O Brasil não tem falta de boas ideias. Tem excesso de cronogramas, atas e siglas. E o ESG, coitado, se afoga no cafezinho morno da sala de reunião

Por André Gomyde
Dona Maricota não sabia o que era ESG. Achava que era uma nova marca de sabão em pó ecológico. Seu Genésio, do terceiro andar, achava que era alguma coisa ligada a energia solar. Já o pessoal do escritório, esse sim, sabia muito bem: ESG é a palavra mágica. Dizê-la em uma reunião garante respeito imediato, como quem saca uma espada em plena assembleia medieval.
— Precisamos de uma abordagem ESG! — diz o gerente, olhando para a janela como se enxergasse o futuro. Todos concordam com a cabeça, mesmo sem entender. Anotam: “abordagem ESG” — em caixa alta, que é pra parecer mais estratégico.
Na semana seguinte, surge o GT. O famigerado Grupo de Trabalho. A mística criatura da fauna corporativa brasileira, composta por cinco pessoas e dois PowerPoints. Sua missão: criar diretrizes ESG. Ninguém sabe o que exatamente são diretrizes ESG, mas a expressão “parece coisa de multinacional” — o que, em si, já dá uma sensação de produtividade.
O primeiro encontro do GT dura três horas. Uma hora é dedicada a definir a missão do grupo. Outra é consumida na escolha da fonte do relatório final. A terceira hora se perde discutindo se “Governança” deve vir antes de “Social”, ou se segue a sigla mesmo. Terminam marcando nova reunião.
O Brasil tem essa habilidade ancestral: a de reunir-se. O verbo “reunir” é nosso esporte nacional. Melhor que o futebol, porque ninguém perde. E quando se trata de ESG, a capacidade de gerar encontros é infinita: comitês, fóruns, conselhos, painéis. É como se salvar o planeta dependesse exclusivamente de marcar mais uma reunião com o Paulo da Controladoria.
Mas veja: a ideia do ESG é linda. Ambiental? Claro que queremos floresta e peixe no rio. Social? Óbvio que todos devem ter dignidade. Governança? Sim, sim, vamos criar uma política interna de conduta ética, para ninguém mais roubar caneta da copa.
Só que há um problema: às vezes, o ESG vira o fim em si mesmo. A empresa não planta uma árvore, mas tem uma apresentação em PowerPoint com a imagem de dez mil. Não muda nada no tratamento aos funcionários, mas distribui um panfleto com palavras como “diversidade” e “empatia” em degradê.
É como se o ESG fosse uma peça de teatro. Com cenário, figurino, roteiro e tudo. Só falta o ator levantar da cadeira e ir lá fora fazer alguma coisa.
Enquanto isso, o GT se reúne novamente. Agora para discutir os indicadores. Alguém sugere medir o consumo de copinhos de café por setor. Outro levanta a possibilidade de compensar carbono plantando samambaias no banheiro. Todos acham inovador.
Marcam nova reunião.
O Brasil não tem falta de boas ideias. Tem excesso de cronogramas, atas e siglas. E o ESG, coitado, se afoga na sopa de letrinhas e no cafezinho morno da sala de reunião.
No fim, talvez ESG funcione sim. Mas não no PowerPoint. Nem na reunião da reunião. Funciona quando alguém resolve fechar o laptop, arregaçar as mangas, e fazer. ESG sem ação é só reunião com ar-condicionado e biscoito de polvilho.
Dona Maricota continua achando que ESG é sabão. E talvez esteja certa. Porque do jeito que vai, ESG serve mais pra lavar a imagem do que pra limpar o mundo.
André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos
*Artigo publicado orginalmente na revista ES Brasil nº 227, de junho de 2025. Leia a edição completa do Anuário Verde aqui.

