Espírito Santo se destaca como polo estratégico na produção de hidrogênio verde e transição energética
Por Amanda Amaral
O Espírito Santo desponta como polo estratégico na transformação digital do setor energético. Inteligência artificial, redes inteligentes, sensores, blockchain e hidrogênio verde compõem um ecossistema em expansão, impulsionado por startups, universidades e hubs de inovação.
A digitalização das redes elétricas e o uso de IA têm revolucionado a gestão energética. “Sistemas inteligentes reconhecem padrões e se reconfiguram automaticamente, sem reprogramação manual, aumentando a eficiência dos processos industriais”, explica Luciano Raizer, professor da Ufes.
Ele destaca, porém, que servidores em nuvem e o processamento de dados exigem alto consumo energético, o que torna urgente o uso de fontes limpas.
Em paralelo a isso, setores de uso intensivo de energia, como siderurgia, cimento e indústria química (os chamados hard-to-abate), enfrentam maior dificuldade na descarbonização, por dependerem fortemente de combustíveis fósseis. Raizer aponta como alternativa promissora o hidrogênio verde, produzido a partir da quebra da molécula de água com uso de energia limpa. “Esse é um caminho que está se estudando”, afirma.
O Espírito Santo aparece na Plataforma Interativa de Descarbonização (PID), criada pelo Instituto E+ e pela Universidade Johns Hopkins, ao lado de Ceará, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, como estado promissor para a produção do hidrogênio verde. A ferramenta visa a orientar investidores e, em breve, incluíra mais fontes de energia e mais tipos de indústrias.
“O estado possui indústrias de diferentes segmentos – como aço, alimentação e fertilizantes – cujas atividades podem ser descarbonizadas com hidrogênio verde. A proximidade com portos facilita o escoamento de insumos verdes”, afirma Mariana Almeida, especialista em Transição Energética do Instituto E+.
O Espírito Santo conta com o Plano de Descarbonização, que prevê reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 27% até 2030 e alcançar a neutralidade de carbono em 2050. O plano aponta o hidrogênio verde como combustível neutro em carbono, pois sua produção pode ser associada à captura de CO2, reduzindo emissões.
Além disso, o estado apresenta grande potencial eólico offshore e possui iniciativas como o Programa GERAR (Geração de Energias Renováveis), com o qual estimula ações voltadas à ampliação do acesso à energia limpa.
No entanto, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) alerta que políticas públicas federais, como o Programa de Desenvolvimento de Hidrogênio de Baixo Carbono, o fortalecimento do mercado de crédito de carbono e a estruturação de contratos de longo prazo serão determinantes para garantir um ambiente propício aos investimentos no setor.
Integração institucional na base da evolução
O ambiente de inovação também avança em território capixaba. “Startups como a Seven Science, nascida na Ufes, desenvolvem soluções de monitoramento de falhas em redes elétricas com tecnologia de rádio transmissão e IA, já testadas pela EDP”, afirma Iramir Natal Pinheiro Junior, gerente de Inovação e Tecnologia do Senai ES.
O FindesLab, principal hub de inovação industrial do estado, criado pela Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) em parceria com o Senai, já mobilizou R$ 6 milhões em recursos e promoveu conexões com empresas como EDP e Shell. Segundo Iramir, as estratégias prioritárias para os próximos cinco anos incluem hidrogênio verde, armazenamento de energia, redes inteligentes, mobilidade elétrica, geração distribuída, descarbonização industrial e blockchain para rastreabilidade.

Maria José Pontes, coordenadora do Lab Tel da Ufes (um centro de pesquisa vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica da Universidade Federal do spírito Santo), observa que o ecossistema capixaba está se consolidando a partir das articulações entre poder público, academia, indústrias e startups. “Essa integração tem gerado projetos mais consistentes e promissores, especialmente na busca por soluções sustentáveis”, comenta.
Segundo Maria José, houve crescimento no número de empresas e startups que desenvolvem soluções para eficiência energética. “Elas criam softwares e sensores para monitorar e reduzir consumo, além de serviços de engenharia elétrica e instalação de sistemas solares. Algumas nasceram de parcerias com universidades como a Ufes e já integram cadeias produtivas importantes, como a de energia fotovoltaica”, explica.
Com políticas públicas, inovação tecnológica e articulação entre os setores, o Espírito Santo avança como referência nacional na revolução digital da energia.
*Matéria publicada originalmente na revista ES Brasil 229, de novembro de 2025. Leia a edição completa de Energia aqui.

