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Ondas de Calor e o Futuro Antecipado pelo Clima

Ondas de Calor e o Futuro Antecipado pelo Clima

Europa sofre ondas de calor recordes acima de 40°C em 2026, afetando saúde pública, energia e agricultura no continente europeu

Por Luiz Fernando Schettino

Em novembro de 1987, na Revista Agora, publiquei o artigo “É preciso mudar os rumos”, no qual já alertava para os riscos do progresso desmedido, da poluição, da perda de biodiversidade pelo desmatamento, do efeito estufa em face das emissões de CO2 e de outros gases. Naquele momento, enfatizei que a sobrevivência da humanidade dependia de uma mudança radical de atitudes em relação à natureza e à gestão dos recursos. Hoje, quase quatro décadas depois, o mundo confirma a urgência dessas advertências.  

Em junho de 2026, a Europa enfrenta uma das mais intensas ondas de calor de sua história recente, resultado do chamado bloqueio ômega, uma configuração atmosférica em que uma área de alta pressão fica “presa” entre duas zonas de baixa pressão, impedindo o avanço de frentes frias e mantendo o ar quente estacionado por dias ou semanas. O continente transformou-se em uma estufa: França, Espanha, Itália e Alemanha registram temperaturas superiores a 40 °C, enquanto as chamadas “noites tropicais”, com mínimas acima de 25 °C, tornaram-se rotina.  

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Os impactos são devastadores: riscos crescentes de desidratação e falência orgânica, redes elétricas sobrecarregadas, usinas nucleares reduzindo produção por falta de água fria para resfriamento, colheitas comprometidas pela seca e o turismo em colapso. Museus e pontos históricos limitam horários, e cidades como Paris e Roma emitem alertas para que moradores e visitantes “abandonem a rotina”.  

O bloqueio ômega não é apenas um evento meteorológico, mas um sinal inequívoco da aceleração das mudanças climáticas. Como já afirmei em 1987, “o progresso sem limites cobra seu preço em desequilíbrios ambientais”. Hoje, a ciência confirma que o aquecimento global intensifica esses padrões, tornando-os mais frequentes e duradouros.  

O climatologista Carlos Nobre reforça: “Estamos vivendo uma era em que extremos climáticos deixam de ser exceções e passam a ser a nova normalidade. O Brasil e o mundo precisam se preparar para eventos cada vez mais intensos e disruptivos.”

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Na mesma linha, José Marengo, pesquisador do INPE, alerta: “O aquecimento global não é apenas uma projeção futura. Ele já está acontecendo, e seus efeitos se manifestam em ondas de calor, secas prolongadas e chuvas extremas. A adaptação precisa ser imediata.”  

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Do lado europeu, o climatologista francês Jean Jouzel, ex-vice-presidente do IPCC, acrescenta: “A Europa é hoje um laboratório vivo das mudanças climáticas. O que vemos nas ondas de calor atuais é apenas um prenúncio do que se tornará rotina se não houver uma redução drástica das emissões de gases de efeito estufa.”  

Mas a ciência, por si só, não basta. É imperativo que sociedade, empresários e governantes assumam responsabilidades conjuntas. A transição energética e a proteção ambiental exigem investimentos, inovação e políticas públicas robustas, mas também solidariedade. É preciso dar prioridade aos mais vulneráveis, como idosos, crianças, trabalhadores expostos ao calor extremo e comunidades pobres, que sofrem de forma desproporcional os impactos das crises climáticas.  

Nesse esforço, os municípios têm papel central. São eles que lidam diretamente com os efeitos locais das mudanças climáticas e que podem implementar medidas de adaptação mais rápidas e eficazes. Planos de arborização urbana, sistemas de alerta para ondas de calor, infraestrutura verde e políticas de saúde preventiva precisam ser fortalecidos no nível municipal, onde a proximidade com a população permite respostas mais ágeis e concretas.  

Os Estados também devem assumir protagonismo na coordenação de políticas regionais, integrando municípios e articulando ações com o governo federal. O Espírito Santo, por exemplo, já se destaca na agenda ambiental e climática ao adotar programas de conservação florestal, gestão de recursos hídricos e iniciativas de transição energética que servem de referência nacional. Essa liderança mostra que é possível alinhar desenvolvimento econômico com responsabilidade socioambiental, criando modelos replicáveis para outras regiões.  

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A construção de resiliência passa por5 cidades adaptadas, sistemas de saúde preparados, agricultura sustentável e empresas comprometidas com metas reais de descarbonização. Governos nacionais devem liderar, mas não podem agir sozinhos. O setor privado, a sociedade civil, os municípios e os Estados precisam se unir em busca de soluções que transcendam fronteiras e interesses imediatos.  

A Europa, neste momento, não apenas5 enfrenta o calor: ela enfrenta hoje o futuro. E esse futuro já havia sido anunciado em 1987, quando defendi que sem respeito à natureza não haveria qualidade de vida. Agora, cabe a todos nós, cidadãos, líderes e instituições, transformar esse alerta em ação.  

Prof. Luiz Fernando Schettino é Engenheiro Florestal, Mestre e Doutor em Ciência Florestal, Advogado, Escritor Ambientalista e ex-Secretário Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Espírito Santo

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