer brincar. Meus pais trabalham e estudam, e minha avó me ajuda muito. Só não gosto quando ela fica brava”. O depoimento, meio tímido, é de Enrico, um menininho de oito anos, neto da aposentada Delza Fiorot, 57, moradora de Jardim da Penha, em Vitória. Assim como milhares de outras crianças brasileiras, Enrico tem uma convivência estreita com a avó, que muitas vezes acaba sendo uma espécie de “segunda mãe” de meninos e meninas cujos pais têm que cumprir longas jornadas de trabalho ou estudos.

Essa relação, na maioria das vezes harmoniosa, tem se mostrado, segundo especialistas, muito importante para o desenvolvimento das crianças, pois possibilita, entre outras coisas, a sua contextualização como alguém que faz parte de uma história, de uma família, já que os avós são os principais detentores das memórias familiares. Pesquisas comprovam que o equilíbrio emocional é favorecido quando a criança conhece sua história, sabe de onde vem.

Convivendo com os avós, a criança também recebe mais estímulos, amplia seu repertório e aprende a conviver em ambientes distintos, com pessoas diferentes. “Esse contato possibilita maior socialização dentro do núcleo familiar, o primeiro grupo social no qual somos inseridos. As crianças são expostas a um grupo maior, e podem se beneficiar também da sabedoria e experiência dos idosos, reconhecidas socialmente”, afirma a psicóloga Ana Graziela Pereira.

A psicóloga Lorena Alves Santana Patrício complementa dizendo que o estereótipo que se tem dos avós é que são pessoas afetuosas, carinhosas e que fazem as vontades dos netos, “mas é claro que cada avô ou avó vai desempenhar um papel diferente. A grande importância dos avós é que eles são uma figura de vínculo para as crianças, uma figura de referência, o que contribui para elas se sentirem seguras e amadas. Os avós conseguem criar um vínculo com os netos sem tantas regras e pressão”, pondera.

Experiência agregadora

A filha de Delza, Paula Fiorot Massariol Caliari, estudante de 32 anos, concorda: “É sempre uma experiência que agrega. A gente, como pai e mãe, não consegue observar coisas que os avós percebem. A minha mãe é muito intuitiva e tem formação como pedagoga. Não vejo minha vida sem ela. Minha mãe é muito importante no cotidiano, porque pode ficar com meus filhos enquanto eu estudo para concurso e meu marido trabalha. Ter o seu apoio é uma bênção!”, opina.

Vale lembrar também que as experiências vividas na infância vão deixar marcas e recordações, e poder vivenciar experiências positivas, de cuidado e amor com os avós, irá favorecer a autoestima da criança. A relação dos avós com os pais de seus netos servirá ainda de exemplo para estes, como modelo de interação, de autoridade e respeito.

“Para o meu filho, é uma continuidade da família conviver com os avós. Ele tem a necessidade de ver os avós nos fins de semana. Acho essa troca de amor e de carinho muito importante. O meu filho ainda é muito novo, mas já sente laços muito fortes e que ele levará para toda a vida. Tive uma ótima convivência com minha avó. Quero essa experiência para os meus filhos”, afirma a engenheira civil Fabíola Lyra, filha de Maria da Penha.

A psicóloga Ana Graziela explica que há ainda outro aspecto positivo, do ponto de vista dos avós: “Devido ao mundo de consumo em que estamos inseridos, o idoso é visto de maneira negativa, como ‘velho’. O que é ‘velho’ é descartado. Então, para os avós, participar de perto da vida dos netos traz um grau de importância e troca afetiva, o que significa um novo sentido para sua vida e maior valorização social”, explica Ana Graziela.

