
Modelo atual transfere custos e insegurança para trabalhadores autônomos
Por André Gomyde
Vivemos tempos curiosos. Se você espirra em público, aparece alguém para dizer: “Você precisa empreender.”
Empreender virou solução universal. Está triste? Empreenda. Está desempregado? Empreenda. Seu casamento acabou? Talvez um negócio próprio ajude. É quase uma religião.
Mas outro dia pensei no caso clássico do motorista de aplicativo. Chamemos nosso personagem de Osvaldo.
Osvaldo vai ao banco, faz um financiamento e compra um carro. Sai feliz, com dívida de cinco anos e cheiro de carro novo, o que é sempre uma combinação emocionalmente perigosa.
Pronto. Agora ele é um empreendedor. Ou assim lhe disseram. Osvaldo começa a rodar. Mas logo descobre que, antes mesmo de ganhar, já está repartindo.
O banco pega uma parte. O posto de gasolina pega outra. A oficina mecânica, sempre elegante na sua pontualidade destrutiva, leva mais um pedaço. O seguro, os pneus, a lavagem e o cafezinho no posto também entram na dança.
E, por fim, a plataforma leva uma fatia generosa, quase quarenta por cento, apenas por fornecer um aplicativo.
No final do mês, Osvaldo faz as contas e percebe que o “empreendimento” dele se parece muito com um emprego. Só que sem férias. Sem décimo terceiro. Sem aposentadoria. Sem plano de saúde. Sem direito de reclamar com o RH, porque o RH é um algoritmo.
É curioso. Chamam isso de liberdade. Mas às vezes parece apenas terceirização do risco.
No empreendedorismo tradicional, aquele das grandes histórias, era diferente. O sujeito criava um produto. Montava uma fábrica. Desenvolvia tecnologia. Construía uma marca. Assumia risco, claro, mas também criava patrimônio.
Os grandes impérios do mundo nasceram assim. Da indústria, da inovação, da produção real.
Hoje, em boa parte do mundo, vendem como empreendedorismo o ato de alugar a própria força de trabalho sem proteção social. E isso não acontece só aqui.
Nos Estados Unidos, na Europa, na Ásia, o modelo se espalhou como solução elegante para o desemprego. Você não está desempregado. Está “empreendendo”.
Mesmo que trabalhe doze horas por dia para pagar parcelas, combustível e a comissão de uma empresa que vale bilhões.
É um tipo novo de capitalismo. O trabalhador compra as ferramentas, assume o risco, arca com o prejuízo e ainda agradece pela oportunidade.
Claro: há formas genuínas de empreender.
Abrir um negócio, inovar, criar algo novo continua sendo uma força poderosa da economia. Mas talvez seja hora de separar empreendedorismo de sobrevivência.
Nem todo mundo que trabalha por conta própria é empresário. Às vezes é apenas alguém tentando continuar existindo dentro de um sistema que mudou o nome das coisas. E isso muda tudo.
Porque chamar precariedade de liberdade é uma das grandes genialidades semânticas do nosso tempo.
André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

