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Quanto tempo a gente tem?

 

Quanto tempo a gente tem?

O grande truque do mundo contemporâneo é convencer você de que correr é viver

Por André Gomyde

Outro dia acordei com a sensação de que o dia tinha começado sem mim. Levantei correndo, tropecei no chinelo, respondi três mensagens, esquentei o café, esqueci o café, voltei para o café frio, respondi mais duas mensagens — sendo que uma delas nem precisava de resposta — e, quando vi, já estava atrasado para tudo. Para tudo. Até para o atraso.

A vida moderna tem essa gentileza: ela te oferece tantas prioridades que você acaba sem nenhuma. É um rodízio de urgências. A única coisa que não entra no rodízio é o próprio tempo, que insiste em andar para frente, teimando em não fazer pause para acompanhar nossa bagunça emocional. Ingrato.

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E então chega aquele momento filosófico — geralmente quando estamos esperando uma água ferver ou quando o sinal fecha só para nós — e pensamos: quanto tempo a gente tem? E mais importante: quem está usando esse tempo? Porque, sem perceber, a gente terceiriza o relógio. Tem sempre alguém pedindo “rapidinho”, “um minuto”, “só uma coisinha”. E quando vemos, o nosso tempo virou o tempo dos outros. A gente fica com as migalhas, que são justamente as partes em que estamos tão cansados que só conseguimos olhar para o teto.

O grande truque do mundo contemporâneo é convencer você de que correr é viver. Como se viver fosse um campeonato de 100 metros rasos, e não um passeio na orla, desses em que a gente para para olhar a lua e dizer coisas profundas como “essa lua está bonita hoje”. Mas não, a lei da correria diz que contemplar é perda de tempo. Já descansar é quase um crime. E, veja bem, ninguém quer ser criminoso.

Só que existe um detalhe incômodo: quando a gente não escolhe o próprio tempo, alguém escolhe por nós. E esse alguém, na maioria das vezes, nem sabe onde deixamos nossas luvas de inverno em agosto. Ou seja: não merece tanto poder assim.

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É por isso que, de vez em quando, precisamos cometer pequenas rebeldias. Desligar o celular. Olhar para a família como quem olha uma obra-prima (porque, convenhamos, às vezes são mesmo). Fazer nada – o mais subversivo dos esportes. E, acima de tudo, recuperar o direito de dizer “não posso agora, estou ocupado vivendo”.

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Porque no final das contas, a pergunta “quanto tempo a gente tem?” pode até não ter resposta. Mas “como estou usando o tempo que tenho?” – essa está sempre esperando por uma boa, honesta e libertadora revisão.

André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

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