Com portos entre os mais eficientes do país e forte integração ferroviária, o Espírito Santo consolida seu papel como hub logístico nacional — mas ainda enfrenta gargalos
Por Geilson Ferreira
A competitividade econômica do Espírito Santo passa, necessariamente, pela qualidade da sua infraestrutura logística. Em um estado com forte vocação exportadora, a eficiência no transporte de cargas — seja por rodovias, ferrovias, portos ou aeroportos — não é apenas um diferencial, mas um fator estrutural. Os dados mais recentes mostram um sistema robusto, altamente especializado e integrado, mas ainda em processo de modernização e diversificação.
No modal rodoviário, a base técnica do Sistema Rodoviário Estadual (SRE 2025), do Departamento de Edificações e de Rodovias do Estado do Espírito Santo (DER-ES), aponta para uma malha de 5.614,8 quilômetros sob gestão estadual, com pouco mais da metade pavimentada (53,1%).
Do total da malha rodoviária do Espírito Santo, 43,2% ainda corresponde a via em leito natural (2.426 km). Há ainda 207,6 km em obras de pavimentação, indicando um ciclo ativo de expansão e melhoria da qualidade da rede.

O desafio do Espírito Santo não está mais na expansão da malha, mas na sua modernização. Um fator decisivo para a competitividade econômica, a integração regional e a redução de desigualdades territoriais.
Esse dado revela um cenário de transição: embora o estado tenha avançado na qualificação da infraestrutura, com aumento contínuo da pavimentação, ainda convive com uma parcela significativa de vias não pavimentadas (43,2%). Mais do que expansão, o foco recente tem sido a melhoria da qualidade da malha existente, refletindo uma estratégia voltada à eficiência logística.
A governança desse sistema também passou por mudanças relevantes. Desde o fim da concessão da Rodovia do Sol, em 2023, o Espírito Santo passou a operar com 100% da malha estadual sob gestão pública direta, enquanto a única concessão ativa se concentra no eixo federal da BR-101, com 478,7 quilômetros administrados pela Eco101.
No Espírito Santo, o modelo de concessões rodoviárias é dividido entre a esfera federal e a estadual. Atualmente, o estado possui uma das maiores concessões federais do país em extensão, enquanto o modelo estadual passou por uma transição importante no final de 2023.


Embora minoritária em extensão, essa fração de participação na malha concentra o maior volume de tráfego de longa distância e praticamente todo o fluxo estruturante de cargas no sentido norte-sul, conectando o estado às regiões Sudeste e Nordeste.
O Espírito Santo passa a operar com um modelo híbrido, porém assimétrico: forte presença pública na malha estadual e dependência concentrada de um único contrato federal para sua principal artéria logística.
Nesse contexto, a BR-101 assume um papel ainda mais estratégico e sensível: seu desempenho operacional, capacidade de investimento e estabilidade regulatória deixam de ser apenas questões setoriais e passam a impactar diretamente a competitividade da economia capixaba.
Em um estado marcado pela vocação logística e pela integração com cadeias nacionais e internacionais, a eficiência desse corredor é determinante para o escoamento da produção industrial, agrícola e portuária.
Ferrovia sustenta protagonismo logístico do Espírito Santo
Se nas rodovias o desafio é a modernização, nas ferrovias o cenário é de alta eficiência e escala. O sistema ferroviário que atende o estado movimenta entre 120 e 145 milhões de toneladas por ano, com forte predominância do minério de ferro, que responde por até 80% do total.
Dados oficiais da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) indicam que as duas principais concessões que operam no corredor capixaba — a Estrada de Ferro Vitória a Minas e a Ferrovia Centro-Atlântica — movimentam, em conjunto, entre 123 milhões e 140 milhões de toneladas úteis anuais no período recente.
Do ponto de vista estrutural, o sistema ferroviário ligado ao Espírito Santo permanece altamente concentrado. O minério de ferro responde por cerca de 70% a 80% do total transportado, evidenciando a forte dependência da economia logística estadual em relação ao setor extrativo.

A Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM), operada pela Vale, é o principal eixo, conectando a produção mineral de Minas Gerais aos portos capixabas, enquanto a Ferrovia Centro-Atlântica (FCA) amplia a diversificação com cargas como grãos, açúcar e fertilizantes.
A série histórica recente mostra resiliência e crescimento: de cerca de 123 milhões de toneladas em 2020 para uma projeção próxima de 140 milhões em 2025. Mais do que volume, o avanço da carga geral indica uma mudança gradual na matriz logística, reduzindo a dependência exclusiva do minério e ampliando a integração com o agronegócio e a indústria.
No contexto nacional, o desempenho das ferrovias conectadas ao Espírito Santo acompanha o avanço do setor como um todo. O Brasil registrou recorde histórico de movimentação ferroviária em 2025, superando 550 milhões de toneladas úteis, segundo o Ministério dos Transportes. Nesse cenário, o corredor capixaba mantém papel central, especialmente no escoamento de minério de ferro, principal produto da pauta ferroviária brasileira.
Espírito Santo mantém protagonismo portuário
É, no entanto, no sistema portuário que o Espírito Santo atinge seu maior protagonismo. O estado se consolidou como um dos principais hubs logísticos do Brasil, com movimentação total que deve ultrapassar 135 milhões de toneladas em 2025.
O complexo portuário capixaba, que inclui portos públicos e terminais privados, combina escala, eficiência e especialização, com destaque absoluto para o Terminal de Tubarão, que sozinho movimentou 87,4 milhões de toneladas no ano.
A concessão dos portos de Vitória e Vila Velha à iniciativa privada, operada pela Vports, introduziu ganhos operacionais relevantes e abriu espaço para diversificação da pauta. O crescimento da movimentação de veículos, carga geral e operações conteinerizadas indica uma tentativa clara de reposicionamento estratégico.

A trajetória recente confirma esse posicionamento. Após a queda em 2020, provocada pela pandemia, o setor apresentou recuperação rápida em 2021 e entrou em um ciclo de crescimento moderado e contínuo, sustentado pela retomada das exportações e pela diversificação da pauta.
Ainda assim, a estrutura permanece altamente concentrada em granéis sólidos, especialmente minério de ferro, que responde por cerca de 70% a 80% da movimentação total.
Mesmo com crescimento contínuo na movimentação de cargas, o Espírito Santo estabiliza sua participação em torno de 10% do total nacional, refletindo limites estruturais e a ascensão acelerada de novos polos logísticos no Norte e Nordeste.

Essa especialização garante eficiência, mas impõe limites. A participação do Espírito Santo na movimentação portuária nacional se mantém relativamente estável, na faixa de 8,5% a 9%, consolidando o estado na quarta posição entre as unidades da federação. O dado revela um paradoxo: o estado cresce em volume, mas não amplia sua fatia no mercado nacional, pressionado pelo avanço de novos pólos logísticos no Norte e Nordeste.
No segmento de contêineres, o cenário é de expansão, mas ainda é periférica. A movimentação saltou de cerca de 172 mil TEUs em 2020 para uma estimativa de 238 mil TEUs em 2025, atingindo recorde histórico.
Apesar disso, a análise estrutural mostra limitações claras. O Espírito Santo permanece com participação reduzida no mercado nacional de contêineres, algo em torno de 2% a 3% do total brasileiro. Para efeito de comparação, o Porto de Santos sozinho movimenta mais de 4 milhões de TEUs por ano, enquanto todo o estado capixaba não ultrapassa meio milhão. Isso evidencia uma diferença não apenas de escala, mas de posicionamento logístico.
Esse crescimento recente está diretamente associado à nova gestão dos portos organizados sob a Vports e ao desempenho operacional do Terminal de Vila Velha, controlado pela Log-In Logística Intermodal. A profissionalização da gestão, combinada com ganhos de eficiência e atração de novas cargas, contribuiu para ampliar o volume movimentado e diversificar parcialmente a pauta.