“Para mim, ter netos e conviver com eles foi excelente. Ganhei companhia e muito amor. Gostamos muito de estarmos juntos, na companhia um do outro. O meu neto mais novo sente falta quando não vem na minha casa.  Um dos meus netos escolheu morar comigo, e a minha neta, que não mora, sabe que quando precisa de algo, pode contar comigo”, ressalta Maria da Penha Lyra Nunes, 65 anos, dona de casa, outra avó que se orgulha de seu papel no grupo familiar. “O que mais aprecio nessa convivência é o reforço dos laços de amor e de amizade. Sou realizada por ter formado uma família e ter bons netos. Acho ótimo conviver com a minha família”, diz ela

Lorena Alves confirma que, quando a relação é positiva, são inúmeros os benefícios oriundos da interação netos x avós. “Eles podem ser fonte de afeto, de orientação e amizade para os netos. Com os avós, as crianças podem vivenciar situações novas e reforçadoras que são importantes para seu desenvolvimento. Já para os avós, os benefícios são poder se sentir mais ativos, produtivos, receberem afeto e carinho dos netos, além de desempenhar um novo papel em sua vida”, ressalta. Ela aponta ainda que os pais também saem ganhando: “Os avós podem ser pessoas para orientar e dividir a árdua tarefa de criar e educar um filho e, além disso, podem ter a oportunidade de fortalecer as relações entre si”.

Diálogo e papéis definidos evitam conflitos

Embora quase sempre harmoniosa, a relação entre pais, filhos e avós às vezes pode ser fonte de conflitos, especialmente quando as opiniões divergem quanto ao que deve ser ensinado aos pequenos e como ensinar. Nesses casos, o bom-senso é sempre o melhor caminho para a resolução das divergências. Saber dialogar de maneira educativa e construtiva promove o crescimento saudável e o bem-estar de todos. Cabe ressaltar que a relação entre pais e avós é uma referência para os netos, já que as pessoas têm a tendência de reproduzir comportamentos aprendidos.

“As minhas filhas nunca cobraram nada. Por isso, meus netos nunca me deram trabalho. Acho que devo cobrar, orientar e ser amiga deles, principalmente quando os pais não estão por perto. Mas entre nós nunca houve conflito. As minhas filhas sempre confiaram em mim”, destaca Maria da Penha.

Quando não é possível construir uma relação saudável, de amor e respeito, entre netos e avós, infelizmente a ligação não será muito forte e os laços não terão grandes significados. “Os pais podem tentar entender e intervir nessas situações, para facilitar a relação entre avós e netos. Acredito que se os filhos tiverem uma boa relação com os pais, e isso proporcionar o convívio entre avós e netos, estarão favorecendo que a relação entre avós e netos também seja positiva”, orienta Lorena.

E para que os avós participem da vida dos netos sem conflitos, é importante que respeitem os limites impostos pelos pais das crianças. Devem tentar orientar e ajudar, mas entender que eles são os avós, e não os pais. “Acredito que o mais importante é não tirar a autoridade dos pais”, alerta Lorena, que complementa: “Na clínica, é muito comum recebermos queixas de crianças que apresentam problemas de comportamento e os pais relatarem que os filhos não obedecem e, quando eles tentam corrigir, os avós não deixam, ou acabam cedendo a algo que os pais proibiram. Essa é uma situação complicada, que irá trazer conflitos para estas relações”.

“Acho que é papel dos avós ajudar a educar, porque hoje o mundo não está fácil. Mas pais e avós devem educar em conjunto. Eu só não gosto de interferir. Meus netos ficam comigo, mas sigo as orientações dos pais”, afirma Delza Fiorot, a avó de Enrico.  E complementa: “Meus netos são meus companheiros. Procuro corrigir e orientar, é claro, com algumas exceções. Tenho três filhos e três netos. Sei que no futuro eles usarão o que lhes transmiti. Acho importante ajudar na educação porque a gente tem mais experiência do que os pais. Também fui professora, sou formada em Pedagogia e coloco meus ensinamentos em prática com meus netos”.

