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Entre chuvas e secas, o desafio dos rios da Grande Vitória

Rios de pequeno porte, mas com importância estratégica gigante, precisam de cuidados para garantir o abastecimento da população

Por Kikina Sessa

Quase metade da população do Espírito Santo reside na Grande Vitória, que compreende os municípios de Vila Velha, Serra, Cariacica, Viana, além da capital. O número de habitantes registrado pelo Censo 2022 foi de 1.880.828, o que representa cerca de 49% da população capixaba. A manutenção da vida e da atividade econômica nessa região depende de dois rios considerados de pequeno porte, o Jucu e o Santa Maria da Vitória.

Apesar de pequenos em extensão, com média de 130 quilômetros cada, e pequenos em volume de vazão, girando em torno de 20 mil litros por segundo (ou 20 m³ por segundo), esses rios têm uma importância estratégica gigante para a região central do Estado.

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As duas bacias hidrográficas a qual pertencem concentram a maior diversidade de usos registrada em todo o Espírito Santo. Elas abastecem o consumo humano, servem a um parque grande de indústrias, ajudam na geração de energia por hidroeletricidade, são essenciais para a produção de alimentos hortigranjeiros, e ainda recebem demanda do turismo, pois cortam cidades com potencial turístico grande.

Essa diversidade no uso da água só reforça e aumenta a importância estratégica, não só dos dois rios, mas das duas bacias hidrográficas, fora a riqueza de biodiversidade presente neles, como Domingos Martins, por exemplo, que abriga um importante remanescente de Mata Atlântica.

Assoreamento, poluição e eventos extremos são ameaças

Nas bacias do Jucu e do Santa Maria da Vitória, eventos extremos têm sido uma ameaça. Chuvas intensas, capazes de fazer a vazão dos rios subir rapidamente, colocam cidades que estão no percurso desses rios, como Marechal Floriano, Cariacica, Santa Leopoldina, em risco de sofrer com alagamentos e inundações.

O outro extremo é a seca. Os períodos mais prolongados, como os registrados em 2015 e em 2023, reduzem a vazão, colocando em risco o abastecimento. Essas oscilações bruscas são impactantes.

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Apesar de ser geograficamente pequeno, o Espírito Santo recebe influência simultânea dos dois fenômenos climáticos que afetam o país: o El Niño e o La Niña. Isso faz com que o Estado receba a influência de chuvas muito fortes na região sul, pelo El Niño, enquanto o norte é impactado pela influência da característica mais seca. E, quando o El Niño perde força e o La Niña ganha força, o quadro se inverte.

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“Temos observado uma ocorrência cada vez maior da frequência dos eventos extremos e da intensidade dos mesmos. O que antes era algo gradual e mais padronizado, ou seja, com os períodos característicos de chuva e os de seca, hoje está muito ‘bagunçado’”, comenta Fábio Ahnert, diretor-presidente da Agência Estadual de Recursos Hídricos (Agerh).

Outra ameaça aos rios Jucu e Santa Maria da Vitória ainda é a falta de saneamento. Há um aumento importante nos indicadores de saneamento, com investimentos no tratamento de esgoto, mas ainda há muitas localidades no entorno desses rios em que é preciso haver o saneamento adequado, principalmente na área rural. “Alcançar maiores índices de coleta e tratamento de esgoto ainda é um desafio colocado, pois é um fator de impacto grande na qualidade da água”, disse Ahnert.

“Nosso foco é tentar nos aparelharmos, principalmente no quesito monitoramento, a previsões e a sistemas de alerta para antecipar a ocorrência desses fenômenos e gerar informações úteis” Fábio Ahnert, diretor-presidente Agerh - Foto: Daniel Braga / Next Editorial
“Nosso foco é tentar nos aparelharmos, principalmente no quesito monitoramento, a previsões e a sistemas de alerta para antecipar a ocorrência desses fenômenos e gerar informações úteis” Fábio Ahnert, diretor-presidente Agerh – Foto: Daniel Braga / Next Editorial

Já o problema do assoreamento é intenso em todas as bacias hidrográficas do Estado. Isso em função do processo histórico de perda da cobertura florestal. Principalmente nas bacias do Jucu e do Santa Maria da Vitória, por terem o relevo muito acidentado.

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“Bacias pequenas e uma variação de altitude pequena fazem com que a energia da chuva, quando cai no solo, arraste sedimentos para os rios rapidamente. Então, se tem porções na bacia sem proteção de cobertura florestal, com a ocorrência de chuva sedimentos e terra vão para a calha dos rios”, explicou.

E a calha assoreada significa que o canal do rio não consegue dar vazão quando vêm as chuvas fortes, o que ocasiona alagamentos e inundações. Além disso, torna a água mais barrenta, com turbidez elevada, prejudicando o tratamento para consumo.

A redução do assoreamento depende do aumento da cobertura vegetal e de uma boa gestão do uso do solo, tarefa que está sob responsabilidade das prefeituras. Esse assunto, inclusive, foi tema do Fórum da Coordenadoria Regional da Bacia Hidrográfica do Rio Santa Maria da Vitória e Jucu, promovido em fevereiro pelo Ministério Público do Estado, com a participação das prefeituras.

Na ocasião, o coordenador regional da Bacia Hidrográfica do Rio Santa Maria da Vitória e Jucu – Regional II, promotor de Justiça Jefferson Valente Muniz, disse que abordar os impactos do desenvolvimento, como a divisão do solo urbano, ocupação irregular, desmatamento e qualidade da água, é importante para atingir o objetivo de ter água com qualidade e quantidade necessárias.

Essa matéria é uma republicação da Edição 222 da Revista ES Brasil — Anuário Verde: Água. Confira a revista digital completa clicando neste link.

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