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Gente precisa de gente

Lucro por lucro é coisa vazia. No fim das contas — ou melhor, antes delas — tudo o que importa mesmo é gente cuidando de gente

Por André Gomyde

O mundo está cada vez mais estratégico. Tudo é planejamento, métrica, escala, KPI, pitch. Tem aplicativo para medir produtividade, aplicativo para controlar o tempo do sono, aplicativo para lembrar de beber água. Só não tem aplicativo que abrace.

Enquanto alguns ajustam gráficos de rentabilidade e decidem se vale a pena demitir duzentos para subir dois pontos percentuais no trimestre, tem gente tentando entender por que a filha não quer mais ir à escola. Tem gente que só queria aprender a usar o celular para falar com a neta. Tem gente que não quer bônus nem ações — quer atenção. Um café quente, um olhar que diga: “estou aqui.”

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É preciso cuidar de gente. Gente que precisa estudar — não só pra passar no vestibular, mas pra entender o mundo e se entender dentro dele. Gente que precisa aprender a usar a internet sem cair em golpe, sem se perder em ódio, sem achar que só existe quem grita mais alto. Gente que não sabe o que é “cloud”, mas carrega nuvens nos olhos, esperando que alguém explique as coisas com paciência.

Tem gente que precisa de letramento digital, sim — mas antes disso, de letramento emocional. De alguém que diga: “você não é menos porque demorou pra entender.” E que ajude, sem pressa, a traduzir o mundo que corre demais pra quem já cansou só de tentar acompanhar.

E tem gente — a maioria — que precisa de afeto. Não afeto de propaganda de margarina, mas aquele que vem em forma de escuta, de elogio sincero, de um “você consegue” na hora certa. Gente que precisa de colo, mesmo quando tem cinquenta anos. De incentivo, mesmo quando já ouviu mil vezes que “não vai dar em nada”.

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Enquanto isso, alguns continuam em reuniões que duram três horas pra discutir estratégias de maximização do ROI, como se o mundo fosse uma planilha. E esquecem que ROI nenhum vale mais que uma criança que aprende a ler, um idoso que descobre o botão do vídeo, uma mulher que, depois de anos, volta a sorrir com segurança porque alguém acreditou nela.

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Lucro por lucro é coisa vazia. O que enche o mundo de verdade é o que não cabe em gráfico: uma mão estendida, um carinho que ensina, um gesto que constrói. Porque no fim das contas — ou melhor, antes delas — tudo o que importa mesmo é gente cuidando de gente.

E disso, meu amigo, não tem CEO que discorde. Ou pelo menos não deveria.

(*ROI vem do inglês [Return on Investment] – Retorno sobre o investimento).

André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

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