Pesquisa mostra que a maioria das organizações ainda está nos estágios iniciais de adoção da inteligência artificial e enfrenta dificuldades para obter resultados concretos
Por Nathanael Rodor
A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante e passou a integrar a rotina de empresas de diferentes setores. No entanto, transformar a tecnologia em ganhos reais de produtividade, eficiência e inovação ainda é um desafio. Levantamento da TOTVS, em parceria com a h2r insights & trends, mostra que metade das empresas brasileiras ainda utiliza IA sem uma estratégia estruturada. Entre aquelas que já adotaram a tecnologia, 58% estão nos estágios iniciais de implementação e apenas 8% consideram ter alcançado um nível avançado de maturidade.
Um dos principais obstáculos está longe dos algoritmos sofisticados que costumam dominar o debate público. Na prática, especialistas apontam que a falta de integração entre sistemas e a fragmentação dos dados comprometem a capacidade das ferramentas de inteligência artificial de gerar respostas confiáveis e apoiar a tomada de decisão nas organizações.
Para Pollyana Rosa, diretora de Inovação do Base27 e especialista em inteligência artificial, muitas empresas ainda tratam a IA apenas como uma tecnologia, quando deveriam enxergá-la como uma ferramenta de transformação dos negócios. “Vejo organizações investindo em ferramentas, licenças e treinamentos sem clareza sobre qual problema querem resolver. A IA não cria valor sozinha. Ela potencializa processos, pessoas e decisões. Se o processo é ruim ou desorganizado, a IA apenas acelera a bagunça”, afirma.
Segundo a especialista, as organizações mais maduras diferenciam-se justamente por incorporar a inteligência artificial à estratégia corporativa. “Enquanto algumas ainda discutem qual ferramenta utilizar, outras já estão redesenhando processos e criando fluxos em que agentes de IA executam atividades completas, conectando dados, sistemas e pessoas. O ganho não está apenas em fazer tarefas mais rápido, mas em repensar a forma como a empresa gera valor”, destaca.
Esse desafio foi enfrentado recentemente pela portuguesa Fluid HR, empresa especializada em recrutamento e seleção que utiliza inteligência artificial em diferentes etapas da contratação de profissionais. Para integrar sistemas que operavam de forma independente e eliminar processos manuais, a companhia adotou a Satryo, plataforma desenvolvida pela capixaba Globalsys. Com a unificação das informações em uma única estrutura, a operação passou a contar com compartilhamento de dados em tempo real, automatização de relatórios e maior capacidade de identificar padrões e oportunidades de negócio.
Para o CTIO da Globalsys, Beto Yunes, o desempenho da inteligência artificial depende diretamente da qualidade da infraestrutura digital das empresas. “A IA não resolve nada sozinha. O diferencial está em conectar a inteligência ao dado certo, no momento certo, dentro de uma estrutura preparada para isso. É aí que a tecnologia deixa de ser promessa e passa a gerar resultado operacional concreto”, afirma.
A presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos no Espírito Santo (ABRH-ES), Neidy Christo, complementa dizendo que o avanço da inteligência artificial precisa ser acompanhado pelo desenvolvimento das pessoas. “Vejo muitas organizações investindo fortemente em tecnologia, mas ainda negligenciando o desenvolvimento humano. Sem preparo emocional e relacional, a tecnologia acelera processos, mas também acelera conflitos e desconexão”, afirma.


