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Geração de energia permanece entre os pilares da economia capixaba

Espírito Santo é o 2º maior produtor de petróleo do Brasil e o 5º em gás natural, consolidando sua importância no mapa energético nacional

Por Ludmila Azevedo

O desenvolvimento socio-econômico do Espírito Santo se entrelaça com a trajetória de sua configuração energética. Desde os primeiros empreendimentos hidrelétricos, que garantiram a eletrificação local, até a perfuração do primeiro poço de petróleo em 1959, o estado vem ampliando sua relevância nacional no setor. Hoje, com uma carteira robusta de investimentos em petróleo, gás natural, energia solar, biometano e eficiência energética, o Espírito Santo reforça seu papel estratégico na transição energética e no fortalecimento da matriz nacional.

Hoje, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o Espírito Santo ocupa a posição de segundo maior produtor de petróleo e quinto maior produtor de gás natural do país. Esse desempenho reflete não apenas a relevância econômica do setor, mas sua função estruturante para a indústria capixaba.

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A gerente-executiva do Observatório da Indústria e economista-chefe da Findes,, Marília Silva, relata que, nas últimas décadas, o setor de energia capixaba também vem diversificando sua matriz, avançando em fontes renováveis, como a solar e a biomassa.

“Esse movimento ampliou a relevância do setor no desenvolvimento sustentável do estado.

Dessa forma, o setor de energia reúne importância histórica, por ter sustentado as bases do desenvolvimento do Espírito Santo, e protagonismo atual, ao se consolidar como motor de geração de riqueza, inovação e transição para uma economia mais sustentável”.

Seja no petróleo e gás, que continuam na base das fontes de energia locais, seja nas novas fronteiras abertas pela transição energética, o estado demonstra capacidade de adaptação e visão estratégica.

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O Instituto Jones dos Santos Neves apurou que, em 2015, a atividade de extração de petróleo e gás (incluindo atividades de apoio) chegou a representar 10,7% do valor adicionado do Espírito Santo. Em 2020, esse valor adicionado já caiu para 5,8%.

Marília aponta que isso acontece porque as fontes não renováveis (justamente o petróleo e o gás natural) estão, gradualmente, perdendo participação na matriz energética do Espírito Santo. “A participação registrada em 2023 foi a menor na última década, reflexo do aumento da oferta de fontes renováveis como a eletricidade importada e a energia hidráulica”, completou.

Os dados a que ela se refere são os seguintes: em 2023, 75,8% da matriz do Estado era composta por energia não renovável, com destaque para o petróleo e seus derivados (21,2%). Já as fontes renováveis completaram os demais 24,2% da matriz, sendo compostas por: lixívia (9,6%), eletricidade importada (7,2%), derivados de cana-de-açúcar (4,1%), energia hidráulica (1,8%), solar/eólica/biogás/outros renováveis (0,9%) e lenha e carvão vegetal (0,6%).

Falando de um cenário nacional, a matriz energética do Brasil no mesmo período já apresentava um equilíbrio maior, sendo composta por 50,2% de fontes não renováveis e 49,8% de fontes renováveis.

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Geração de energia permanece entre os pilares da economia capixaba
Navio de exploração no Parque das Baleias, na Bacia de Campos, Espírito Santo – Foto: Divulgação / PAC

Cadeia de petróleo e gás impulsiona empregos e arrecadação no ES

Ainda de acordo com as informações mais recentes da Findes, que consideram o ano-base de 2023, a indústria de petróleo e gás natural do Espírito Santo foi responsável por 1,4% do total de empregos do estado. “Foram 15.008 trabalhadores empregados na cadeia em 2023, 1,4% do total de empregos do estado.

Já em nível nacional, essas atividades foram responsáveis por 503.897 vínculos formais, sendo a cadeia de petróleo e gás capixaba responsável por 3% dessa parcela de trabalhadores”, acrescentou Nathan Diir, gerente de Ambiente de Negócios do Observatório Findes.