A baixa escala da carga conteinerizada está diretamente ligada ao perfil econômico do estado, ainda fortemente orientado à exportação de commodities. No entanto, há sinais de mudança. O aumento da movimentação de veículos, bens de consumo e carga geral, além de projetos como novos terminais multipropósito, indicam uma tentativa clara de diversificação e reposicionamento logístico.
No conjunto, os dados revelam um sistema logístico eficiente, mas assimétrico. Enquanto portos e ferrovias operam com alta produtividade e integração, as rodovias ainda enfrentam desafios estruturais, e o segmento de contêineres permanece subdimensionado. O Espírito Santo já é, de fato, um hub logístico nacional, mas ainda busca ampliar sua complexidade.
O próximo ciclo de crescimento dependerá menos da expansão física e mais da capacidade de integrar modais, diversificar cargas e atrair investimentos. Em um cenário de competição crescente entre corredores logísticos no Brasil, a eficiência já não é suficiente: será preciso também ganhar escala e flexibilidade para sustentar e ampliar o protagonismo conquistado.
Aeroporto de Vitória bate recorde e entra em novo ciclo de crescimento
O Aeroporto de Vitória encerrou 2025 com o maior volume de passageiros de sua história, consolidando a retomada do setor aéreo no Espírito Santo e inaugurando um novo ciclo de crescimento. De acordo com dados da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), o terminal movimentou cerca de 3,54 milhões de passageiros no ano, superando com folga o recorde anterior registrado antes da pandemia.
A trajetória recente do aeroporto reflete, de forma clara, o impacto da crise sanitária e a posterior recuperação do transporte aéreo. Em 2020, o fluxo caiu para aproximadamente 2 milhões de passageiros, acompanhando a forte retração observada em todo o país. Já em 2021 e 2022, o crescimento acelerado marcou o período de retomada, impulsionado pela reabertura da economia e pela recomposição da malha aérea doméstica.
O ano de 2023 representou um ponto de inflexão, com o retorno ao patamar de 3 milhões de passageiros e a consolidação da recuperação. Em 2024, o crescimento mais moderado indicou estabilização do mercado, preparando o terreno para o salto observado em 2025, quando o aeroporto não apenas recuperou as perdas acumuladas, mas também ultrapassou o nível pré-pandemia.
Após superar os impactos da pandemia, terminal capixaba alcança maior movimentação da história em 2025 e consolida um novo patamar operacional, sustentado por demanda consistente e expansão da oferta aérea

