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domingo, 19 maio, 2024

Desemprego e qualificação: como encarar este desafio?

Para aprofundar o assunto, a ES Brasil abordou dois pontos de vista sobre este dilema e conversou com  especialistas

Por Amanda Amaral

O Brasil conta com 8,2 milhões de pessoas desempregadas, segundo dados do quarto trimestre de 2023, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Como preparar estas pessoas para o mercado e o que os empregadores buscam?

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O mundo passa por um período de grandes mudanças provocadas por avanços tecnológicas que modificam, criam e extinguem atividades. Além disso, é preciso lidar com a frustração entre os jovens diante do atual cenário econômico, cada vez mais competitivo e dinâmico, o que também acaba por limitar as chances de profissionais mais velhos entre 50 e 60 anos.

Segundo informações do Conselho Regional de Economia, entre as pessoas com curso superior, 9% estão em busca de um emprego. Já entre os que tem nível médio, são 30%.

Por isso, a ES Brasil abordou dois pontos de vista sobre este dilema e conversou com os economistas Celso Bissoli Sessa, que também é professor da Ufes e ex-presidente do Corecon-ES, e com o especialista em administração de recursos humanos, Sebastião Demuner.

– A pandemia veio para intensificar e agravar ainda mais o problema do desemprego no Brasil. Quais medidas econômicas seriam viáveis para reverter esse quadro?

Celso Sessa – Realmente, a pandemia piorou essa questão. Se compararmos o cenário antes e depois da pandemia, já existia um problema muito grande na nossa econômica. Quando olhamos o mercado de trabalho, pensamos mais do ponto de vista da oferta, mas nesse caso o problema é muito mais de demanda. Não temos uma economia aquecida que gere emprego para essa mão-de-obra. Quando a gente fala de qualificação, e é muito importante investir em qualificação, se o crescimento econômico não é constante ao longo do tempo, o esforço em qualificar é jogado no lixo. Nosso principal desavio é garantir o crescimento da economia e as demais ações vêm a reboque. Temos que qualificar a mão de-obra? Sim, é claro. Temos inclusive que conseguir um acesso maior, principalmente, para os jovens à educação formal. Os dados indicam que a remuneração desses jovens quando concluem este ciclo é maior. Entre o grupo que tem curso superior, 9% estão desempregados. Já no grupo dos que só tem nível médio, 30% estão desempregados.

Sebastião Demuner – Esse não é um problema localizado no Brasil, é um problema mundial. O momento econômico mundial já vinha de incertezas. Aquele emprego formal que a gente começava aos 20 anos e terminava aos 50, ele acabou.

– As mudanças tecnológicas influenciaram na dinâmica de vários setores e até extinguiram algumas profissões. A mão-de-obra hoje está preparada para enfrentar esse desafio?

Celso Sessa – Não é só um problema de oferta, mas também de demanda. As tecnologias reescreveram muitas profissões, mas da mesma forma que extinguiram algumas, outras foram criadas. E essas que são criadas tem um nível de exigência maior em qualificação. No Brasil, esse impacto é um pouco diferente. Nós não concentramos ainda muitas atividades que incorporem essa complexidade. Acabamos nos especializando mais em commodities e menos no desenvolvimento de indústrias. Como consequência, isso diminui a demanda por trabalhadores com mais capacitação. Dentre o grupo que tem curso superior, 9% estão desempregados, já entre os que só tem nível médio, 30% estão desempregados.

Desemprego e qualificação: como encarar este desafio?
Para Demuner, os jovens precisam de determinação. Foto: Divulgação Corecon-ES.

Sebastião Demuner – Esse sistema vem se apresentado assim em razão da competitividade. Com a a entrada da China, criou-se um novo modelo mundial baseado na competitividade, mas a cultura brasileira, por exemplo, não tem essa característica. Nós não ensinamos nossos jovens a serem dessse jeito. A solução é trabalhar a questão comportamental, passa além da questão educacional. Dentro de casa, ensinarmos que a vida não é facil, que precisa trabalhar, precisa estudar e que a glória não vem do nada. Ele precisa entender que é uma pessoa comum e que precisa trabalhar a vida inteira para conseguir pagar suas contas. Hoje ele quer ser um Neymar ou uma Bruna Marquezine.

E isso não é culpa do jovem. Foi o sistema que o criou assim. Aqueles menos privilegiados, nas camadas mais baixas da sociedade, encontram ainda mais resistência. O jovem de hoje no Brasil fica dentro de um quarto e acaba com depressão. Não quer nem sair de casa para pegar um ônibus, andar de bicleta, ele não quer mais nada.

– No Brasil existem diferentes faixas etárias disputando por vezes a mesma vaga. Como lidar com esse choque entre cultura e costumes?