Apesar da relevância econômica atual — especialmente em geração de empregos — a participação da cadeia de petróleo e gás na matriz energética está em declínio. Esse movimento, no entanto, é lento e gradual. Segundo o professor Alexandre Szklo, da Coppe/UFRJ, uma queda mais acentuada só deve acontecer após 2035. “O Brasil pode atingir seu pico de produção por volta de 2035, com cerca de 4,5 milhões de barris de óleo equivalente por dia, somando petróleo e gás natural. Se a exploração da Margem Equatorial for bem-sucedida, esse declínio pode nem ocorrer”, explica. Assim, a urgência da transição energética está mais ligada à pressão ambiental do que à escassez iminente de fontes fósseis.

Em questão de oportunidades de trabalho, o setor ainda está aquecido, especialmente para fornecedores. “Desses 15.008 empregados no Estado, 66,8% estavam vinculados ao elo da Cadeia Fornecedora e 24,1% atuavam em Exploração e Produção, que juntos somaram 90,9% dos vínculos empregatícios gerados por essa indústria no Espírito Santo em 2023. O elo de Abastecimento foi responsável por 6,4% dos vínculos, seguido pelo de Derivados de Petróleo (1,7%) e pelo de Petroquímicos (1,1%)”, informou Nathan Diir.

Outro ponto positivo das fontes não renováveis para a economia capixaba é a arrecadação de royalties e participações especiais destinados ao estado e aos municípios. Em 2024, o Espírito Santo recebeu R$ 2,6 bilhões em participações governamentais — um aumento de 10,4% em relação ao ano anterior. Desse total, R$ 1,57 bilhão vieram de royalties de petróleo (alta de 3,7%) e R$ 1,03 bilhão de participações especiais (alta de 22,4%). Como os royalties representam uma fatia maior do montante, o crescimento total (10.4%) reflete uma média ponderada entre os dois componentes — e não a soma direta dos percentuais individuais.

A Findes destacou que essa foi a terceira maior arrecadação de participações governamentais entre os estados, atrás apenas do Rio de Janeiro (R$ 43,6 bilhões) e de São Paulo (R$ 3,8 bilhões). Do total recebido pelo Espírito Santo, R$ 1,53 bilhão foram destinados ao governo estadual (avanço de 14,2% em relação a 2023) e R$ 1,08 bilhão aos municípios capixabas (crescimento de 5,5% frente ao ano anterior). Esses valores correspondem à forma como os recursos foram distribuídos entre os entes locais, e não devem ser confundidos com os valores e percentuais apresentados anteriormente para os tipos de receita — royalties e participações especiais.

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Combinação de esforços para diversificar matriz energética

O Espírito Santo vem se preparando de forma consistente para o desafio da transição energética. A base ainda está no petróleo e no gás natural, que garantem relevância nacional ao estado, mas o futuro aponta para uma matriz mais limpa, diversificada e inovadora.

Em 2022, o governo estadual lançou o Plano de Descarbonização e Neutralização das Emissões de GEE, com metas até 2050 alinhadas à Race to Zero da ONU. A iniciativa mobiliza universidades, institutos de pesquisa e órgãos públicos e conta com a participação ativa da Findes em todos os grupos temáticos.

“O Espírito Santo está criando um ecossistema robusto para apoiar a transição energética, capaz de articular academia, governo e empresas em torno de metas claras de neutralidade de carbono”, enfatizou o representante do Observatório da Findes.

Essa visão de futuro também está presente na Rota Estratégica para o Futuro da Indústria do ES: Energia 2035, lançada pela Findes em 2023, que definiu 275 ações prioritárias para curto, médio e longo prazo. Destas, 102 (37,1%) estão voltadas para energias renováveis.

“Isso mostra o peso que a diversificação da matriz energética terá no desenvolvimento econômico e industrial capixaba”, reforçou Nathan Diir.