Mais do que um efeito estatístico de recuperação, o desempenho recente revela uma mudança estrutural. O aumento do fluxo está associado à ampliação da oferta de voos, ao ganho de eficiência operacional e à elevada taxa de ocupação das aeronaves, indicando um mercado mais maduro e com demanda consistente. As rotas para os principais centros econômicos do país, como São Paulo e Rio de Janeiro, seguem como eixo central da conectividade, reforçando o perfil predominantemente doméstico do terminal.
Esse movimento também reflete o papel estratégico do Espírito Santo na dinâmica econômica regional. Com forte presença de atividades ligadas à indústria, logística, petróleo e serviços, o aeroporto mantém uma base relevante de passageiros corporativos, o que contribui para reduzir a volatilidade e sustentar o crescimento mesmo em cenários econômicos mais desafiadores.
A evolução do fluxo de passageiros entre 2020 e 2025 evidencia um ciclo completo: da queda abrupta à recuperação gradual, seguida pela estabilização e, mais recentemente, pela expansão. O resultado de 2025 marca, portanto, não apenas um recorde histórico, mas a consolidação de um novo patamar para o transporte aéreo capixaba.
A tendência, a partir de agora, é de crescimento mais moderado, porém sustentado por fundamentos reais, como renda, emprego e oferta de voos. Nesse contexto, o Aeroporto de Vitória se posiciona como um hub regional eficiente, preparado para acompanhar a evolução da economia do Espírito Santo e ampliar sua relevância no cenário nacional.
Carga aérea no Espírito Santo: ciclo de crescimento moderado
A série histórica do volume de carga aérea movimentada no Espírito Santo entre 2020 e 2025, com base nos dados da ANAC, revela uma trajetória marcada por forte volatilidade no curto prazo e por uma tendência de estabilização no período mais recente. O comportamento do indicador acompanha, com alta sensibilidade, os choques e ajustes da economia e da logística global, especialmente no contexto da pandemia e do pós-pandemia.
Em 2020, primeiro ano impactado pela crise sanitária, o volume de cargas já refletia mudanças importantes na dinâmica do transporte. A partir de 2021, no entanto, ocorre um salto expressivo, configurando o ponto mais alto da série. Esse crescimento não está associado a uma expansão estrutural da economia capixaba, mas sim a fatores conjunturais: a desorganização das cadeias logísticas globais, a redução da oferta de voos de passageiros — que também transportam carga — e a explosão do e-commerce e da demanda por itens médicos e urgentes. Nesse contexto, o transporte aéreo, mesmo mais caro, tornou-se uma solução estratégica.
A partir de 2022, inicia-se um movimento de correção. Com a reabertura das economias, a normalização das cadeias produtivas e a recomposição dos modais mais baratos, como o rodoviário e o marítimo, o volume de carga aérea passa a recuar. Esse ajuste se aprofunda em 2023, quando o indicador atinge o ponto mais baixo desde o auge da pandemia, refletindo também um ambiente macroeconômico mais restritivo, marcado por juros elevados e desaceleração do consumo.
Nos anos de 2024 e 2025, observa-se uma inflexão na trajetória. O volume volta a crescer, ainda que de forma moderada, indicando entrada em um novo ciclo. Diferentemente do movimento observado em 2021, essa recuperação não é impulsionada por choques externos, mas por fundamentos mais consistentes, como a reorganização das cadeias logísticas, a consolidação do comércio eletrônico e a demanda por transporte de cargas de maior valor agregado e sensíveis ao tempo.
Diferentemente da movimentação portuária, o modal aéreo no estado concentra produtos como eletrônicos, equipamentos industriais, encomendas expressas e insumos específicos de setores estratégicos. Trata-se, portanto, de um segmento menos dependente de volume e mais sensível a fatores como tempo, confiabilidade e custo logístico.

Do ponto de vista estrutural, o desempenho da carga aérea no Espírito Santo reforça o papel secundário do estado no sistema logístico nacional nesse modal. Sem a presença de grandes hubs cargueiros, a movimentação local depende fortemente da conexão com centros mais dinâmicos, como São Paulo, o que limita ganhos de escala e reduz a competitividade frente a outros modais. Nesse cenário, o transporte aéreo se consolida como uma alternativa complementar, voltada principalmente a cargas fracionadas, urgentes e de alto valor.
A composição das cargas também ajuda a explicar esse comportamento. Diferentemente da movimentação portuária, dominada por commodities, o modal aéreo no estado concentra produtos como eletrônicos, equipamentos industriais, encomendas expressas e insumos específicos de setores estratégicos. Trata-se, portanto, de um segmento menos dependente de volume e mais sensível a fatores como tempo, confiabilidade e custo logístico.
Em síntese, a série histórica indica que o pico observado durante a pandemia foi um evento excepcional, e não um novo patamar estrutural. O cenário atual aponta para um crescimento mais equilibrado, porém limitado pelas características da infraestrutura e pela posição do Espírito Santo na rede logística nacional. O desafio, daqui para frente, será ampliar a integração com cadeias de maior valor agregado e reduzir a dependência de hubs externos, condição essencial para que o modal aéreo ganhe relevância mais consistente na economia estadual.
Essa matéria é uma republicação da edição 233 da Revista ES Brasil – ES Em Números. Confira a edição digital completa aqui.

