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O Copo da Professora

O Copo da Professora

Precisamos voltar ao básico. Ensinar respeito. Ensinar cuidado. Ensinar que professor não é inimigo, é ponte

Por André Gomyde

Há notícias que a gente lê duas vezes, não por dificuldade de compreensão, mas por esperança de ter entendido errado. Adolescentes teriam colocado lâminas de vidro no copo de água de uma professora. A primeira pergunta vem automática: isso é tentativa de assassinato? É brincadeira de péssimo gosto? É falta absoluta de consciência? Talvez seja tudo isso misturado num liquidificador moral que ninguém teve coragem de desligar.

Porque há uma diferença enorme entre travessura e crueldade. Travessura é esconder o apagador, colar papel nas costas do colega, rir da própria bobagem e levar bronca. Lâmina de vidro em copo de água já não pertence ao departamento da arte infantil. Isso mora em outro prédio. Um prédio escuro, sem recreio e sem desculpa convincente.

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E então vem a pergunta mais difícil: o que está acontecendo com nossas crianças? Ou melhor, o que estamos deixando acontecer com elas?

Culpa da escola? Também. Mas não só. A escola virou, nos últimos anos, uma espécie de posto avançado da civilização, tentando ensinar matemática, português, convivência, limite, empatia, alimentação saudável, cidadania, educação digital e, se sobrar tempo, tabuada. O professor, coitado, deixou de ser apenas professor. Virou psicólogo, mediador, assistente social, bombeiro emocional e, às vezes, alvo.

Mas os pais têm responsabilidade, sim. Muitos estão ausentes, mesmo quando moram na mesma casa. Estão cansados, distraídos, terceirizados pelo celular, pelo trabalho, pela culpa ou pela falsa ideia de que amar é permitir tudo. Criança precisa de afeto, mas também precisa de limite. Limite não traumatiza. Abandono disfarçado de liberdade, sim.

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Há pais que não educam: negociam. A criança manda, o adolescente impõe, a família obedece e chama isso de personalidade forte. Depois, quando o mundo reage, todos se espantam.

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Também há despreparo. Ninguém nasce sabendo ser pai ou mãe, é verdade. Mas há uma diferença entre não saber e não querer aprender. Criar filho exige presença, conversa, vigilância amorosa e a coragem antipática de dizer “não”. O “não” é uma das maiores provas de amor já inventadas, embora raramente ganhe curtida.

O mais triste é perceber que muitos jovens parecem não compreender a consequência real de seus atos. Vivem num mundo em que tudo parece reversível: apaga a mensagem, deleta o vídeo, troca de perfil, muda de tela. Só que a vida não tem botão de desfazer. Um copo com vidro pode destruir uma pessoa. E destruir também quem achou que aquilo era apenas uma ideia idiota.

Precisamos voltar ao básico. Ensinar respeito. Ensinar cuidado. Ensinar que professor não é inimigo, é ponte. E que uma sociedade que permite que seus mestres sejam humilhados, ameaçados ou feridos está serrando a própria escada.

No fim, o copo era da professora. Mas o vidro, infelizmente, estava espalhado em todos nós.

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André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

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