Os especialistas recomendam que os papéis dos avós e dos pais devem estar bem definidos. Os avós deverão orientar seus filhos com cautela, respeitando a forma de eles educarem, e os filhos devem ouvir e respeitar os ensinamentos dos pais. É uma relação possível, que necessita de diálogo e compreensão, como demonstra o exemplo da família Fiorot.

“Nunca houve conflito entre nós, porque ela (a avó) respeita muito o papel dos pais. É muito bom saber que posso contar com ela e que a convivência dela com os meus filhos agrega valores, que na correria da minha vida podem passar batido. Ela completa a educação dos meninos. Fico 100% tranquila”, afirma a filha de Delza, Paula Fiorot.

Na família Lyra, a harmonia também é a tônica. “Meus pais são muito participativos e tenho uma afinidade muito grande com eles. Se minha mãe me orientar, eu vou avaliar com todo o carinho”, afirma a filha, Fabíola.

Mas a participação de cada avô e avó será diferente, dependendo da dinâmica familiar que estão construindo. Em algumas famílias, eles só terão contato com as crianças nos finais de semana; em outras, são os avós que criam os netos; ou, ainda, ficam meio período, enquanto os pais trabalham.

Nos casos em que os avós passam muito tempo com a criança ou a criam, vão participar ativamente de sua educação e, assim, os papéis serão diferentes. Portanto, avós e pais devem definir juntos as regras que irão seguir, o que irão aceitar dos filhos, como irão corrigir, para que eduquem da mesma forma, evitando assim conflitos entre eles e problemas de comportamento na criança.

Aprendendo e mudando juntos

Segundo Lorena, as relações de modo geral vêm mudando, assim como as configurações familiares e, consequentemente, também a relação entre netos e avós. Atualmente, os avós não têm mais aquela imagem do idoso sentado na cadeira de balanço: hoje são ativos, têm uma expectativa de vida maior, em alguns casos ainda desempenham uma atividade profissional, e acabam tendo uma postura mais dinâmica com os netos, participando e interagindo com eles.

Envolvem-se nas atividades extraescolares, passeiam com os netos e, em alguns casos, são eles os responsáveis por levar os netos a seus inúmeros compromissos, como aula de inglês, natação etc. Assim, passam a assumir um papel de “ajudantes” dos pais, que, pelos compromissos profissionais, não podem participar desses momentos com os filhos.

“Mas também, infelizmente, em algumas famílias os avós deixaram de ter aquele papel de conhecedor, de detentor de sabedoria, e passaram a ser vistos como quem não tem com o que contribuir, pois não conseguiram acompanhar as mudanças do mundo. Nesse caso, não são respeitados pelos netos, e acabam não conseguindo criar um vínculo”, diz Lorena.

Ana Graziela concorda que, sem dúvida, a relação entre avós e netos está mudando, até porque o estilo de vida dos idosos é bem diferente daquele modelo de “velhinho frágil”, delicado e de cabelos brancos. “Hoje, eles estão participando de práticas esportivas, aulas de dança, informática, viagens em grupo e seu repertório se amplia, favorecendo a relação com os netos, proporcionando ricas trocas de experiências”, afirma.

Em muitas famílias, os avós também ajudam na educação formal. Para Lorena, se tiverem preparo e disponibilidade para isso, a ajuda dos avós com os estudos e deveres é positiva. “A educação mudou ao longo do tempo, e muitas vezes os pais têm dificuldade de ajudar os filhos; então, pode ser que para os avós esta também seja uma tarefa difícil. Acredito que se os avós estiverem dispostos a isso, não existe problema. Mas esse papel não é deles, e não lhes deve ser imposto. Porém, se ocorrer de forma natural, eles têm muito a contribuir”, afirma.

Para Ana Graziela, desde que os espaços de cada um dos envolvidos não sejam invadidos, o que é resultado de uma relação saudável e bem estabelecida, o auxílio com a educação formal dos filhos pode ser bem-vindo e construtivo.

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