Termos como cringe, streaming e lockdown refletem transformações culturais, sociais e tecnológicas que a sociedade esta inserida
Por Jessica Coutinho
A língua portuguesa não para de crescer. A cada ano, novos termos são incluídos no vocabulário e dicionaristas se debruçam sobre as mudanças de uso para atualizar registros e definições. Para entender melhor esse processo, a ES Brasil conversou com a Dra. Ana Maria Ribeiro de Jesus, doutora em Letras e pesquisadora em neologia, área que analisa a renovação das línguas vivas com base em usos sociais e culturais.
Segundo ela, o dicionário é um reflexo da sociedade. “As palavras são espelhos do nosso tempo. Quando uma palavra vira verbete, é porque já faz parte da rotina de uma comunidade”, explica. A especialista lembra que as mudanças no vocabulário acontecem naturalmente, principalmente em contextos de avanço tecnológico e de transformações de comportamento.
“A língua está sempre em movimento. Ela acompanha o ritmo das inovações, das redes sociais, da cultura pop e dos debates sociais. Por isso, é comum vermos expressões como ‘cringe’, ‘pix’ e ‘lockdown’ ganhando espaço nas conversas e, depois, sendo incluídas nos dicionários.”
Entre os termos mais recentes temos:
1. Cringe: Usada para expressar vergonha alheia, a palavra se popularizou entre jovens nas redes sociais, especialmente em debates sobre diferenças entre gerações.
2. Pix: Sigla para Pagamento Instantâneo, passou a ser amplamente utilizada após a criação do sistema pelo Banco Central, substituindo expressões como “transferência” e “TED”.
3. Lockdown: Incorporada ao cotidiano durante a pandemia, o termo designa o fechamento de serviços e restrições à circulação de pessoas como forma de conter crises sanitárias.
4. Collab: Abreviação de collaboration, passou a ser usada para indicar parcerias entre marcas, artistas e influenciadores, especialmente no universo digital.
5. Ghosting: Define o comportamento de alguém que desaparece de uma relação, sem dar explicações. É comum em interações iniciadas por aplicativos de namoro.
6. Emoji: Imagens ou símbolos usados para expressar emoções e ideias em mensagens digitais. Os emojis se tornaram parte essencial da comunicação online.
7. Streaming: Forma de transmissão de conteúdo pela internet, como filmes, músicas e séries, que revolucionou os hábitos de consumo audiovisual.
8. Influencer: Pessoa com grande presença digital e capacidade de influenciar comportamentos e decisões de consumo de seus seguidores.
Algumas dessas expressões já eram usadas informalmente, mas só foram reconhecidas como parte do léxico padrão após ampliarem sua presença nos meios de comunicação e nas redes sociais.
Para a Dra. Ana Maria, o critério principal para a entrada de um termo nos dicionários é seu uso recorrente em diferentes contextos. “Não basta ser uma moda passageira. Os lexicógrafos analisam a frequência e a abrangência do uso, além da clareza do significado.”
Sobre as críticas à entrada de palavras consideradas “erradas” ou “desnecessárias”, a especialista é categórica: “Não existem palavras erradas, existem contextos diferentes. A língua é viva e se adapta às necessidades de quem a utiliza. O preconceito linguístico muitas vezes ignora esse dinamismo e tenta cristalizar a linguagem, o que vai contra sua natureza.”
A evolução da língua, segundo a neologia, não é uma ameaça à norma culta, mas uma demonstração de sua vitalidade. “Quando reconhecemos a diversidade linguística, fortalecemos a comunicação e ampliamos nossa capacidade de entender o mundo”, conclui.

