Vivemos uma era em que a pobreza intelectual. A falta de profundidade nas discussões cria um ambiente perfeito para o fortalecimento das fake news
Por André Gomyde
Vivemos uma era em que a pobreza intelectual parece ter encontrado terreno fértil para florescer. Se por um lado a internet trouxe a democratização da informação, por outro, ela também abriu espaço para a ascensão dos chamados “influencers” — indivíduos com pouco ou nenhum conteúdo relevante, mas com enorme alcance e influência sobre milhões de seguidores.
É intrigante pensar que em um mundo com tanto acesso ao conhecimento, optamos por consumir opiniões rasas e superficiais como se fossem verdades absolutas.
A frase “só existe o influencer porque existe o idioter” resume bem o espírito do nosso tempo. Não há dúvida de que o fenômeno dos influenciadores digitais é um reflexo de uma audiência disposta a trocar diálogos construtivos por um show de trivialidades. Afinal, quem se dá ao trabalho de estudar a fundo uma questão quando pode obter uma resposta simplista e imediata de alguém carismático na tela do celular? A era do “eu li num post” parece ter substituído o “eu estudei o assunto”.
A falta de profundidade nas discussões cria um ambiente perfeito para o fortalecimento das fake news. Com informações erradas circulando em uma velocidade vertiginosa, o senso crítico das pessoas é frequentemente deixado de lado. Se antes questionávamos a veracidade de um argumento, hoje basta que ele venha embalado em uma produção bem-feita e com um número considerável de curtidas. O conteúdo perde espaço para a forma, e o pensamento crítico cede à apatia do “compartilhar sem ler”.
Pior ainda, essa dinâmica abriu portas para que qualquer pessoa se sinta à vontade para criar teorias absurdas sobre qualquer coisa. A Terra plana, o antivacinismo, as conspirações sobre chips em vacinas — ideias que, há pouco tempo, seriam facilmente refutadas pelo bom senso, agora ganham milhões de visualizações e adeptos. Parece que vivemos a era das teses ruins, onde o fato de alguém “acreditar” já é motivo suficiente para dar voz a um absurdo.
É claro que a responsabilidade não é apenas do “influencer”. Como disse, ele só existe porque existe o “idioter” – o público que consome avidamente qualquer conteúdo, sem se preocupar com a qualidade. No entanto, há uma camada de humor trágico nessa situação. Vivemos em um mundo em que o fluxo de informações nunca foi tão intenso, mas escolhemos seguir quem oferece as piores respostas para as perguntas mais complexas. É quase uma ironia do destino: temos todas as ferramentas para nos tornarmos mais sábios, mas nos contentamos com quem nos entretém.
O remédio para essa pobreza intelectual passa pela educação e pelo incentivo ao pensamento crítico, como há muitos anos vem nos ensinando Cristovam Buarque. Mas, enquanto isso não acontece, seguimos assistindo a tese de que “qualquer idiota pode ser um formador de opinião”.
O que é ainda mais assustador é que, ao que tudo indica, essa é uma ideia que ainda vai durar um bom tempo.
André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em administração pela FCU-EUA. @andre.gomyde

