Reciclagem avançada, bioeconomia e IoT ajudam a transformar resíduos em receita, mas custos ainda limitam a adesão de empresas à essas tecnologias
Por Letícia Arcanjo
A economia circular vem ganhando espaço como alternativa ao modelo tradicional de produção e consumo, baseado na extração, uso e descarte de recursos. Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostram que seis em cada dez empresas brasileiras já adotam pelo menos uma prática relacionada à economia circular.
Segundo o Governo Federal, esse modelo propõe a gestão eficiente de recursos finitos, buscando recuperar o valor dos materiais e reduzir o desperdício ao longo de toda a cadeia produtiva. O objetivo é manter produtos, componentes e matérias-primas em circulação pelo maior tempo possível.
Para o doutor e professor de economia na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Ednilson Felipe, a economia circular vive uma segunda fase de desenvolvimento, marcada pelo uso de tecnologias mais avançadas e pela transformação dos resíduos em ativos econômicos. “Tratar o resíduo deixou de ser uma questão de despesa para se tornar uma oportunidade de ganho, porque ele pode gerar novos produtos e novas fontes de receita para as empresas”, destaca.
O especialista afirma que algumas empresas capixabas já começaram a adotar esse modelo mais avançado, que alia reaproveitamento de materiais e geração de valor. No entanto, o principal desafio ainda está entre as pequenas e médias empresas.
“O investimento inicial nessas tecnologias ainda é elevado. Além disso, muitas pequenas e médias empresas operam com margens apertadas e enfrentam dificuldades para absorver esses custos”, explica.
Outro obstáculo é a baixa valorização desses produtos pelo consumidor, segundo o professor, ainda são poucos os consumidores dispostos a pagar mais por itens produzidos dentro dos princípios da economia circular, mesmo quando oferecem benefícios ambientais e sociais.

O cenário é reforçado por levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Apesar de 72% dos brasileiros avaliarem positivamente empresas que investem em sustentabilidade, a pesquisa mostra que ainda existe resistência ao consumo de produtos reciclados e à adoção de práticas mais circulares no dia a dia.
Nesse contexto, as chamadas Clean Technologies, consideradas uma evolução da economia circular por incorporarem inovação e maior geração de valor, ainda enfrentam barreiras para sua popularização. “Essas tecnologias exigem investimento, aprendizado e desenvolvimento. O grande desafio hoje é torná-las mais acessíveis e economicamente viáveis para um número maior de empresas”, conclui.
Conheça quatro tecnologias que impulsionam a economia circular
1. Reciclagem com agregação de valor: nesse modelo, materiais que antes seriam descartados retornam ao ciclo produtivo como novos insumos, reduzindo custos com matéria-prima e criando novas fontes de receita para as empresas.
2. Rastreabilidade de produtos: a rastreabilidade permite acompanhar o caminho percorrido por um produto ou material desde sua fabricação até seu retorno à indústria após o consumo.
3. Bioeconomia: ela representa uma etapa mais avançada da economia circular. Nesse modelo, as próprias empresas produzem insumos biológicos que serão utilizados em seus processos produtivos.
4. Internet das Coisas (IoT): sensores e dispositivos conectados permitem monitorar produtos durante todo o seu ciclo de vida. Além de fornecer informações sobre uso, manutenção e desempenho, a tecnologia facilita a rastreabilidade e amplia a capacidade de reaproveitamento dos materiais.

