O dia mundial sem carro escancara a urgência de repensar a mobilidade urbana como questão ambiental, social e de qualidade de vida

Por Luiz Fernando Schettino
No dia 22 de setembro, o mundo celebrou o Dia Mundial Sem Carro — uma data que vai muito além de deixar o veículo na garagem. É um chamado coletivo para repensar como nos movemos pelas cidades, como ocupamos os espaços públicos e como nossas escolhas impactam o meio ambiente e a qualidade de vida. Na Grande Vitória, esse debate ganha contornos urgentes diante dos desafios enfrentados diariamente por quem depende do transporte público ou encara congestionamentos constantes.
Criado na França em 1997, como resposta à crise do petróleo e à crescente insatisfação com os impactos do automóvel nas cidades, o movimento rapidamente se espalhou pela Europa e pelo mundo. Em 2000, mais de 740 cidades europeias já participavam da iniciativa, que passou a integrar a Semana Europeia da Mobilidade. No Brasil, o Dia Mundial Sem Carro começou a ser celebrado em 2001, impulsionado por grupos ambientalistas e cicloativistas.
Desde então, a data se consolidou como uma oportunidade de reflexão sobre mobilidade urbana, saúde pública e sustentabilidade. Em um país onde o setor de transportes é um dos maiores emissores de CO₂, repensar o modelo rodoviarista é mais do que necessário — é vital.
A mobilidade urbana é, de fato, um dos grandes desafios das cidades contemporâneas. Com o crescimento populacional e a expansão desordenada dos centros urbanos, pensar em soluções que tornem os deslocamentos mais eficientes, sustentáveis e inclusivos é uma necessidade urgente. Mais do que apenas transportar pessoas, a mobilidade deve ser vista como um vetor de qualidade de vida, desenvolvimento econômico e justiça social.
Um exemplo emblemático é a Ciclovia da Vida, que conecta Vitória a Vila Velha pela Terceira Ponte. Com mais de 3,5 km de extensão, essa estrutura exclusiva para ciclistas não apenas promove o transporte sustentável, mas também atua como uma importante barreira de proteção contra suicídios, reforçando seu valor simbólico e funcional para a sociedade capixaba.
Além disso, a expansão dos sistemas de bicicletas compartilhadas na Grande Vitória tem sido um passo importante rumo à democratização do transporte. Cidades como Vila Velha, Serra e Cariacica, além da própria capital, contam com dezenas de estações integradas, operando diariamente e permitindo deslocamentos mais limpos e acessíveis. A adesão crescente a esses modais reforça a necessidade de políticas públicas que ampliem a infraestrutura cicloviária e integrem diferentes formas de transporte.
Outro fator que vem impactando positivamente a mobilidade urbana é o avanço do trabalho remoto e híbrido. Empresas que adotaram esse modelo observaram aumento de produtividade, redução de custos e melhora na saúde mental dos colaboradores. Ao diminuir a necessidade de deslocamentos diários, o trabalho remoto contribui diretamente para a redução de congestionamentos e emissões de carbono.
Para que a mobilidade urbana seja realmente eficiente, é fundamental também repensar os horários de funcionamento de setores de serviços, como comércio, educação e administração pública. Estudos técnicos podem ajudar a escalonar esses horários, ampliando os períodos de pico e distribuindo melhor o fluxo de veículos ao longo do dia. Essa medida tem o potencial de reduzir engarrafamentos, otimizar o uso da infraestrutura viária e tornar a cidade mais fluida e funcional.
O planejamento urbano também tem papel central. Integrar transporte com uso do solo, promover adensamento inteligente e criar zonas de baixa emissão são estratégias que tornam as cidades mais acessíveis e humanas. O governo do Espírito Santo já apresentou ao BNDES um pacote com 34,8 km de VLT, 18,3 km de monotrilho e estudos de viabilidade econômica e ambiental — sinalizando que há vontade política para avançar.
Mais do que infraestrutura, é preciso promover uma mudança de comportamento. O Dia Mundial Sem Carro não é contra quem tem carro — é a favor de quem quer viver em cidades mais saudáveis, seguras e democráticas. A pergunta que fica é: você conseguiria passar um dia sem carro? E uma semana?
Talvez o primeiro passo seja simples: caminhar até a padaria, usar a bike no fim de semana, testar o ônibus. A cidade muda quando a gente muda. E a Grande Vitória tem tudo para ser referência em mobilidade urbana sustentável — basta querer.
A mobilidade urbana não é apenas uma questão de engenharia ou logística. É, acima de tudo, uma questão de visão de futuro. Cidades que priorizam o bem-estar de seus cidadãos, que investem em soluções sustentáveis e que promovem a inclusão são cidades que se preparam para os desafios do século XXI. E é nesse caminho que devemos seguir.
Luiz Fernando Schettino é engenheiro florestal, mestre e doutor em Ciência Florestal, advogado, escritor, professor titular de Ecologia e Recursos Naturais da Ufes -1992 a 2021.