Além disso, iniciativas recentes confirmam o Espírito Santo como polo de inovação em baixo carbono. Em abril de 2025, o Fórum Capixaba de Petróleo, Gás e Energia apresentou o programa ES Carbono Neutro: Incentivo a Projetos de CCS, voltado à captura, transporte e armazenamento de carbono. Trata-se de aproveitar a infraestrutura já existente em petróleo e gás para transformar o estado em referência nacional em tecnologias de baixo carbono. “Temos condições únicas para isso: uma infraestrutura já consolidada no setor de petróleo e gás, uma posição logística estratégica e políticas públicas que priorizam inovação e sustentabilidade. Essa combinação nos coloca em vantagem competitiva e cria um ambiente favorável para atrair investimentos”, destacou o secretário de Estado de Desenvolvimento, Rogério Salume, sobre a iniciativa.

A geração distribuída também desponta como vetor estratégico. Em 2024, a indústria capixaba foi responsável por 5,04% da GD solar estadual, com destaque para Pancas, que concentrou 17,24% dessa produção industrial em apenas três empresas locais. Programas como o GERAR, que concede isenção de ICMS para consumidores que adotam energia solar, vêm acelerando essa mudança.

Geração de energia permanece entre os pilares da economia capixaba
O professor Ednilson Felipe, da Ufes, defende a necessidade de políticas públicas para a pesquisa e desenvolvimento de novas soluções energéticas, como o hidrogênio verde – Foto: Jerry Apolinário / Next Editorial

Na avaliação do professor Ednilson Felipe, do Departamento de Economia da Ufes, a transição energética é um processo multifacetado, que nunca poderá estar dissociado da questão central da segurança energética. Durante o evento “Transição Energética e Sustentabilidade”, do Centro Capixaba de Desenvolvimento Metalmecânico (CDMEC), que aconteceu em setembro, Ednilson defendeu o fortalecimento da rede de pesquisa e desenvolvimento tecnológico, com políticas específicas para o hidrogênio verde e clareza regulatória. “O hidrogênio deve ser reconhecido como uma indústria nascente, condição fundamental para a criação de políticas públicas e instrumentos financeiros que sustentem sua maturação e competitividade global”, complementou.

O território do Espírito Santo conta com duas bacias sedimentares produtoras de petróleo e gás natural, como demonstra o mapa: a Bacia do Espírito Santo, ao norte, com atividades exploratórias na terra e no mar; e a Bacia de Campos, ao sul.

Esta última inclui áreas do pré-sal, com campos e blocos marítimos em confrontação com o território capixaba.

No final de 2024, ainda de acordo com o relatório da Findes, o Espírito Santo tinha 39 campos produtores de petróleo e gás natural e 354 poços em operação. A maior parte dos hidrocarbonetos extraídos vinham de áreas marítimas, representando 95% da produção de petróleo e 97% da produção de gás natural. Assim, a evolução da extração offshore determina o volume total produzido no estado, uma tendência que deve permanecer nos próximos anos.

A maior parte (95,8%) da produção de petróleo onshore no estado se concentrou em dez campos produtores, na região que integra o chamado Polo Norte Capixaba: Fazenda Alegre (37,7%), Cancã (14,8%), Fazenda São Rafael (9,8%), Inhambu (7,7%), Fazenda Santa Luzia (6,8%), Jacutinga (4,1%), Lagoa Parda (4,1%), São Mateus Leste (4,1%), Fazenda São Jorge (3,2%), Fazenda Cedro (1,9%) e Irara (1,6%).

Já a produção de gás natural onshore no Espírito Santo, por sua vez, esteve concentrada em cinco campos na mesma região, responsáveis por 90,9% do volume total extraído em terra em 2024. O campo de São Mateus Leste foi o que mais produziu, representando 48% do volume onshore no estado, seguido por Fazenda Alegre (14,5%), Fazenda Santa Luzia (14,2%), Lagoa Parda (8%) e Fazenda São Rafael (6,3%).

*Matéria publicada originalmente na revista ES Brasil 229, de novembro de 2025. Leia a edição completa de Energia aqui.

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