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Manual de Sobrevivência para o Fim do Mundo

Manual de Sobrevivência para o Fim do Mundo

Nós seguimos tentando jantar em paz e conferindo se ainda dá para fazer planos sem precisar incluir “sobrevivência nuclear” entre academia e dentista

Por André Gomyde

Não sei se estaremos vivos quando este artigo for publicado. Mas, se estivermos, talvez valha a pena sentar, respirar fundo e admitir uma coisa desconfortável: precisamos reinventar parte da humanidade. Não toda, porque seria um projeto ambicioso demais para uma espécie que ainda discute no elevador se aperta ou não o botão do andar do outro. Mas uma boa parte, sim.

O noticiário anda com um clima de filme-catástrofe escrito por roteirista em crise. De um lado, um sujeito ameaça exterminar uma nação com a tranquilidade de quem escolhe cobertura de pizza. Do outro, um país responde dizendo que, se for exterminado, leva o resto da humanidade junto. E pronto: eis o estágio civilizatório da espécie em pleno século XXI. A grande questão agora parece ser: quem extermina primeiro?

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É curioso como chegamos até aqui. Inventamos antibiótico, satélite, microchip, marcapasso, café em cápsula e a escova elétrica que toca música. Mas continuamos organizando a convivência global com a maturidade emocional de dois meninos disputando o mesmo carrinho no tapete da sala.

Há algo de profundamente infantil na guerra moderna. Os brinquedos ficaram caríssimos, o estrago ficou planetário, mas o raciocínio segue pré-escolar: “Se não for do meu jeito, eu quebro tudo”. É o jardim de infância com ogivas.

Enquanto isso, nós, os cidadãos comuns, seguimos pagando boleto, tentando jantar em paz e conferindo se ainda dá para fazer plano para o próximo mês sem precisar incluir “sobrevivência nuclear” entre academia e dentista.

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A verdade é que talvez tenhamos terceirizado demais a nossa humanidade. Entregamos o bom senso a líderes inflamados, a algoritmos mal-humorados e a comentaristas que falam de guerra como quem comenta rodada de campeonato. E assim fomos normalizando o absurdo. Como se fosse aceitável ouvir alguém cogitar o fim de milhões de vidas e, logo depois, mudar de assunto para o preço do tomate.

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Não é aceitável.

Talvez reinventar a humanidade comece por algo muito menos grandioso do que parece. Talvez comece por reaprender a considerar o outro como alguém que merece continuar existindo. Parece pouco, mas ultimamente isso já seria revolucionário.

Talvez seja hora de trocar a lógica da ameaça pela lógica da conversa, do grito pela diplomacia, do míssil pela vergonha na cara. Porque, convenhamos, se a espécie chegou ao ponto de discutir qual dos lados extermina primeiro, talvez já estejamos atrasados até para o básico.

No fundo, o planeta não precisa de mais valentões com botão vermelho. Precisa de adultos.

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E se este artigo realmente for publicado enquanto ainda estivermos por aqui, talvez essa já seja uma boa notícia. Pequena, modesta, quase ridícula de tão básica.

Mas, nos tempos atuais, continuar vivo já anda parecendo um excelente ponto de partida.

André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

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