Celso Sessa – No caso dos desemrpegos que são mais velhos, pessoas que tem mais dificuldade com novas tecnologias e atividades que estão surgindo agora, embora a capacitação deles seja importante, talvez o mercado deve focar no que eles apresentam como diferencial, que é a maturidade e experiência. Eles não irão encorporar tudo o que os jovens fazerm, mas apresentam habilidades diferentes do público mais novo.

Sebastião – É muito complicado mudar o comportamento de um pai de família de 50 anos. Pode ser que os profissionais mais velhos encontrem chances de se adaptar a esta realidade, mas sempre pensando em inovação, pois a tendência é que os processos repetitivos sejam automatizados. Talvez, o melhor para estas pessoas seja partir para o empreendedorismo. São poucos os que conseguem se adaptar ao mercado, pois eles nunca tiveram que ser tão competitivos. Eles acabam se concentrando nos serviços de baixa remuneração. O mercado na época deles era completamente diferente.

– Como alinhar a expectativa entre o que o mercado precisa e a mão-de-obra existente?

Celso Sessa – É a geração “nem, nem”, como chamam. Jovens que nem estudam e nem trabalham, temos uma boa quantidade de pessoas nesse limbo. Eles não enxergam no mercado formal uma saída. O mercado formal não está contratando e quando contrata geralmente a remuneração é baixa. Estes jovens preferem ficar transitando pela informalidade. E esse dilema existe justamente por falta de perspectiva. Muitas vezes, esse jovem começa a ajudar em casa, a trabalhar cedo e em ocupações com salários ruins, deixando os estudos de lado. A consequência disso é daqui a 10, 20 anos, pois continuarão em atividades de baixa remuneração e pouca complexidade. Hoje, boa parcela da população está empregada nesse tipo de atividade. Temos uma economia com estrutura setorial de baixa complexidade. As pessoas mais qualificadas tecnicamente, com qualificações bem específicas, também encontram dificuldade no Brasil e até saem do país.

Sebastião Demuner – Muito se fala em empreendedorismo. É a palavra de ordem mundial. Você usar seu talento para pagar suas contas. Cada um de nós tem seu talento. O mais importante é deixar seu brilho interno falar por si. O que percebemos nos jovens em virtude das facilidades de hoje, é que ele não tem determinação, está sem força de vontade diante deste modelo econômico mundial que se apresenta para ele. É como se ele entrasse em uma guerra e não tivesse força para lutar. Isso não é culpa do jovem. O sistema é que se apresenta assim em razão da competitividade.

– Quais as soluções em qualificação que poderiam melhorar este cenário?

Desemprego e qualificação: como encarar este desafio?
Sessa pontua que a economia brasileira possui estrutura setorial de baixa complexidade. Foto: Divulgação Corecon-ES.

Celso Sessa – São necessárias ações dos dois lados, da oferta e da demanda. É preciso reforçar as ações de qualificação dos profissionais, aumentar a oferta de cursos, ofertar bolsas de estudo para que o estudante possa se dedicar ao ensino, aperfeiçoar programas de treinamento e para estágios, e outros. Do ponto de vista da demanda, o governo deve focar suas atenções nas políticas que garantam o crescimento econômico. Se vai romper o teto de gastos, os juros estão elevados, a inflação em alta, se continuarmos com estas incertezas, o problema do desemprego no Brasil vai continuar se repetindo por anos. A inflação precisa ser controlada, porque corrói principalmente as camadas mais pobres da sociedade, empurrando as pessoas para a informalidade. Além disso, muitas vezes, é após a tomada de crédito que as empresas tomam decisões de negócios, inclusive, sobre contratações. Essa falta de estabilidade compromete justamente a nossa expectativa.

Sebastião Demuner – Por exemplo, é difícil contratar pedreiro, não se acha fácil, assim como costureira e motorista, eletricista. Portugal precisa de todo tipo de profissonal e não acha para contratar. É preciso criar cursos para determinadas profissões e capacitar os jovens. O jovem precisa entender que existe esta demanda. É uma questão mais comportamental do que técnica. Por um lado, existem empregadores, mas por outro, trabalhadores sem atitude. O jovem não quer ser pedreiro, ele não quer nada. Capacitação contínua e força interior para superar as adversidades. Precisa ter força interior para enfrentar os desafios, e isso os jovens não estão tendo. E essa educação tem que começar na família. Quando ocorreu a primeira revolução industrial, o homem deixou de ser artesão para produzir em série, o que foi uma mudança enorme para toda a sociedade. É o que estamos vivenciando hoje, porém com as coisas acontecendo muito mais rápido, em razão dos avanços tecnológicos.

*Matéria publicada originalmente em 6 de dezembro de 2021

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