O Natal é um bom momento para refletir. Não sobre o modelo mais novo de smartphone, mas sobre como podemos usar o que temos para diminuir distâncias
Por André Gomyde*
No início, havia o verbo. Depois, veio o Wi-Fi. E com ele, a promessa de um mundo mais conectado, onde as distâncias seriam encurtadas e as oportunidades, democratizadas. Mas, na prática, a história não foi tão simples. A tecnologia, que deveria nos unir, acabou escancarando ainda mais as desigualdades. Quem tem acesso navega no mundo, compra em cliques, aprende em tempo real. Quem não tem, fica à margem, olhando a vitrine digital como quem contempla uma loja fechada no dia 25 de dezembro.
É irônico, não é? No Natal, celebramos o nascimento daquele que, na manjedoura, já desafiava as hierarquias e desigualdades de seu tempo. O menino Jesus, que nasceu entre os humildes, cresceu para pregar o amor ao próximo e a partilha. Hoje, em um mundo regido por algoritmos e telas, a mensagem continua a mesma, mas com um novo apelo: é preciso dividir não só o pão, mas também o acesso, o conhecimento e as ferramentas tecnológicas.
Vivemos em cidades fragmentadas, onde cada pedaço parece ser regido por suas próprias leis e prioridades. O que falta é integração. As “ilhas de gestão” — cada uma cuidando de si, sem diálogo com as demais — criam mais barreiras do que pontes. Isso sem falar no letramento digital, a habilidade de navegar no vasto oceano tecnológico. Não basta oferecer conexão; é preciso ensinar a usar a bússola.
Imagine uma cidade onde a tecnologia seja para todos. Onde o transporte público seja planejado com base em dados acessíveis e integrados. Onde a saúde seja otimizada por aplicativos simples e acessíveis. Onde o aluno da periferia aprenda programação no mesmo nível do colega do bairro nobre. Para isso, precisamos de gestores que conversem entre si, que compartilhem dados e ideias, e de um compromisso coletivo com a educação digital.
O Natal é um bom momento para refletir. Não sobre o modelo mais novo de smartphone ou o fone de ouvido que cancela até os barulhos do coração, mas sobre como podemos usar o que temos para diminuir distâncias. Afinal, a essência do Natal está na empatia. É lembrar que o menino na manjedoura veio para nos mostrar que ninguém deve ficar de fora — nem na ceia, nem na vida, nem na rede.
Que o espírito de integração e partilha inspire não só nossos gestores, mas cada um de nós. Que em 2025, estejamos mais conectados, não apenas por cabos e redes, mas por valores e ações que diminuam as desigualdades.
Feliz Natal a todos os meus leitores. E que o próximo ano seja menos “offline” para quem ainda está à margem.
*André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

