
A Inteligência Artificial comete erros simples que qualquer pessoa identifica imediatamente
Por Luciano Raizer
A cultura popular moldou uma visão quase mítica da inteligência artificial (IA), diria até “hollywoodiana”. No cinema, a tecnologia ganha forma humana e ameaçadora. No clássico filme “2001: Uma Odisseia no Espaço”, o supercomputador HAL 9000 controla a nave e coloca a tripulação em risco, agindo como uma entidade superior. No entanto, no momento decisivo, é um humano que o desativa.
Em “Eu, Robô”, a narrativa se repete com máquinas que desafiam seus criadores e ameaçam a própria humanidade. Essas histórias reforçam a ideia de uma IA onipotente, capaz de subjugar pessoas.
A realidade está muito distante desse enredo. O que chamamos hoje de IA são sistemas computacionais que aprendem com dados e executam tarefas específicas com alto desempenho. Mesmo assim, o fascínio se intensificou com o crescimento da IA generativa, essa usada pelo ChatGPT. Ela escreve textos com qualidade surpreendente, realiza análises complexas em segundos, cria imagens que impressionam e até produz música. Essa evolução gerou a sensação de que a tecnologia alcançou um patamar extraordinário.
Apesar disso, seu funcionamento está repleto de limites. A IA comete erros simples que qualquer pessoa identifica imediatamente. Pode “inventar” informações, apresentar respostas ilógicas e tomar decisões problemáticas quando os dados são incompletos ou enviesados. Não compreende a realidade de forma contextual ou emocional, faltando ética, empatia, imaginação e propósito. Sua inteligência é instrumental, não existencial.
No ambiente corporativo, essa distinção se torna evidente. Algoritmos podem identificar padrões, prever comportamentos e otimizar processos, porém não substituem o julgamento humano em decisões estratégicas. A IA projeta aquilo que parece provável, mas não cria o que ainda não tem referência. Quem desafia o status quo, assume riscos e imagina o que não existe são as pessoas. Sem curiosidade, ousadia e visão, não há inovação genuína.
A inteligência humana define valores, prioridades e impacto social. A artificial acelera cálculos, amplia capacidades e reduz incertezas operacionais. O que gera vantagem competitiva é a complementaridade entre ambas.
Empresas que buscam apenas tecnologia encontram automatização sem propósito. Empresas que valorizam apenas pessoas perdem eficiência e capacidade de leitura do mundo.
Esse equilíbrio define o conceito de inteligência exponencial. Trata-se da combinação virtuosa entre a criatividade humana e o poder analítico das máquinas. É a soma das inteligências humana e artificial. Com ela, os trabalhadores tornam-se mais produtivos, dedicando-se às atividades de maior valor agregado, enquanto tarefas repetitivas, enfadonhas ou de risco podem ser automatizadas. O trabalhador não desaparece, ele se fortalece.
A tecnologia assume o que limita e desgasta, e as pessoas concentrarão sua energia no que realmente transforma: pensar, criar, decidir e liderar. A consequência dessa integração é um salto exponencial de produtividade organizacional, com benefícios sociais amplos. Ganha a empresa, que se torna mais competitiva. Ganha o profissional, que se torna mais realizado. Ganha a sociedade, que avança com inovação, dignidade e propósito.
Luciano Raizer é professor doutor da Ufes, coordenador do ConneCT Ufes, presidente da Fundação Espírito-santense de Tecnologia (Fest) e diretor da ACT!ON
Esse artigo é uma republicação da Edição 231 da Revista ES Brasil – Retrospectiva 2025 – Leia aqui

