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O clique e o cacoete

A juventude nos ensina a rapidez e a inovação, enquanto a maturidade nos ensina a reflexão e a cautela

O clique e o cacoete

Por André Gomyde

Outro dia, o neto do meu amigo — que ainda confunde o “p” com o “q” na escola — me explicou, com a paciência de um professor alemão, como funcionava um aplicativo para pagar o estacionamento. Eu, que já paguei estacionamento com moeda de cruzeiro, cruzado e real, fiquei parado diante do celular como se fosse um enigma maia. Ele pegou o aparelho, fez dois cliques, arrastou a tela, sorriu como se tivesse desarmado uma bomba atômica e disse: “Pronto, tio”.

A cena seria só engraçada se não tivesse uma lição embutida. Nós, mais antigos, que ainda lembramos de quando o “telefone sem fio” era uma brincadeira com latas de leite e barbante, parecemos bobos diante da tecnologia digital. Mas só parecemos. Porque o que eles chamam de “fazer em um clique” nós chamamos de “resolver com método”. O problema é que o método raramente cabe em um aplicativo.

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As crianças não sabem, por exemplo, que já gerenciamos filas de banco com senha de papel, consertamos TV batendo do lado e aprendemos a esperar meia hora até o rádio “esquentar”. Experiência é isso: saber que tudo, por mais moderno que pareça, também quebra, emperra e precisa de um empurrãozinho. O digital é rápido, mas a paciência é analógica.

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E é aí que a mágica acontece: quando o clique do neto encontra o cacoete do tio, do avô. Ele entende o aplicativo, mas não entende por que não deve colocar a senha em qualquer site que pisca colorido. Eu não entendo o aplicativo, mas sei que quem promete demais sempre cobra mais caro depois. Uma aliança improvável: a sabedoria de quem já caiu em golpes de carne e osso com a destreza de quem desliza o dedo pela tela como se fosse um maestro.

O futuro, penso, está nesse encontro: o jovem ensinando a tecnologia e o velho ensinando a viver. O dedo rápido do adolescente no celular e o olhar mais demorado do adulto sobre as consequências. Um não substitui o outro. Se a juventude acelera, a maturidade dá direção.

No fim das contas, é simples: eles nos ajudam a não parecermos bobos diante dos aplicativos. E nós ajudamos para que eles não sejam bobos diante da vida.

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André Gomyde presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

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